22.6.14

IX. Júlia. Elevadores


Júlia não parece ser parte da mesa. Não pertence a nenhum dos dois grupos; apenas participa de pontas de conversas ou comentários desnecessários. 

Ângela, o vínculo de Júlia com essa gente nova e desconhecida, mantem-se entretida com um casal de amigos e, vez ou outra, fala algo a Júlia para uni-la a gestalt da mesa. 

Ela, Ângela, é uma boa nova amiga. Parece sempre preocupada e sincera. Júlia não consegue entender como esta mesma mulher pode ter dado um pequeno golpe no ex-namorado. Este fato, pessoal e isolado, faz vez ou outra Júlia recear ser abandonada na mesa e ter que pagar a conta das duas. 

O lugar onde estão se chama “Fama de Mesa”, um nome críptico, que não é explicado nem pelo cardápio e nem pelos seus funcionários. Garçons e garçonetes semiprofissionais, mal-humorados em sua maioria por exercerem uma profissão desagradável agravada pelo fato de ser domingo: O domingo intensifica a dramaticidade de qualquer profissão.  

Quando os ocupantes de uma mesa passam de cinco, a coisa foge ao controle. Nada funciona direito, não existe um foco; apenas uma série de barulhos e diálogos curtos que não levarão a lugar algum. As horas passam e todos começam a ficar um pouco altos. A acharem-se mais inteligentes e mais importantes, mais bonitos. 

Um homem chamado Gustavo começa a dar em cima de Júlia. Ele está na casa dos vinte e dois três quatro não faz diferença. Possui cabelos curtos arrepiados com gel e está um pouco acima do peso, provavelmente por ter começado a fazer musculação e ter desistido pouco tempo depois de desenvolver músculos desproporcionais. Seus braços são mais grossos do que o normal e seu peitoral esgarça a camisa polo. Ele usa aparelhos.  Júlia não imagina qualquer sucesso atrativo como consequência da forma como Gustavo age, fala e se comporta. Acha estranho como toda aquela pantomima tem como objetivo apenas leva-la para um quarto, o que não aconteceria em nenhuma realidade possível. 

Júlia tentar pensar no lugar-comum:  “Se todos falassem e agissem da forma como pensam, não haveria civilização”, mas não consegue. 

Existe a abertura, a idéia, a vontade de ter tal pensamento, mas ele não está lá. Falta cinismo a ela, apenas o mau-humor existe mas não pode ser verbalizado. Como fazer pensar assim, agir da forma que se espera? Impossível. Apenas uma série de acontecimentos, diálogos e exposições a elementos culturais pode torna-la apta a copiar pensamentos e desenvolver seus próprios estatutos cáusticos. Ela é apenas uma garota bonita mas de beleza não óbvia e sente uma leve ojeriza à mesa, uma força centrífuga invisível que a faz querer sair dali, mas as palavras não vêm e não vêm idéia mirabolantes. Ela apenas pensa que aquilo está muito chato e que precisa se livrar de Gustavo e todos os outros e sair dali educadamente. Uma idéia simples surge. Ela arrisca. Manda uma mensagem para Ângela e ela a percebe em pouco tempo. 

“nao estou me sentindo bem, preciso sair daqui”

(o que foi? ta se sentindo mal?)

“nao. so nao to me sentindo bem”

(tem so mais um pouco de paciencia. a gente vai embora em meiahora)


Os laços de amizade entre as doze pessoas da mesa amenizaram-se quando chegou a conta. Dois ou três deles, com as calculadoras do telefone em punho, faziam cálculos e comparavam resultados. Júlia conhece algumas  técnicas básicas de como se livrar de injustiças na hora de pagar a conta em uma mesa de estranhos:

1. Pedir sempre doses individuais. Um chope. Um drinque. Uma água. Um suco.

2. Não pedir petiscos e não filar petiscos dos desconhecidos. Em caso de muita fome, um sanduíche.

3. Manter o controle do que foi bebido no bloco de notas do telefone. Pedir uma comanda individual pode ser deselegante. Além disso, ter o número certo na cabeça dá a idéia de que você não está bêbada a ponto de perder a conta do que foi bebido.

4. Tomar as primeiras posições na hora de pagar a conta. As pessoas que ficam para o final, ou pagam além do que deveriam, ou não pagam quase nada, gerando constrangimento para ambos os lados.

5. Dar sempre um valor redondo para não esperar o troco junto com os outros.

 “Bom, os meus foram nove. Trinta e seis, mais dez por cento, trinta e nove e sessenta. Aqui. Quarenta.”

Todas as regras acima são desnecessárias quando se está bebendo com amigos. No caso de uma mesa desconhecida, podem ser aplicadas sem constrangimento. Júlia aprendeu e postulou as regras da pior maneira possível; sendo passada pra trás por pessoas que juravam compensar na próxima vez sendo que tal próxima vez nunca existiria. Normalmente voltava pra casa com cinquenta reais a menos em sua conta corrente (além do  gasto para pagar a conta) e com dois ou três nomes para os quais nunca ligaria ou mesmo mandaria mensagens, e vice-versa. 

Os doze tornaram-se cinco. Júlia se vê no banco de trás de um carro grande, japonês ou coreano, e estão indo para a casa de Carla, a motorista. Carla e Ângela conheceram-se na faculdade de administração, uma das três que Ângela iniciara e desistira antes do final do primeiro período. Carla continuou no curso mas não perderam contato. Pelo contrário, estreitaram mais e mais a amizade, mesmo pertencendo a realidades diferentes (Carla vivendo com a renda da família e Ângela de pequenos empregos). No outro banco da frente está Flávio, namorado de Carla, uma versão melhor de Gustavo, mas não tanto. No banco de trás, além de Júlia e Ângela, está Antônio, amigo de Flávio, vestido com menos cuidado e não tão empolgado quanto os outros, mas vez ou outra fazendo comentários espirituosos. Gustavo ficou para trás. 

Júlia não lembra o quanto Carla, a motorista, bebera nas últimas horas, mas, de qualquer forma, ela dirigia bem. Dava sinais e freava nos lugares certos e não aumentou exageradamente o volume da música. Durante o trajeto, passam por vários pontos de ônibus e Júlia se vê transposta para uma outra realidade. Ela não pertence àquele grupo dentro do carro, mas também não se vê como parte do grupo mexendo em celulares de segunda linha enquanto aguarda conjunções astronômicas fazerem finalmente passarem os ônibus de domingo. Júlia não consegue se ver no pelos vidros do carro e nem pelos espelhos internos. Apenas vê a si própria como alguém que recém-ocupou o próprio corpo. Usa uma camiseta branca de mangas curtas e uma saia que chega aos pés. Sente-se um pouco mais gorda, o que fisicamente é absolutamente normal, após ter bebido nove chopes. O frio do ar-condicionado do carro aumenta a sua vontade de ir ao banheiro. Com o indicador direito, leva a mão ao canto dos olhos. Observa as digitais sem marca alguma. Suas sombras ainda estão nos lugares certos.

Estavam em uma avenida quando, subitamente, o carro freou mudando de direção e desceu uma pequena ladeira. Entraram no subsolo de um prédio, um dos tantos prédios grandes que são vistos todos os dias mas quase nunca se conhece alguém que mora neles. Júlia sobressaltou-se quando Carla largou o volante do carro e ele continuou a operar sozinho. Um carro moderníssimo. Caro o suficiente para encerrar o fantasma de um motorista em suas engrenagens e o mesmo assumir o controle e estacionar perfeitamente. Após estacionar, o fantasma chora e não vê lágrimas saírem. "Que trágico", Júlia imagina. 

O estacionamento do prédio era grande o suficiente para lembrar o estacionamento de um shopping center. Todos fizeram o percurso até o elevador conversando coisas banais tais como o quanto haviam bebido ou se realmente não era necessário terem trazido algo para a pós-reunião. Carla conseguiu dizer “aqui em casa tem tudo” sem soar pedante. O prédio possuía dezoito andares e Carla apertou o último botão do elevador. Era a primeira vez que Júlia visitaria uma cobertura. 


8.6.14

Empire Of Dreams, by Charles Simic


On the first page of my dreambook
It’s always evening
In an occupied country.
Hour before the curfew.
A small provincial city.
The houses all dark.
The store-fronts gutted.

I am on a street corner
Where I shouldn’t be.
Alone and coatless
I have gone out to look
For a black dog who answers to my whistle.
I have a kind of halloween mask
Which I am afraid to put on.



via


6.6.14

Songs that I Love: Ice Age, by David Byrne and St. Vincent.


Oh diamond,
How we've been
Oh diamond,
It's such a shame
To see you this way, freezing it out
Your own little ice age

Ice Age

Oh diamond,
Get out of bed
All of your tend
Seams are showing
And you're freaking me out, freezing it out
Your own little ice age

Ice Age 

We won't know just what we lost until your winter thaws

Oh diamond,
Where have you been
It's close to your bones
It's far from your shell
So feel it away, reason it out
In your own little ice age

Thaw me out, Thaw me out.