28.4.14

Docente Discente


Por duas noites consecutivas, Rogério sonhou ter sido vítima de uma calvície repentina e inexplicável. No primeiro sonho, todos os seus cabelos desprenderam-se de uma só vez, como um adesivo que perdera a aderência. No segundo, descobriu uma clareira branca e extremamente lisa entre a fronte e o topo da cabeça, como se ali nunca houvesse existido cabelo. A segunda calvície súbita o fez sofrer um dilema ainda mais difícil: cobrir a falha, raspar todos os cabelos ou, simplesmente, adaptar-se, como faz a maioria dos carecas. 

Os sonhos aconteceram nas noites de terça e de quarta, dois dias antes de começar no novo emprego. Entrou no prédio de dez andares. O segurança o guiou por corredores fluorescentes e estreitos, limitados por divisórias creme emolduradas por vidros. A sinalização dos ambientes era falha: não indicavam direções e, não raro, havia uma letra adesivada faltando, criando neologismos ou palavras sem sentido. O segurança indicou a porta alguns metros à frente e deu meia-volta, sem se importar com o agradecimento de Rogério. Não existe um meio-termo em relação aos seguranças: ou são amistosos ou não. 

Ao entrar na sala, Rogério viu quatro pessoas. Um homem e três mulheres. Todos de meia-idade. Uma das mulheres fora a responsável pela sua seleção e contratação. Existe algo característico nas pessoas que leem muito. Algo positivo ou negativo, caricato, sábio, sempre perceptível. O jeito de sentar, de vestir, de arrumar os óculos. A fala, principalmente. 

A literatura modifica as pessoas. Pode transformar um pobre desfavorecido em um doutrinador. A literatura modifica a nossa voz, a nossa expressão facial, a nossa sexualidade. Ponha dois sujeitos idênticos, um ao lado do outro. Usando as mesmas roupas, sentados na mesma posição. Uma delas, porém, nunca leu um livro na vida. Estranhamente, mesmo assim saberemos qual  é o leitor e qual deles nunca leu. A literatura muda os corpos. 

Nenhuma das pessoas naquela sala denotava isso. Não pareciam leitores. Eram somente funcionários aproveitando uma pausa curta entre turnos de trabalho. Rogério foi apresentado aos outros pela coordenadora do curso. Eles fizeram gestos cordiais e diversos. “O seu armário é ali”, disse a coordenadora, indicando a portinha mais baixa do pequeno condomínio cinza composto por pequenas portas quadradas. Seria mais fácil sentar-se no chão do que curvar-se para colocar e retirar livros e outros materiais daquele lugar. Escolas e fábricas obedecem a uma mesma regra: quem chega por último pega o armário menos privilegiado. Eles ficam vagos após o encerramento de algo. Dispensa ou desistência, morte. Rogério ocuparia o armário de cima, usado pela antiga professora de literatura. Após a sua aposentadoria, os armários foram rearranjados. Por mais liberais que sejam os lugares, os lugares nos armários mantem-se fiéis a uma ordem hierárquica espontânea, porém rígida.

O seu ingresso na universidade não foi simples. Fora necessário passar por um processo seletivo para conseguir o cargo. Doze pessoas buscando a mesma posição. Professor universitário. Literatura e, mais especificamente, Literatura Brasileira. Rogério sentiu alegria ao ver o seu nome impresso, selecionado, escolhido, e não lamentou pelos outros onze. Há muito vinha pleiteando o cargo de professor universitário e agora a sua vez finalmente chegara. Enfim iria tornar-se um professor do ensino superior; alguém acima dos professores secundaristas e muito acima dos professores do ensino fundamental. Haveria privilégios. Ao invés de pedir para os alunos comportarem-se, leva-los ao banheiro, ou ser ameaçado de morte, ocuparia uma posição confortável dentro do processo educacional. Com ele estariam os eleitos, os que chegaram ao ensino superior, os livres-pensadores que fomentariam discussões que, não raro, causariam polêmicas que só seriam dissipadas após horas de argumentações. As aulas se encerrariam com aplausos. 

Haveria um bar, onde os alunos boêmios, os melhores em literatura, rediscutiriam o conteúdo das aulas. Rogério, ainda solteiro, imaginava quantas alunas aceitariam o enlevo da sua didática, e qual delas escolheria e levaria até o seu quarto-sala, onde todas as suas forças primais e priápricas de macho se coadunariam com a sua intelectualidade no auge da forma. Rogério imaginava uma aluna chamada Lígia, vinte e quatro anos, sardas um pouco além do normal sobre o rosto e os ombros, não raro desnudos. Imaginava Sara, oriental, quarenta e dois anos, um metro e meio, divorciada, leitora de Hilda Hilst. Rogério também imaginava outras mulheres ao mesmo tempo em que pensava no zênite da sua carreira, o pós-doutorado. Seu objetivo final, agora ainda menos distante. 

Ainda não havia nada para ser posto no armário. Pensara em vários livros para indicar aos alunos. A faculdade, porém, possuía convênio com duas editoras e a adoção dos livros impressos por elas fazia-se compulsória. Rogério precisaria ir a uma livraria, apresentar-se como professor e conseguir os livros de graça. Isso não seria um grande problema. Ele, um livre-pensador, agiria como um agente instigante dos alunos e qualquer livro que fosse não competiria com a força humana de suas aulas. Rogério considerava-se um livro em si, um compêndio, misto e diverso, gigante, trazendo em si toda a principal literatura ocidental e uma meia-dúzia de orientais; as escolas, os marginais impopulares, as interpretações de texto jamais imaginadas. 

A literatura é a vida em papel. É um processo movido pelo prazer cuja consequência é uma gestação e, como em toda gestação, se conclui em um parto, movido pela dor e pelo prazer de livrar-se de algo para dá-lo ao mundo. Morto ou não. Para haver vida é preciso prazer, dor e sangue. Irremediavelmente. O fazer, a criação literária, segue este processo irremediável.

Enquanto recebia uma série de novos documentos, Rogério ouvia a conversa dos novos colegas. Provas, novas determinações da direção. A primeira reunião acadêmica geral dali a dez minutos. O ENAD, o processo seletivo, os índices requeridos pelo Ministério da Educação e o que o reitor falaria sobre aquilo tudo. “O colega sabe onde fica o auditório?”, um deles perguntou. Perguntar a alguém se sabe onde fica um auditório seria como perguntar a alguém se sabe onde está o elefante em uma cidade onde existe apenas um elefante, grande, luminoso e barulhento. Uma pergunta óbvia, para a qual Rogério não sabia a resposta. Não sabia onde era o auditório. 

A faculdade possuía dez andares entre administração, salas de aula e estacionamentos e o elefante com o intestino espalhado em forma de cadeiras poderia estar deitado, ressonando, esperando pessoas em qualquer lugar daquele prédio desconhecido. Seguiu os novos colegas até o elevador. O auditório ficava no décimo e último andar, o que o tornava avesso a quaisquer normas de segurança. Uma câmara aguardando uma tragédia. Rogério pensou no Edifício Joelma. 

Acreditava ter sido selecionado para um grupo exclusivo, mas o que viu no auditório o assustou: pelo menos duzentas pessoas aguardavam o início do novo semestre enquanto três temas instrumentais de fundo revezavam-se a cada vinte minutos. Dois telões mostravam os mesmos slides estáticos com fotos de alunos sorrindo. Atores, na verdade, com aparência bastante diversa dos alunos reais que vira no caminho para o auditório. Professores de diversas disciplinas aguardavam o início da cerimônia. Rogério tentou sentar junto aos colegas de departamento, mas não havia uma fileira vaga para todos. Sendo assim, sentou-se em uma fileira do meio, em um intervalo entre dois trios de professores conversando. Não conseguiu identificar a qual departamento os dois trios pertenciam. Mesmo possuindo corpos diversos, os professores, quase sem exceção, eram todos iguais. 

O reitor finalmente aparece. É um homem calvo, com uma barriga proeminente mal contida pelos botões da camisa. Ele dá as boas-vindas a todos. Gentilmente, pede a todos que se levantem. Uma oração será feita. O Pai-Nosso. Os professores se levantam. Dão as mãos e repetem, frase por frase, as palavras conhecidas enquanto uma música ressoa ao fundo. 

Rogério observou em silêncio as pessoas rezarem até, ele mesmo, começar a murmurar as frases finais do Pai-Nosso. Mais de duzentos professores rezando, em sua maioria. Repetindo as mesmas palavras ad aeternum achando que aquilo causará algo. Ressoará no éter ou em um universo paralelo, divino, e receberá como recompensa a mudança de algo. Sorte. Uma saúde melhor. Mais dinheiro. Uma morte feliz. Rogério viu os colegas catedráticos investindo energia em um ser imaginário gigante que controla a tudo e a todos e segue um código secreto, só dele, que vigia as suas criaturas sexualmente e permite que grávidas morram em acidentes de trânsito. Rogério imaginava Deus como um homem feio e baixinho. Um Deus pacóvio a ponto de esperar a morte natural de Rubem Fonseca. Após a oração, os professores ergueram as mãos, tentando chegar um pouco mais perto do céu. Soltaram-nas em seguida. Em seguida, aplaudiram. O nada ou eles mesmos. Rogério dará a sua primeira aula dali a uma hora.

A literatura é a consciência de que estamos sozinhos, vagando, cercados pela escuridão e, mesmo assim, aptos a entender, verbalizar e, o melhor de tudo, vender essa escuridão em forma de letras. Nós controlamos as letras, e controlar as letras é controlar a escuridão, é usar a autoridade que nos foi dada para romantizar, negar e reclamar sobre tudo o que existe. A literatura nos faz alguém. A literatura nos fez inventar deuses e torna-los mais poderosos do que nós mesmos. 

“O que é a literatura?” – , Rogério franqueou a palavra aos alunos, aguardou definições pessoais e contundentes, que fomentariam discussão até todos, como um grupo, chegarem a algo comum: a resposta ao que era, enfim, a literatura. “E existem tantas, meu Deus”, Rogério se viu dialogando com o monstro invisível, assassino de bebês egípcios. 

Dois alunos chegaram após a pergunta e não buscaram qualquer interação com o que estava acontecendo. Três levantaram-se e saíram da sala para falar ao telefone. Rogério não ouviu resposta. Apenas  um silêncio constrangedor criado por gente que leu menos de cinco livros na vida. Alguns esboçavam sorrisos. Outros rabiscavam formas sem sentido ou esfregavam os dedos na tela do telefone sem grandes pudores. Era um grupo grande, em torno de cinquenta alunos. Enquanto sorria esperando uma resposta, uma segunda resposta e uma terceira resposta para, enfim, ser estabelecido o debate, Rogério viu, em cada um dos rostos, a dureza e a neutralidade presente sobre a face de quem não lê. De quem não leu e, possivelmente não mudará.

É justo julgar alguém pelas suas leituras? “Sim, é justo”, Rogério pensou. “Eu vou precisar tomar conta de um rebanho de iletrados em um curso de letras. É como ser um professor de medicina para alguém que tem medo de sangue, ou de natação para hidrófobos, ou tentar gravar um filme pornô com assexuados ou ensinar lógica para religiosos. Todos irão fingir estarem aprendendo, vários até se esforçarão, mas jamais conseguirão compreender realmente. Os seus corpos não foram treinados para tal. Eles não possuem a constituição do leitor. Não tiveram pais leitores, ou tiveram; mas algo dentro das suas cabeças, uma disfunção nos circuitos sombrios e cheirando a sangue fê-los decidir pelo simples ato de não ler. De não gostar. De não consumir literatura. São boas pessoas, mas não leem. Não têm dinheiro para comprar livros ou paciência para lê-los online, de graça, usando o mesmo tempo que usam para digitar e ler coisas sem sentido. Eles não gostam de ler e, mesmo assim, tentam cursar Letras, Literatura. Depositam dinheiro na conta da universidade. O mesmo dinheiro que no final do mês cairá na minha conta pessoal e me possibilitará comprar mais livros. Eu, o leitor, sustentado pelos não leitores. Isso é uma coisa irônica, quase feudal.”  

Rogério pensa nos escritores criando histórias, narrativas. Os imagina fumando compulsivamente, se arrastando por um chão de linóleo coberto por sangue. Sentados em suas escrivaninhas por seis, sete, oito horas consecutivas. Lembra-se das suas vidas trágicas, desregradas ou absurdamente comuns ou reclusas. Pensa no seu grupo de estudos quando ainda era universitário. As discussões durante após as reuniões. Lembra-se do grupo de contistas do qual fizera parte antes da grande tragédia do desinteresse se abater sobre eles e o grupo simplesmente se dissipar. Ou ele ter deixado o grupo, não lembra. Vários deles certamente agora são professores universitários. Rogério imagina os primeiros contistas dentro de cavernas mal iluminadas e fedorentas, cercadas por feras ansiosas para destroçar os seus corpos e alimentarem-se deles. Imaginou os homens embrenhando-se na floresta, em grupos, para matar tais feras e alimentarem-se, vestirem-se delas. A aventura, os feitos, a morte, das feras ou deles próprios, era prorrogada em forma de histórias em um tempo onde ainda não existia o deus do auditório, papel ou caneta e, mesmo assim, a audiência, suja e jovem, prestava atenção a cada palavra simples e econômica, bruta, dita pelos contistas, e emocionava-se com aquilo. 

Na sala iluminada pela luz fluorescente, os alunos de Rogério continuam em silêncio. 

25.4.14

V . Júlia. Entre domingo e segunda.


Em casa, Júlia tentava não pensar na história que ouvira poucas horas antes. Ângela, o roubo do namorado, o hotel barato. Era difícil não conseguir lembrar de tudo; mais difícil ainda bloquear o fluxo de pensamento. "Pensamentos ruins e indesejados são como urina presa: por mais que se tente, não dá para evitar o incômodo: você precisa se levantar da cama para logo depois voltar e ainda sentir resquícios, uma vontade mal resolvida. Uma dor incômoda mesmo depois da ação ter acontecido. Os pensamentos e a urina obedecem a essa mesma ordem. Tudo no corpo obedece a isso. Nós não controlamos a nós mesmos e isso é muito triste." 

Três e meia e nada do sono chegar. Terá que estar na loja somente à uma da tarde. As horas inúteis de sono. Quando adolescente, Júlia não pensava com a maioria das garotas dorminhocas: "Eu adoro dormir". Para ela dormir significava uma negação da existência. "Pessoas feias normalmente gostam de dormir muito. Nos sonhos as garotas feias são bonitas e todos os meninos são a fim delas." Ela ainda era muito jovem quando pensava isso. Com o passar dos anos, apenas a idéia de negação permaneceu. 

Em frente ao espelho, quase quatro horas da manhã, Júlia observa os ossos dos quadris. Ergue o rosto e observa as narinas em um trabalho constante e ininterrupto. Observa o fundo dos olhos negros e as raízes dos cabelos, ergue os seios com as mãos. Na rua, caminhões fazem barulhos figurantes, alheios.

"Sou uma mulher sem amigos e, se os tivesse, possivelmente seria a mesma. Solitária. Com um nariz grande e cabelos e olhos negros. Amigos servem para passar o tempo. Não moldam ninguém. Fazem falta, mas não servem para nada além da distração de nós mesmos. Uma distração autêntica e positiva mas, ainda assim, uma distração. Nós nos esquecemos de nós. Nos sentimos melhores e, quando eles não estão ou não nos querem, sentimos raiva deles porque, na verdade, sentimos raiva de nós mesmos."

Arma a piscina na mini-sala. Prende as pequenas peças e vê tudo tomar a forma de um paralelepípedo composto por lona azul. Liga   a mangueira de borracha à pia da cozinha e a deixa dentro da banheira. Tira toda a roupa e se deita. A água, aos poucos, irá chegar à borda. 

Júlia sente vontade de fumar novamente. Sai da piscina nua. Abre o segundo terço de Brida e se distrai por mais meia hora. A piscina, pequena, está quase cheia. Ler Paulo Coelho é um entre tantos prazeres secretos. Molha o livro. É uma edição velha, comprada em um sebo. Suas costelas se expandem e se retraem conforme traga o cigarro. 

Interrompe o fluxo da torneira e entra na pequena piscina. Acende outro cigarro. O seu corpo branco, encolhido para caber no pequeno retângulo no meio da sala, relaxa gradativamente. Não sabe exatamente quando irá acordar.


14.4.14

Eudes, o número oito.


Os números gigantes são vermelhos. Ninguém sabe como se compuseram os números. Qual homem criou tais símbolos. Por que um quatro se desenha um quatro ou um oito se desenha um oito. Os intervalos infinitos entre um quatro e um oito. Como é um número por dentro. 

Eudes sabe ser o interior dos números gigantes absurdamente quente. Eudes veste um oito, seu colega veste um quatro. O calor permeia tudo o que existe na cidade de Manaus e dentro dos números gigantes é ainda tudo pior que a cidade. 

À tarde, no cruzamento entre a Rua João Valério e a Avenida Djalma Batista, vários sujeitos tentam transpor o vidro dos carros engarrafados. Vendedores de abacaxi e toda a sorte de objetos absurdos. Limpadores de vidro com cara de assassino. Crianças vestindo quimonos. Indigentes. Os carros buzinam tentando sair o quanto antes daquele espaço constrangedor. O semáforo logo se torna vermelho.

Durante este curto intervalo Eudes e o colega pulam para a faixa de pedestres e começam a saltitar agitando os braços, sempre tomando cuidado para não alterarem a ordem e confundir os eleitores na hora do voto (oitenta e quatro ou quarenta e oito?). Também para não destoarem um do outro, Eudes e o colega precisam pintar o rosto de vermelho e vestir luvas e sapatos brancos e fofinhos. Segundo o homem do marketing, isso causaria mais simpatia, faria os potenciais eleitores lembrarem-se dos personagens da Disneylândia, e a Disneylândia é algo bom; é um lugar onde todos gostariam de ir ao menos uma vez na vida. Além dos números vermelhos saltitantes, três garotas sorridentes de barrigas à mostra circulam entre os carros distribuindo santinhos e adesivos. 

Quando o sinal verde para os pedestres se torna intermitente, Eudes e o seu colega número quatro precisam dar saltos mais longos para chegarem até a calçada e salvarem ao menos a sua integridade física. Os números gigantes repetem esta ação durante sete horas. Cada um dos números recebe cinquenta reais ao final do dia. Para o quatro, o colega, e as meninas, esta era a única renda possível até algo diferente aparecer. Para Eudes, o número oito, era apenas o primeiro de apenas dois dias de trabalho. Ao final do segundo dia Eudes receberá setecentos mil reais em espécie pagos pelo Vigia.

O vigia

Os muros da Escola Municipal Vera Mendonça nunca foram transpostos sem permissão. O Vigia nunca faltara ao trabalho, nunca chegara atrasado e nunca tivera nenhum dos seus turnos noturnos incomodados por qualquer que fosse. No bairro todos apenas o viam como um homem, um trabalhador como tantos. As mesmas roupas, o mesmo corte de cabelo, as mesmas expressões. Seu maior, e mesmo assim discreto diferencial, era o de ser calado. Seus diálogos eram compartilhados com poucos. Eudes, antes de se tornar o número oito, fora um dos poucos a ouvir o Vigia falar sobre todas as coisas.

Durante várias noites, enquanto esperava a namorada, Eudes acendia um cigarro e conversava com o Vigia. O que tu tens feito além de fumar cigarro na porta da escola e esperar a namorada? Nada demais, apenas alguns bicos. Eu não sei vender coisas, não sei montar coisas, não gosto de trabalhar para gente idiota. Eudes, tu não pode passar horas fazendo algo que não gosta. Isso acumula raiva, tristeza. Às vezes é preciso acumular raiva, ter raiva de todas as coisas, mas não dessa forma. A raiva tem que ser direcionada e desaparecer em seguida. É preciso encontrar uma utilidade pra raiva, Eudes. 

O acerto, a decisão de algo grande, importante, com consequências trágicas e imprevisíveis pode empregar o mesmo tempo da decisão de algo simples. Em uma noite de quarta-feira, Vigia pergunta a Eudes se pode dar a ele um trabalho de confiança. Eudes ouve os detalhes e aceita. Os dois se encaram, sentem-se iguais. O mesmo rosto sem pai, a mesma idéia de não haver autoridade paterna ou qualquer outra autoridade além deles mesmos. 

Na manhã de quinta-feira Eudes recebe a moto, à tarde acerta todo o plano com o Vigia, à noite recebe a arma, um revólver calibre 38. O dia de sexta é apenas dedicado à humilhação de pular vestido de oito sobre uma faixa de pedestres e ouvir xingamentos. Sexta-feira à noite, esperou a namorada como tantas vezes esperara. 

Karla perguntara onde ele conseguira a moto. Comprei, ora. Acha que eu trabalho pra quê? Nem placa tem ainda, ela disse. A placa demora, mas pra eu andar aqui pelo bairro não tem problema. Quer ou não quer estrear ela? Karla sorriu, subiu na moto e fez os braços em cinto. No quarto alugado o carinho gradualmente cede lugar ao ímpeto consentido. Eudes pensa em um vazio sendo demolido enquanto ouve os suspiros longínquos, cada vez mais fortes, até sentir o real de volta, o corpo de Karla e a cama. A calma voltando na forma de um vazio diferente, pleno e silencioso, construído na forma de uma estrutura que os transforma em um misto de bichos e plantas. Que desespero foi esse? Karla pergunta, satisfeita, sem saber ter também compartilhado cama estreita com o medo da morte e da perda da liberdade. 

Sábado

Sábado pela manhã Eudes não tinha mais nada a planejar, detalhes a relembrar. Seus braços estavam mais queimados que o normal e as suas mãos estavam menos queimadas pelo uso das luvas do número. O seu rosto ainda ardia após a peleja para retirar a tinta vermelha do dia anterior. O trabalho dignifica o homem, e também o descaracteriza, o cicatriza, o torna invisível frente a outros homens com trabalhos melhores, possuidores de mais dinheiro.

Os integrantes da campanha reuniam-se antes das sete da manhã para receberem as diretrizes ridículas do fiscal da equipe. Ninguém precisava apresentar comprovantes de identificação, não havia vínculos empregatícios, apenas vínculos de silêncio e desespero. A única obrigação era aparecer e não ir embora antes do tempo. Se alguém não aparecesse no dia seguinte, paciência, logo se arranjava outro. Há dois dias o primeiro número oito recebera duzentos reais para deixar a vaga. O valor de quatro dias de trabalho por dois de folga. Um negócio e tanto. 

Os integrantes do pequeno e disforme time da campanha política, constrangidos pelo emprego indigente e sujeitos a trabalhar sem pausa, mal se falavam. Isso tornaria a confusão, o desaparecimento e o esquecimento de Eudes muito mais simples. Isso e a sua cara de nada, sua cara comum, cara de todos dentro de um ônibus, cara de funcionário de limpeza e conservação de shopping Center, cara de porta-bandeira de um futuro complexo de apartamentos. 

O calor da tarde de sábado tornava o interior do número ainda mais terrível. Além disso, boyzinhos tiravam sarro, crianças acenavam e tantos outros motoristas desviavam o olhar constrangido enquanto Eudes e o outro número, quatro, balançavam os braços e saltitavam sobre a faixa de pedestres. 

A música da campanha era tocada em volume altíssimo ao longo de toda a jornada de trabalho. Eudes colocara o celular dentro do bolso do jeans, ao lado do canivete. O revólver estava preso no coldre sob a camisa.
O candidato a vice-prefeito chegaria por volta das duas da tarde para dar um oi ao time o que, na verdade, não passava de uma verificação de como estava o trabalho de campanha. Se o jingle continuava a tocar ininterruptamente, se as meninas continuavam com os umbigos à mostra, se os números continuavam saltitando em frente aos carros.

Também às duas da tarde, o candidato a prefeito estaria fazendo uma caminhada em um bairro da periferia. E lá ele seria morto. Os detalhes desta ação não serão relatados neste conto. Eudes também a desconhecia, sabia apenas que somente após a morte do candidato principal, seria autorizada a morte do vice-candidato. Tal autorização aconteceria de forma imperceptível, vibrando próxima ao corpo de Eudes.

Olha ele lá, ele tá vindo!, berrou o fiscal ao ver a picape gigante se aproximando do cruzamento. Enquanto saltitava, Eudes ouviu barulho de sirenes. O engarrafamento da encruzilhada de semáforos agitou-se com os carros de polícia tentando abrir caminho no sentido Centro-bairro. Os motoristas, mesmo nervosos e incompetentes em sua maioria, conseguiram abrir espaço. Após a passagem das viaturas da polícia, um cruzamento engoliu o outro e as sirenes deram lugar ao som raivoso das buzinas. A encruzilhada ficou estática, os carros trançados em um mosaico barulhento. O vice-candidato preso, a dez metros de Eudes. 

A preocupação quanto ao outro ponto de ação ter tido ou não sucesso se dissipou quando o celular vibrou. Eudes, na calçada, com a calma necessária, descalçou os sapatos e as luvas. Ninguém percebeu o número oito encostado a calçada, com uma de suas faces cortada de cima a baixo.


O selvagem

Após a passagem dos carros da polícia, o fiscal do grupo gritou: O homem chegou! Vamo mostrar serviço, pessoal! A frase dita, porém, não viu o seu resultado: o pensamento foi interrompido por uma coronhada perto da têmpora. 

O vice-candidato, atônito pela notícia terrível que recebera pelo telefone tem um segundo frêmito ao ouvir o barulho de um salto sobre o capô da picape: Um selvagem, de rosto vermelho e expressão fria, o observa. O susto não se processa plenamente, não chega a dar lugar ao pânico: O selvagem aponta o revólver e efetua, em intervalos curtos e regulares, seis disparos. Cinco sobre o peito. Um, o sexto, último, sobre a testa.

O selvagem se ergue e respira fundo, descalço e desgrenhado, com o rosto vermelho impassível enquanto observa o engarrafamento paralisado com os barulhos dos disparos. Integrantes da equipe, motoristas, transeuntes, unidos pelo medo, todos, olham aterrorizados para o seu rosto vermelho inexpressivo e para o revólver vazio.

Os ouvidos de Eudes se fecham. Ele corre para a moto e parte em disparada, costurando carros, subindo em calçadas. Duzentos metros à frente está fora da via principal, em pouco mais de um quilômetro está circulando em velocidade normal pelas ruas estreitas do Bairro de São Jorge até chegar à oficina. O mecânico se assusta ao ver o rosto vermelho derretido de Eudes quando ele tira o capacete. Tá aqui a moto. Que moto? Diz o mecânico, baixando a porta da oficina.

Vigia dissera que o esperaria no portão da Escola Estadual Vera Mendonça a uma da madrugada. Ficou feliz em ver o Vigia com a calma de sempre e a sacola com setecentos mil reais em notas comuns.

A escola vazia possuía o aspecto estranho de um prédio abandonado, apesar de novo. As portas das salas entreabertas, deixando escapar o cheiro de giz e carteiras vazias. A biblioteca ficava em uma sala aos fundos.

Domingo 

Domingo à noite, o Vigia trouxe mais comida e o jornal do dia. “Tragédia política”, dizia a manchete, e todo um caderno fora dedicado aos fatos e à trajetória dos dois candidatos a prefeito da cidade de Manaus, o principal e o vice. Mortos. Apesar de tantos relatos e entrevistas, ninguém conseguia ao menos ter idéia de quem seriam os assassinos. A suspeita quanto aos possíveis mandantes recaiu, obviamente, sobre os dois outros principais concorrentes ao cargo. 

Os dois candidatos sobreviventes uniram-se no medo e passaram não mais aparecer em público, muito menos se jogarem nos braços do povo após o estranhíssimo assassinato do principal candidato. As caminhadas demagogas e suarentas foram abandonadas em definitivo.

A polícia redobrara seus meios investigativos, tanto na direção do mandante quanto na dos executantes, assassinos profissionais que, certamente, estariam escondidos no interior do Estado. Na ânsia de suprir as cobranças da imprensa, a polícia conseguira até mesmo arrumar dois retratos falados: dois homens na casa dos trinta, de traços marcantes e expressão raivosa. Totalmente díspares da aparência neutra de Vigia e Eudes. O rosto do "número-assassino", o assassino do candidato a vice-prefeito, não fora pintado de vermelho.

Amanhã de manhã cedo tu volta pra casa. Ficou com medo? Teve pena? Se arrependeu? Não. É disso que falo. Sempre teve gente desse tipo, assim como a gente. Quem tá em cima não enxerga e acha a gente fraco, burro, preguiçoso, esquecendo o sangue de gente selvagem e estranha que ainda corre aqui dentro. A gente é apenas o fio condutor para que eles lá em cima destruam uns aos outros porque eles sempre vão destruir uns aos outros porque assim é que a história do mundo foi e vai ser sempre.

Eudes chegou em casa antes da alvorada. Ainda fazia o frescor efêmero de início do dia que sempre ilude os manauaras antes do calor implacável voltar aos céus, a permear e ser expelido por tudo o que existe. Entrou e trancou a porta.


13.4.14

IV . Ângela. O mesmo domingo.



Ângela gastara todo o dinheiro do namorado. Desaparecera por três dias, durante os quais dormiu com dois homens diferentes. 

Nunca entendeu ao certo o que faz as pessoas cometerem atos estúpidos. O que as faz centrarem-se em si próprias e ignorarem todo o resto. Virarem uma ilha defeituosa, prestes a afundar. Maldade, revolta, inconsequência, burrice, ou tudo isso junto. Os atos errados trazem uma sensação fria e acolhedora. Cria-se um segredo entre você e o mundo.

Ângela sabia a senha da caderneta de poupança do namorado. Na manhã de quinta-feira, roubou o cartão da caderneta de poupança e sacou a quantia de cinco mil reais; a qual, segundo ela, era o resultado da economia de quase um ano. Após o almoço, fez uma reserva em um hotel três estrelas, à tarde foi ao shopping, onde comprou roupas novas , assistiu televisão bebendo a cerveja do seu novo quarto, o qual, se não era uma suíte dos sonhos, ao menos era muito maior e mais limpo do que o seu próprio. Ficou bêbada sozinha. O seu telefone fora desligado por motivos óbvios. Mandara apenas uma mensagem antes do desaparecimento. Ela dizia: "Preciso me ausentar por três dias, não te preocupa, vou estar bem. Preciso resolver uns problemas. Preciso me acertar comigo mesma. Ângela.

Na sexta e no sábado seguiu a mesma rotina pela manhã e pela tarde. As noites, porém, foram diferente. Em cada uma delas dormira com um homem diferentes. Conhecia ambos, e sempre tivera a vontade de saber como seria ir para a cama com eles. Não concomitantemente. A essa altura, Ângela sentia-se má, o que não significava sentir-se mal com esse fato. Os dois amantes foram bastante semelhantes na sua performance. Eram bastante parecidos com o namorado roubado. Ângela ficou em dúvida se eles eram semelhantes ou se ela era sempre a mesma. Se, em uma situação ainda mais intensa, trepasse com vinte e um homens e se com cada um deles sentisse exatamente o mesmo pelo fato de um defeito interno, emocional ou perceptivo, a fizesse uniforme. Isso seria absurdamente trágico; agravado pelo fato de Ângela não sentir a menor atração por pessoas do mesmo sexo. 

Ao meio-dia do domingo, as suas micro-férias terminaram. O seu estado suspenso, sem leis ou obrigações. Era hora de arcar com algumas consequências. Enfrentar o namorado. Dar explicações no escritórios pelas faltas na quinta, sexta e sábado. Ângela se considerava má. E sabia que as pessoas más sempre são perseguidas pelas consequências dos seus atos. Os vilões sempre precisam fazer remendos existenciais, inventar realidades paralelas, mentir e fazer essa mentira peitar a realidade. Eles precisam enganar. Criar empatia à força. 

O choro e a roupa amarfanhada do escritório não adiantaram de nada. Ao ter descoberto o roubo do cartão e ter acompanhado online cada um dos saques e despesas realizadas e, com eles, os nomes dos estabelecimentos de compra, o namorado apenas aguardou. Ângela tentou esboçar uma explicação, inventar uma história pungente envolvendo assalto ou mesmo um cativeiro mas, ao ver o notebook sobre a mesa, se deu conta de que qualquer história seria derrubada pelo histórico simples e preciso de todos os seus passos nos últimos dias. 

"Por quê tu fez isso?", o namorado perguntou. Ângela pensou em uma explicação subjetiva, a qual envolveria infelicidade, incompletude e frustração; mas a verdade é que fizera o que fizera por dois motivos simples:

1. Nunca tivera a oportunidade de gastar cinco mil reais; e
2. Não gostava do namorado nem um pouco.

Os dois pontos, ditos em um curtíssimo intervalo de tempo, tiveram como reação um murro no rosto e mais alguns tapas espalhados ao longo do corpo. Ângela tentou reagir, mas teve os braços bloqueados pelo namorado. "Eu vou te denunciar, seu covarde!", disse ela, entre rompantes de dor e respiração descompassada. "Pode denunciar, sua vagabunda! Aí e já aproveito e te denuncio por roubo e conto pra toda a tua família a putaria que tu fizeste comigo!".

Ângela não teve outra reação além do choro. O rosto ardia e em contrapartida ela sentia uma covardia, uma falta de vontade imensas de ir a uma delegacia. O que isso resolveria? Ela tomara uma decisão e devia arcar com as consequências. Uma lógica distorcida crescia dentro de sua cabeça. A fazia pensar que, de certa forma, o namorado merecera dar aqueles tapas. Imaginou os ladrões pegos em flagrante e sendo agredidos por populares. A imensa maioria roubou algo de valor muito inferior a cinco mil reais. Ela roubara e fizera bom uso do roubo. Seria complicado explicar a histórias em uma delegacia. Provavelmente ficaria por lá mesmo, em uma cela, até alguém da sua família aparecer para testemunhar a sua desonra e tornar-se credor após pagar a fiança. 

As lágrimas, porém, não se interrompiam. Continuaram durante todo o caminho de saída do apartamento e tornaram-se intensas a ponto de envolverem todo o corpo, em espasmos discretos e inconstantes. Ângela precisou sentar em um banco da praça para esperar as lágrimas terminarem. Uma ordem e um impulso estranhamente fora do seu controle. O choro real, sentido, é como uma chuva forte. Cai de forma intensa e constante e não temos a menor idéia de quando vai terminar. Às vezes demora poucos minutos, às vezes dias inteiros. Ela pára do nada. Completamente, ou transformada em uma chuva fina e inofensiva.

Júlia ouviu toda a história de Ângela sem fazer interrupções. Não a julgou, apenas perguntou onde ela morava. "Eu moro aqui no centro mesmo", Ângela respondeu. Há algo de próprio nas pessoas que moram no centro. Elas são moradoras discretas. Não esticam as pernas para fora de casa, deixando-as à mostra na rua. 

1.4.14

A Cidade dos Carros



Tela clareia.

Início da noite. Zeca está parado enquanto tudo corre ao seu lado direito. Sente uma parada brusca. Uma loja de vestido de noivas. Manequins o observam. Vê o câmbio de marchas, o velocímetro. Olha para o motorista. 

Um homem entra sem pagar. É um pregador andrajoso tentando ser elegante. Sua camisa tem cor de goiaba e possui regiões escuras de suor. Abre uma bíblia velha. Começa a pregar, mas não consegue concluir o discurso. Cala-se. Se senta. Começa a chorar. Os passageiros finalmente o observam.
  
Noite. Zeca começa o seu trabalho de vigia. Caminha. Controla os músculos do rosto e a coluna cervical de modo a parecer inabalável e ameaçador. Zeca tem um metro e setenta e os cabelos curtos resistindo à calvície mesmo após os quarenta. Zeca precisa guardar sessenta automóveis pelas próximas oito horas portando apenas um revólver calibre 38. 

A Cidade dos Carros possui restaurantes. Existe vida além dos veículos parados como se fossem crianças esperando pela adoção. Pessoas bem vestidas vão até aos restaurantes da Cidade dos Carros para comer sushi e pizza. Não percebem a presença dos seguranças caminhando, guardando algo que um dia será de alguém.

Meia-noite. Os frequentadores dos restaurantes vão embora. Além de Zeca existem apenas mais três seguranças. Eles se reúnem no centro da Cidade dos Carros e conversam tranquilamente sobre assuntos banais para logo voltarem aos postos. 

Madrugada. Zeca encosta em um dos carros. Sente um abismo puxá-lo pela nuca. O sono o cerca e o envolve. O faz sonhar com a mulher e o filho. Vê o garoto criando membros e saindo para o mundo através de um rasgo feito no ventre da mulher. Zeca os vê sob luzes imaginárias que os tornam ainda mais valiosos. Ambos sorriem. Brincam. O sono é interrompido pela dor. Zeca está no chão. 

Vê um homem encapuzado sobre ele. Sente o pé sobre o peito. Leva outro soco no rosto. É erguido pelo mesmo mascarado e amarrado a um dos pilares da Cidade dos Carros. Não sabe onde foi parar a sua arma calibre 38. O homem encapuzado se reproduz em inúmeros clones. Dez, vinte, trinta, mais de cinquenta homens. Todos em capuzes negros. Eles entram nos carros novos e partem. A polícia não aparece. Zeca ergue a cabeça e você os colegas também amarrados a outros pilares. O silêncio retorna. Zeca ergue o rosto. Agora maior, desproporcional. O nó, impossível de ser desfeito, deixa os seus pulsos em carne-viva.
A Cidade dos Carros possuía o número exato de oitenta e sete veículos. Todos moveram-se. Seguiram diferentes destinos. Saíram da sua cidade.

Manhã. A polícia aparece somente após os primeiros vendedores chegarem para o trabalho e presenciarem a humilhação dos seguranças. Funcionários choram. Outros querem ir embora dali imediatamente. Os seguranças estão em um estado de semi-transe, meio adormecidos, trêmulos. Todos foram agredidos. A polícia finalmente chega e tenta saber o que aconteceu; como oitenta e sete carros simplesmente foram roubados. É o trabalho deles saber e, mesmo assim, eles perguntam:


POLICIAL

Qual o teu nome, companheiro?

ZECA

José Carlos.

POLICIAL

Que porra foi essa, José Carlos?

ZECA

O senhor pode me chamar de Zeca.

POLICIAL

Zeca, José Carlos. Foda-se. Que porra foi essa? Como tanto carro foi roubado de uma vez só? Quem foi que te apagou?

ZECA

Eu não sei. Eu tava vigiando quando senti um murro pelas costas. Depois disso apanhei até desmaiar.

POLICIAL

Vocês são uns merda mesmo, né? Os outros cagões ali também não sabem de porra nenhuma. Vocês servem pra quê, caralho? Só pra ser testemunha de assalto ou pra ser morto? Puta que o pariu! (vira-se para outro policial) E ainda dão armas pra esses merda! Tá bom, ô. Tá liberado. Fica de alerta que a gente vai te chamar na delegacia pra testemunhar a grande cagada que aconteceu aqui hoje.

Zeca vai ao banheiro. Se olha no espelho. Moreno, mais de quarenta anos. Músculos autênticos. Rosto angular. Desangular agora. Sente um tremor incontrolável. Ouve alguém chamá-lo. O dono da Cidade dos Carros o espera em uma sala composta por divisórias, vidros, móveis creme e uma cafeteira barata. Zeca se senta. Ainda está trêmulo e tem apenas as têmporas molhadas pela água da torneira. Sente as pernas trêmulas ao subir as escadas. Nunca vira o dono da Cidade dos Carros. Ele é gordo, usa uma camisa estilizada de um time de rúgbi. Ele sua muito.


CHEFE

Como você tá?

ZECA

Muito nervoso. O meu rosto tá doendo muito, também. Eu achei que ia morrer.
CHEFE

A gente não liberou vocês antes porque precisava esperar a polícia. Você sabe como funciona, né? Mesmo assim, graças a Deus, não houve morte. A gente vai recuperar esses carros, meu amigo. Vidas a gente não recupera. A gente tá te liberando pra descansar em casa, seu José. E, infelizmente, a gente vai ter que reestruturar todo o nosso negócio depois dessa coisa absurda que aconteceu aqui. Sabe? Quando acontece isso é um trauma muito grande. Eu ainda não tenho idéia do que aconteceu.

ZECA

Desculpa, eu não entendi.


CHEFE
A gente tá mandando vocês pra casa, seu José. Pagando tudo, direitinho, mais os direitos. Só vai levar alguns dias pra tudo ser depositado em sua conta. Infelizmente não dá mais pra ter você aqui.

ZECA

O senhor acha que eu falhei? Que eu não fui um bom segurança?

CHEFE

Pelo contrário, meu amigo! Você fez o que tinha que ser feito. Protegeu a nossa Cidade enquanto pode. Nessas horas não adianta dar uma de louco, bancar o herói e, ao invés de estar aqui conversando comigo, estar no I.M.L. morto sem saber por quê. José, meu amigo. Muito obrigado. Eu não sei como te agradecer e sinto muito por ter que te deixar ir; mas você sabe como são as coisas. Te desejo boa sorte.



O sujeito se sente desconfortável. Mesmo tendo ensaiado o discurso sempre é difícil ver o pobre-diabo; o sujeito que recebe um salário ridículo para matar ou ser morto, simplesmente ser despachado como um incapaz. 

Os dois trocam um cumprimento inadequado. Zeca sai da sala.

O fato de não ter sido gravemente ferido eximira a obrigação da empresa de levá-lo ao hospital e arcar com despesas além da indenização. mulher e no filho. 
Dez e meia da manhã. Zeca precisa pegar o ônibus de volta pra casa. As pessoas olham para seu rosto, inchado. Solta um grunhido abafado ao sentar-se. Está sem emprego. Está vivo. Pensa na mulher e no filho. Os três sobrevoam uma paisagem noturna. Sente o cheiro do cabelo do garoto. A mulher, junto a ele observa com orgulho a cena familiar para, logo em seguida, lançar um olhar maldoso, lascivo.
Tarde. Zeca acorda. Vai até o sofá. Abre uma cerveja com dificuldade.

Noite. Alguém toca em seu ombro.

Zeca vê a sala. Vê as fotos. Os mapas. O homem, oferecendo a mão esquerda para erguê-lo.
HOMEM

O senhor precisa acordar. Todos estão esperando.

ZECA
Eu sei. Eu estou indo. 


Alta noite. Zeca segue por um longo corredor até alcançar as escadas que o levam ao subsolo. Chega a um galpão subterrâneo. Ao Centro. Vê mais de mil pessoas. Todos estão de pé, o aguardando e, tão logo o veem, o aplaudem entusiasticamente. Zeca sobe ao púlpito simples, feito de caixote. Todos se calam e se sentam. Zeca olha para baixo e ergue o rosto. Os hematomas estão ainda maiores. Ele veste uma camisa negra. Não tem suor. Sua mão direita se abre e se fecha compassadamente. Zeca olha ao redor. Conhece o nome de cada uma dessas pessoas. Sabe o motivo de estarem ali. Reconhece os seus objetivos. Ele é o centro de tudo. O ar fica mais pesado. Por vinte segundos, Zeca observa a sala, o ambiente. Respira fundo.

ZECA

Minha mulher e meu filho foram mortos em um acidente de trânsito. Estavam atravessando uma rua quando alguém, na contramão, matou os dois. Minha mulher tinha vinte e oito anos. Meus filho, um ano e dois meses. Não sei quanto tempo eles sofreram até a morte. Não sei quem morreu primeiro dos dois. Não sei qual dois viu o outro morrer. Eu estava no trabalho. Vi os dois mortos. Cheguei quase uma depois. Mesmo assim eles ainda não tinham sido removidos. Eram duas coisas misturadas. Não eram minha mulher e meu filho. Gente que eu nunca vi observava os peitos da minha mulher. O crânio aberto do meu filho. 
Eles tiraram fotos.

Eles desapareceram e eu não os vi. Eu vi corpos. Eu não tenho idéia de quem os matou. Ele ou ela anda por aí. Não importa. Eles vão pagar por isso. Eles irão sofrer como nós sofremos. Isso vai sanar a nossa dor? Não. Mas nós queremos mesmo assim. E nós iremos compartilhá-la. Todos, sem exceção, irão pagar. Essa é a missão de cada um aqui. 
Hoje começamos algo. Começamos a fazer justiça. Todos nós aqui, sem exceção, já sofremos uma perda. E isso nunca deixa a gente. Eu sinto a dor falta da minha mulher e do meu filho durante todos os momentos da minha existência, assim como todos aqui também sentem a falta de alguém. Tanta gente amada morta. Perdidos de forma tão injusta. Vítimas de gente covarde. Assassina. Impune. Nenhum, nenhum deles sofreu maior consequência além da culpa, se é que sentem. 

Todo mundo aqui sabe que sentir culpa é muito melhor do que sentir dor. A minha dor, a dor de vocês, não passa. E nunca vai passar. A gente vai morrer com ela. Uma dor fria, silenciosa, estragando os poucos momentos felizes que temos quando estamos distraídos e logo recobramos a memória. Os nossos mortos, os nossos aleijados, logo voltam pra gente. 
Nós acreditamos que essa dor pode ser amenizada por um pouco de justiça. E nós começamos a fazer essa justiça hoje. Nós precisamos de muito tempo e de muita paciência. Precisamos encontrar os amigos certos para fazer o que era preciso. Precisamos nos tornar irmãos. Precisamos firmar um segredo que, se fosse compartilhado, seria punido. Felizmente isso não foi necessário porque o nosso propósito era o mesmo. 

Todos nós, apesar de tão diferentes, sentimos a mesma dor, compartilhamos o mesmo quarto escuro onde a luz não mais existe. E não entra. Nós. Aqui. Mais de mil pessoas, escolhemos as pessoas certas para as tarefas certas. Conseguimos anular a ação da polícia porque entre nós está a polícia. Conseguimos anular as câmeras porque entre nós estão os que controlam as câmeras. Conseguimos apagar registros de carros porque entre nós há quem consiga apagar registros de carros. Nós, aqui, conseguimos fazer o que nunca foi feito. Precisamos apenas da irmandade. Organização. Conhecimento. Entrar em computadores e apagar dados. Dar murros exatos na minha cara e no meu estômago (risos). Enviar frequências imaginárias durante toda uma noite. Para a polícia que não é a nossa polícia, para os receptores das imagens das câmeras da Cidade dos Carros. Nenhum de nós será descoberto. Nenhum. Os policiais são burros. Os detetives geniais só existem em livros. 
E, mesmo se existissem, muitos deles estariam aqui entre nós. 

Essa Cidade dos Carros foi o início de tudo. Sessenta e sete veículos foram retirados de lá. Foram “roubados”. Pelas estatísticas, praticamente sessenta acidentes serão evitados. Quantos morreriam nesses acidentes? Quem morreria ou sobreviveria com uma deficiência? Uma sequela que os tornaria outro, os tornaria um problema? Noite passada, meus irmãos, nós começamos algo e isso não irá parar. Isso ficará mais grave. Isso causará medo, pânico. Isso causará justiça. Nossos planos futuros, maiores, ainda mais justos, serão postos em prática. 
Mas, agora, é hora de sairmos. 



Zeca está no centro de uma aclamação esmagadora. Abre e fecha a mão esquerda várias vezes, como se com isso fosse possível fazer o sangue fluir mais rápido. Como se isso trouxesse de volta a sua mulher, o seu filho e todos os entes queridos, mortos, dos membros da irmandade. O movimento se intensifica. Abre os olhos e sorri.

Madrugada. Ordenadamente, todos saem para o nível do solo. Estão em um grande terreno e fazem um grande círculo em torno dos carros. O terreno é verde, e os carros formam um grande círculo se vistos do alto. Não há centímetros entre eles. Colididos, colados uns aos outros. Todos novos. Plástico cobrindo os bancos. Máquinas natimortas. A grande fogueira fora organizada antes do discurso do líder. Todos os carros estão cobertos por gasolina. O grupo possui menos de um minuto para observar o início das chamas. Elas se alastram e todos sentem um sentimento de raiva e alívio.



Tela escurece.

O Sétimo e o Oitavo Andar


Ângelo gosta de sentir os pés descalços na areia da praia logo à frente de casa, Sente os cabelos ainda sonolentos sendo despertos pelo vento, afunda os dedos dos pés e observa o horizonte. Nestes momentos realmente gosta de estar vivo. Gosta do privilégio de ser dono de uma casa em um lugar tão bonito. Vê a sua mulher saindo do mar, caminhando em sua direção. Ela sorri. É uma mulher linda. Olhos verdes imensos. Ossos e carnes nos lugares exatos. Ela treme de frio. Os seios grandes deixam o frio à mostra. Os poros dos braços pernas e barriga deixam o frio à mostra. Ela senta ao seu lado e encosta o corpo tentando trocar o calor. Ângelo dá um suspiro profundo e sai da cama.

Olha o basculante alto e o ventilador de teto prestes a cair a qualquer momento. Não sabe que horas são. Pega o celular. Passa das dez e a tela possui uma fila imensa de ícones com de diversos formatos. O apartamento possui apenas quatro cômodos. Ângelo faz um café enquanto tenta resgatar o que houve há poucas horas. A sua cabeça não dói exatamente, mas não parece estar no lugar certo. Falta meio centímetro entre o crânio e o cérebro. O café é ralo e queima a sua língua. Ao ver as mensagens e as fotos, lembra do que viu e ouviu, lembra de Frank. Meio temeroso e triste, ele contou como encontrara a mulher perfeita e como, no dia seguinte, ela desaparecera e deixara como contato um número que não existia. 

“E o que tem de estranho nisso, Frank? Tu é feio pra caralho e só põe pra cima de mulher quando tá bêbado. Nada mais lógico do que a menina te deixar dar uns pegas e depois não querer mais papo. As coisas são assim, velho.” 
“Eu sei, porra. Quer dizer, sei o lance das coisas. Feio é teu pai. Mas esse não é o problema. O estranho é que dois dias depois dela ter desaparecido, recebi umas fotos dela. Eram de um número desconhecido e mostravam fotos da garota. Claro que na hora tentei entrar em contato, mensagem e o caralho, mas esse número também simplesmente passou a não existir mais.” 

“E aí?” 

“E aí que tu tem que me ajudar a encontrar de novo essa garota. Tu manja de livros policiais e assiste uma porrada de filme policial. Fora que tu tem um jeitão de detetive, sempre com o cabelo arrumado e com essas camisas de botão, brincando com a fumaça do cigarro, tentando imitar os caras dos filmes. Tu tá de férias e não custa nada ser um detetive por algumas horas. Vai que essa menina tá morta ou aconteceu alguma merda com ela? Porra, nem comer ela eu comi! Eu não posso ir contigo porque vou tirar serviço. Pra tu se sentir o detetive vou até te pagar uma grana pela investigação.”

A coragem possui uma estranha relação com o ato de estar bêbado. Amizades eternas. Viagens. Atividades absurdas. O pagamento pela investigação só conseguiu ser elevado até a soma de cem reais. Pagos em espécie, em notas de diversos tamanhos, cores e idades. Ângelo se arrependeu em ter aceitado a tarefa absurda. Mesmo assim não voltaria atrás. Ninguém gosta de admitir as bobagens feitas quando ébrio. 

Não viu outra utilidade para o seu pagamento a não ser beber a quantia inteira e inventar uma história tirada de algum conto policial. Olhou as fotos no seu telefone. O rosto da garota simplesmente não existia. Das sete fotos, três mostravam uma massa de cabelos vermelhos cobrindo o rosto enquanto ela dançava, duas a mostravam de costas e duas olhando para o lado, deixando à mostra apenas o contorno lateral do rosto. Cabelos, bunda e peitos. Pouco mais de um metro e meio. Morena. Uma última mensagem dizia “Ah, o nome dela era Dalva. Não sei se era o nome verdadeiro...”. Um pouco por vaidade, e muito por pura falta do que fazer, Ângelo seria um detetive pelas próximas horas. Havia cem reais a mais em sua carteira. 

Antes de tudo era preciso de um banho. Com as pernas afastadas, Ângelo deixar a sua mulher se acomodar na banheira. As suas costas no seu peito. O seu cabelo salgado pelo mar tocando a sua boca. Ângelo pode ver claramente todo o corpo submerso. As pernas. A barriga semi-submersa. Ela começa a esfregar o seu corpo contra o corpo de Ângelo. Um calor crescente. Uma parada brusca fez com que toda a água saia da banheira e a mulher desapareça. 

Ângelo olha para o lado e vê o caos do terminal 1. Impossível não relacionar com o termo mórbido com a progressão numérica. Quanto maior o número, maior a proximidade da morte. Terminal 1, 2, 3, 4, 5. “A maioria das pessoas, dentro do ônibus e dentro do terminal, olham falam ou digitam em telefones celulares. Se as pessoas tocassem os genitais com a mesma frequência com a qual tocam os celulares, o mundo provavelmente entraria em colapso”, Ângelo pensa, também tocando o seu. Passa das duas da tarde. Horas antes, olhando para as fotografias, Ângelo resolveu ao menos tentar explorá-las. As fotos foram tiradas em um lugar escuro e vazio. Não havia nada ao redor. Poderia ser em qualquer lugar da cidade à noite ou apenas centro da cidade à tarde. 

Às costas das lojas de tecidos e confecções, os puteiros funcionam a todo vapor, tarde noite e madrugada a dentro. Ele conta doze casas noturnas na Rua Lobo D´Almada. As suas próximas horas serão passadas em lugares escuros nos quais irá esperar e beber pacientemente, aguardando o improvável. É uma espera prazerosa, ao menos. Enquanto bebe a cerveja com parcimônia, observa garotas dançando e tirando a roupa. A maioria delas é feia e untada em óleos. Dois ou três solitários as observam, esticam a cabeça, tentam ver algo, tocá-las. Segue. Bebe mais algumas cervejas. Vê o céu se tornar escuro como o interior das casas noturnas. O mundo escurece, vira uma casa noturna. Segue. Entra na quinta ou sexta casa. 

As três características de Dalva, cabelos vermelhos, bunda estreita e seios fartos não se encaixam em nenhuma das mulheres que passam à sua frente e pelas suas mãos, falando ao seu ouvido e propondo um arranjo sexual breve. Fica cada vez mais difícil manter a consciência, mover-se até o banheiro, falar com as garotas, declinar as suas propostas, analisar a trinca básica das características da garota que procura: cabelo vermelho, bunda estreita, seios grandes. Há variações, apenas. Cabelo vermelho, bunda estreita, seios pequenos. Bunda estreita, seios grandes, cabelos loiros. Cabelo vermelho, bunda estreita, seios grandes, negra. Cabelo vermelho, seios grandes, com pênis e testículos. Cabelo vermelho, seios grandes, bunda grande. Segue. Muda de casa noturna. 

Passa das duas da manhã. Só mais algumas cervejas e terá que voltar para casa. Senta-se em um canto escuro com vista panorâmica de todo o lugar. Uma mulher dança sozinha. Pouco mais de um metro e meio. Cabelo vermelho, bunda estreita, seios grandes. Ângelo olhou tanto para as fotografias que passou a ter vontade de comê-las. Todas as sete Dalvas, uma por uma. Dalva ou não, irá comer aquela mulher dançando alguns metros à sua frente. Ela para e o encara, como se fosse um flerte e não o início de uma negociação de valores e posições sexuais. “Dalva, lembra de mim?”, Ângelo diz esperando uma correção quanto ao engano. “Não lembro, mas posso relembrar fácil fácil”, a garota responde. 

É difícil saber qual dos dois bebeu mais. “Eu não quero trepar aqui. É sujo,” ela diz. “Vou te levar pro meu lugar, a gente vai ter que andar um pouco, mas eu prometo que vou compensar a caminhada e os cem reais”. Enquanto caminham, cambaleantes, Ângelo tem cuidado para não pisar nos pezinhos calçados com sandálias havaianas. Passa a mão nos quadris cobertos pelo um short jeans curto, observa os seios oscilarem com os passos. Cheira os cabelos vermelhos. Dalva não usa sutiã calcinha ou perfume.

“Chegamos”, ela diz. São mais de três da manhã e apenas os dois estão na Rua Floriano Peixoto, parados em frente ao antigo prédio do Hotel Amazonas. “Como assim a gente chegou? Esse hotel não existe mais.” Dalva ignora a observação e segue em frente. Ela e o porteiro se cumprimentam em um idioma estranho. No elevador, pressiona o número sete. Durante os poucos segundos de subida, se pegam como se fossem morrer ao abrir das portas. 

A calma dos elevadores escondendo metros escuros e mortais de um abismo silencioso. Quando a porta se abre, porém, não há nada mórbido. Há vida. Todos os quartos estão com as luzes ligadas e as portas abertas. Há diferentes pontos de música. Ângelo vê um povo escuro e miúdo conversando vividamente em um idioma que não conhece. Enquanto cruzam o corredor, cada porta revela algo diferente. As pessoas escuras, vívidas e miúdas comercializam produtos anacrônicos. Videocassetes e fitas VHS. Brinquedos eletrônicos. Discos de vinil e fitas cassete. Walkmans. Cartuchos de videogame. Tudo à venda, absurdamente desatualizado e barato. Naquele lugar a Zona Franca ainda existe e todas as músicas misturadas são antigas.

No fim do corredor existe um quarto dedicado às bebidas. Rótulos atuais e antigos. Cervejas, destilados, garrafas sem rótulo em diversos formatos. No quarto se ouve Roberto Carlos. Ângelo percebe que o dono do quarto sabe que ele não é dali; não pertence àquela comunidade. Ela cumprimenta Dalva no idioma estranho para logo em seguida falar com Ângelo em português: “É muito injusto as pessoas criticarem a adaptação das músicas do Roberto Carlos para a liturgia católica. Eles não sabem que Roberto Carlos nasceu antes de Jesus Cristo. Roberto Carlos tem mais de três mil anos, caralho! ELE ensinou a Jesus todas aquelas coisas bonitas!” Dalva sorri com a observação, sem deixar claro se leva ou não aquilo a sério. “Rónei, vê pra gente uma garrafa de vodka e dois copos. Eu quero maconha, também. E um isqueiro Bic.” Ela olha para Ângelo: “Essa a gente racha, tá bom? Você vai ser o meu namorado enquanto estivermos no Hotel. Só não pergunta nada. Aqui não é lugar para perguntar nada.” Rónei passa as compras e cobra o valor de 17 reais. “O meu quarto é no andar de cima”. A subida do elevador tem o tempo de uma respiração longa. A porta se abre, e Ângelo ver o corredor e os quartos ocupados pela gente do povo vívido, escuro e miúdo. Alguns estão vestidos e outros sem roupa. Todos, sem exceção, estão absortos em variações eróticas; de simples beijos a posições que só podem ser vistas na tela de um computador. Além de Ângelo, apenas uma mulher loira e alta, com roupas cáqui e uma mochila gigante destoa da maioria. Vários miúdos a cercam e a despem avidamente. A turista se deita no chão do corredor. Dalva e Ângelo encontram um canto, bebem a vodka, dividem o fumo, se despem e se deitam. Ela é uma e várias ao mesmo tempo. O seu corpo é vívido, escuro e estranho. Em nenhum momento ela deixa de o olhar nos olhos. “Eu gosto assim, paciente”, ela sussurra. “Achei que tu fosse desistir no terceiro bar... mas aguentou firme... tá aguentando firme”. As horas passam. A garrafa de vodka está quase no fim, o fumo está quase queimando os lábios. Ângelo sabe que está na hora de ir embora. Os quartos estão ficando mais tranquilos. O som humano diminui. Muitas pessoas escuras e miúdas começam a dormir, abraçadas. Em pares ou em grupos. “Eu vou descer, Dalva”. “Tu sabe que meu nome não é Dalva”, ela diz. “Eu sei”. Ângelo a beija, se veste, deixa o dinheiro e segue. Desce para Manaus. Está quase amanhecendo. Um táxi amigo surge na rua. Ângelo se lembra de Frank. Escreve uma mensagem engolindo letras dizendo a ele que a investigação não deu em nada, que vai desligar o telefone e dormir por pelo menos doze horas e que depois conversam melhor. Tudo ao redor se apaga por alguns minutos. Sente o carro parando. Paga a corrida. Não mexeu no dinheiro pago por Frank.

O quarto de Ângelo é branco e possui uma cama imensa. Está deitado no meio da cama quando a sua mulher alta, loira e com ossos marcando os quadris entra no quarto, banho recém-tomado. Ela para e tira a toalha se despe. Ângelo observa o quão perfeito é o seu corpo e quão naturais são os seus pelos quando o telefone toca. Ângelo suspira e abre os olhos. O telefone toca novamente. E novamente. Antes de simplesmente desligar, vê uma nova fila de mensagens. Todas de um número diferente. Há anexos. Imagens da garota chamada Dalva. Ela está em uma praia, saindo da água. Ela é o oposto da mulher dos sonhos. Ângelo decide desligar o telefone quando o mesmo número das fotos começa a chamá-lo. Ângelo está bêbado, sonolento e cansado. Sua mulher o espera, parada em frente à cama, aguardando ser colhida e ter todo o seu corpo descoberto pelas próximas horas. O telefone continua tocando. Ângelo precisa escolher.


O Salão Tropical


Vampiros. Homens tentando se comportar como garotas. Trigêmeas idênticas cujos narizes são grandes como exocartilagens. Estudantes de teologia. Professores gordos de educação física. Analfabetos funcionais. Evangélicos em meio a falsas crises de consciência. Demônios. Magnatas de cartola amassada. Fadas. Homens nus. Adolescentes virgens e bêbadas. Bebês. Atrizes pornô desempregadas. Papas bispos e padres. Super-heróis. Lutadores de MMA. Uma grávida de cabelos loiros com raízes negras. Adões e Evas de sexos opostos. Frentistas. Analfabetos políticos usando máscaras de Guy Fawkes. Magros cobertos por papel carbono. Travestis sem maquiagem. Jornalistas. Gordos cobertos por papel contact. Vendedores de picolé. Mosqueteiros. Frequentadores de academia. Freiras de saias curtas. Anãs rolando umas sobre as outras. Projecionistas de cinemas abandonados. Palhaços. Cachorros. Duendes. Motoristas de ônibus. Mães. Crianças. Homens chorando. Japoneses.
     
Todos brincam dentro do salão tropical. É um carnaval interno. As ruas são lugar para os selvagens. Bichos grunhindo e urinando publicamente. Ouvindo músicas horrorosas. Os brincantes do salão tropical não se misturam a esse tipo de gente. Eles possuem certa cultura e são conectados. Possuem teto e ar-condicionado. Trocam mensagens. Relacionam-se razoavelmente bem entre frases curtas e sorrisos. Eles falam muito. Não há limite para o discurso. Eles são livres. Trocam confidências mesmo sem nunca terem se visto antes. Falam frases randômicas. Compartilham inutilidades. Descrevem os animais de estimação. As obscenidades são a consequência natural do passar das horas e do acúmulo de bebida. O álcool tomando conta do sangue e irrigando todas as partes do corpo. A ponta dos dedos. Os cantos dos olhos. Os genitais. As patas. A superfície dos lábios.

Todos falam ao mesmo tempo. Fazem apenas pausas curtas para beberem mais um pouco ou irem ao banheiro. Trocam de parceiros em questão de segundos. Unem-se em novos grupos. Nenhum baile é mais promíscuo do que o do salão tropical. Durante as pouco mais de dozes horas de duração do baile todos os tipos de conversa possíveis e todas as permutações de casais acontecem. Eles sentem fome. Eles querem conhecer uns aos outros. Eles precisam falar. Vão e voltam. Falam mais ainda sobre tudo de forma breve. Mal lembram sobre o que estavam falando há poucos segundos mas mesmo assim a conversa volta ao rumo e prossegue. Os grupos aumentam e se dispersam. Surgem novos amigos. A paixão simples de se conhecer alguém novo cujos interesses são os mesmos. O sorrisos são constantes incansáveis e vastos. De certa forma todos estão ali porque se amam.

A luz falha. Algo súbito. O salão fica às escuras por quase um minuto. Uma eternidade comparada à velocidade da luz. Os brincantes do salão tropical ficam tensos. Não há como haver festa se não houver energia elétrica. Não há carnaval sem energia elétrica. Há milhares de anos os selvagens se viravam. Até hoje se viram. Adoram a lua o sol as árvores ou qualquer coisa ao redor. Trepam uns em frente aos outros. Gritam como se não houvesse Deus. Sacrificam bichos e virgens. Brincam com sangue. Bebem coisas não destiladas. Os selvagens jamais serão admitidos ao salão.

A energia elétrica ressurge. Tudo durou menos de um segundo. Mesmo assim a tensão não se dissipa. Há algo de errado. Serão os selvagens tentando sabotar tamanha perfeição eclética? Tamanha civilidade de gente tão diferente brincando o carnaval de forma tão justa e merecida? 

As próximas duas horas são permeadas por um sentimento de sobressalto subcutâneo. Os brincantes sentem medo. Mesmo assim a luz não oscila em momento algum. Foi apenas um susto. Uma falha desconhecida e o que é desconhecido deve ser esquecido para o bem comum. A tranquilidade do caos espontâneo logo volta. Ninguém lembra há quantas horas o baile começou exatamente. Doze horas dois ou três dias. Isso não é importante. Há vários brincantes entrando e saindo e todos sem exceção se divertem.

A luz se apaga novamente. Desta vez de súbito e em definitivo. Os brincantes do salão tropical tentam falar uns com os outros mas não conseguem. E jamais conseguirão novamente. O salão tropical será destruído. Um homem surge.

Ele é jovem e se veste de forma simples. Está barbeado e as suas roupas são novas. Para os brincantes do salão tropical ele tem a aparência de um demônio com o poder de tirar a vida espontaneamente sem a necessidade de esforço ou qualquer instrumento. Eles o veem como a um gigante com pés imensos e com um crânio coberto por chifres pontudos grandes e assustadores. Eles o veem como a um Deus que existe e tem carne e pode falar aos seus ouvidos. Pode curá-los ou mata-los de forma táctil e certa. Ele não é como os deuses inventados pelos brincantes do salão tropical ou pelos selvagens. Ele é um Deus cujos braços podem envolver convencer e mudar a tudo. Nome propósito gênero profissão e fantasia. O Deus do salão tropical tudo pode. Ele é Deus e demônio e acordou em um mal dia. 

Não é difícil acompanhar a triste obliteração dos integrantes do salão tropical. Esse homem estranho e detentor de imensos poderes quer matar a todos. O salão tropical não tem mais sentido. A sensação do poder da morte de outrem quando se é o agente. O frio na ponta dos dedos do Deus do salão tropical fazendo seu trabalho. Um a um sem exceção os brincantes são mortos. 

A maioria dos brincantes chora como órfãos logo após a tragédia quando se reconhecem fora do baile:

Professores. Homens tentando se comportar como garotas. Alunas fazendo trabalho em grupo. Estudantes de teologia. Professores gordos de educação física. Analfabetos funcionais. Evangélicos em meio a falsas crises de consciência. Vigias. Guardas em serviço. Taxistas. Homens nus. Adolescentes virgens e bêbadas. Pais de família com as esposas gordas adormecidas. Esposas gordas com maridos gordos adormecidos. Padres. Pós-adolescentes. Lutadores de MMA. Uma grávida de cabelos loiros com raízes negras. Balconistas de lojas de conveniências. Frentistas. Universitários. Funcionários de cartório. Travestis sem maquiagem. Jornalistas. Gordos cobertos por papel contact. Vendedores de picolé. Guardas metropolitanos. Frequentadores de academia. Coroinhas adolescentes. Atacantes de handebol. Datilógrafos aposentados. Palhaços vendedores de balas em ônibus. Médicos. Enfermeiros. Motoristas de ônibus. Mães sem propósito. Pastores. Homens chorando. Japoneses.