3.3.14

III . Júlia. Doze minutos depois.


Júlia observa os índios de bronze eternamente presos dentro do retângulo alagado em uma das margens da Praça da Saudade. As órbitas dos olhos, os cabelos, as orelhas amorfas e os genitais diminutos como os dos querubins estão cobertos por limo. Imagina índios outrora de verdade tomados por uma maldição que os transformou em bronze. Ou vítimas de um desastre químico. Ou sodomitas ainda mais graves do que os punidos transformados em sal. A viagem é interrompida pelo som de choro vindo além do imaginado pelos índios. 

Há alguns poucos metros, sentada em um banco, uma mulher chora copiosamente. Tenta refrear o rompante de dor e não consegue. Os soluços são mais fortes, as lágrimas escorrem abundantemente, à sua revelia. O choro descompassado é uma batalha contra nós mesmos. Tentamos combatê-lo porque rir é normal mas chorar não. Quando a dor é muita o choro vence. Nos entregamos a ele, em um desespero tumefacto sem expectativa de final. A mulher aperta a bolsa contra o peito e chora ainda mais alto. Poderia ter sido assaltada, mas lá está a bolsa. Júlia se aproxima e percebe um hematoma sob o olho esquerdo da moça. Também percebe estar o lado direito do rosto mais vermelho que o resto. Júlia senta-se ao seu lado. A mulher cheira a suor e a maquiagem borrada. Júlia a toca. A mulher a olha como se a conhecesse. Ou estivesse tentando reconhecê-la. Ela está no meio de uma floresta confusa de sentimentos e o seu tórax, subindo e descendo, parece ter vida própria, alheia ao resto do corpo. 

"Eu posso te ajudar?", Júlia pergunta. "O que foi que aconteceu?". A mulher a abraça e chora ainda mais. Está vestida como uma secretária que acabara de sair do escritório após um turno de vinte e quatro horas ininterruptas. O mecanismo do contato. Há três minutos Júlia não imaginava a existência da mulher que agora chora e molha o seu pescoço. O som do choro descompassado. A respiração tão pesada e intensa, tão íntima junto ao pescoço de Júlia que se eriça involuntariamente. 

O abraço, forte a princípio começa a dissipar-se. Os membros relaxam. A mulher começa a recobrar o ritmo normal da respiração. Água ainda sai do seu corpo. Pelos olhos. Boca e narinas. Pelos poros mais susceptíveis ao calor. "Ângela", ela diz. "Meu nome é Ângela". "E o que foi que aconteceu contigo?". "Eu apanhei um pouco", Ângela diz. "De quem?". "Do meu namorado...quer dizer, ex-namorado agora".

"Você não pode simplesmente levar uma surra e deixar as coisas assim. Quer ir numa delegacia denunciar esse cara? Eu posso ir contigo se você quiser." 

"Não, eu não vou denunciar ele. Eu mereci levar esses tapas. Eu mereci."

"Como assim?! Que absurdo! Além de ser agredida você ainda quer defender o cara que te deu porrada? Por quê?"

"Eu fiz algo muito sujo", a mulher diz. "Eu mereci leva porrada. Na verdade, merecia muito mais."

Júlia ainda se sentia ultrajada pela falta de sentido das atitudes e discurso de Ângela, até poucos minutos uma mulher desconhecida. O lado esquerdo da sua camiseta agora possuía pequenas manchas úmidas de secreção nasal e lágrimas da mulher. Para anuviar o susto, Júlia pegou outro cigarro. "Eu posso fumar contigo?", Ângela sugeriu. Outro cigarro aceso. Júlia sentou-se novamente e observou as marcas no rosto da mulher. Um hematoma sob o olho esquerdo, o lado direito do rosto vermelho, ainda ardendo pelos tapas recém infligidos. "Bom, se você não quer ir a uma delegacia eu posso pelo menos disfarçar a merda que esse cara fez no teu rosto."

Ângela aquiesceu. Júlia retirou o pequeno kit de maquiagem que sempre carregava consigo e começou a retocar o rosto da mulher desconhecida. Colheu o excesso o de sombra ao redor dos olhos e o batom borrado. Disfarçou os hematomas com base, misturada de forma quase semelhante à pele da mulher. "Nem pensa em voltar a chorar, tá ficando bonito". A mulher possuía grandes olhos negros e cabelos negros. Era bonita, baixa, pouco mais de um metro e cinquenta. "Você vai me contar porque levou essa surra ou não?". "Eu tenho vergonha de contar o que aconteceu. Tu não tem porque saber de algo tão baixo. A gente nem se conhece." "Meu nome é Júlia. Eu trabalho com maquiagem e tava passeando à toa na praça até te ver. Agora pode começar a contar a história. Eu tô curiosa pra saber porque alguém leva uma surra e ainda acha isso algo justo. Anda, Ângela, ainda tem tempo até eu terminar a maquiagem".

"Eu conto", Ângela disse. "Mas preciso fazer isso tomando uma cerveja. Você bebe?".

"Sempre", Júlia respondeu, fechando o estojo.



Annie. Genius.