26.7.14

PULP



Then she heard Paul´s voice, low and controlled, reciting the litany:


"Fear is the mind-killer. Fear is the little death that brings total obliteration. I will face my fear. I will permit it to pass over me and through me. And when it has gone past me I will turn to see fear´s path. Where the fear has gone there will be nothing. Only I will remain."


(HERBERT, Frank. DUNE.)

11.7.14

Strangers


"No other life forms know they are alive, and neither do they know they will die. This is our curse alone. Without this hex upon our heads, we would never have withdrawn as far as we have from the natural — so far and for such a time that it is a relief to say what we have been trying with our all not to say: We have long since been denizens of the natural world. Everywhere around us are natural habitats, but within us is the shiver of startling and dreadful things. Simply put: We are not from here. If we vanished tomorrow, no organism on this planet would miss us. Nothing in nature needs us."

Thomas Ligotti, The Conspiracy Against the Human Race

8.7.14

Cavernas. X.I

A criação perdeu o controle sobre as pessoas. As pessoas perderam o controle sobre a criação de si próprias e espalharam-se por todas as frestas possíveis. Terrenos planos, pequenas vias, ruas inteiras, casas minúsculas dividindo paredes e sons. Sons de gente dividindo o mesmo cômodo e sons de uns amontoados sobre os outros, compartilhando suor o mesmo ar e micróbios. Incômodos. Fedores. 

Gente da criação escondendo-se dos bichos da criação. A criação escondendo-se da própria criação. Bichos da mesma raça, ameaçando e temendo uns aos outros, fincando grades e cercas e tentando rompê-las pelo lado de fora. Espaços imensos vazios contra criaturas vazias e incapazes de preencher tais espaços e tornando o maior espaço possível – amplo e público – como se fosse delas próprias. 

O universo em si perdeu a medida de si próprio, esqueceu-se da ordem e da justiça, permitiu-nos crescer demais e ocuparmos demais. Não há limites para a reprodução global dos seres humanos. O universo nos permite. Talvez pelo fato de sermos os únicos que damos certo sentido a todo esse espaço primordialmente inútil. 

Talvez os universo queira que cresçamos ainda mais e ocupemos cada metro de toda – toda – a sua extensão para que, mesmo cego, ao menos consiga ouvir os nossos barulhos, sentir o nosso calor e o peso dos nossos passos antes que morramos mais uma vez e mais outra para também tornarmo-nos cegos e parte da massa burra de sentimentos que nos cerca. 

Há a escrita e os progressos causados por pequenos grupos brilhantes de seres humanos que levam consigo tantos e tantos outros. A energia elétrica e todos os sistemas técnicos e absurdamente belos  trouxeram a luz arquitetônica da civilização e nos tornou menos bichos. Uns menos que os outros. A cobertura onde Clara mora parece conter todo esse esforço injusto universal ao deixar à vista todo e qualquer luxo possível dentro de um espaço sem parecer exagerado. 

O cômodo parece a consequência de uma equação complexa onde mesmo a desordem casual de um tecido insinuado para fora de uma poltrona ou uma lombada de livro destacando-se por estar mais à frente estão cumprindo um propósito. Para Júlia é difícil manter o ar casual. O que vê é toda a consequência acidental do universo organizada sobre andares e andares de concreto armado agora disfarçado sob camadas de argamassa e luzes. 

Quando criança impressionara-se inúmeras vezes ao imaginar como viviam as pessoas das cavernas, os primeiros homens vivendo cercado de bichos, impregnados pelo cheiro dos próprios dejetos, acomodando-se uns próximos aos outros próximos ao fogo. Assustados e alertas, mas mesmo assim morrendo muito moços com os membros irremediavelmente infeccionados. Carla diz para todos ficarem à vontade e, enquanto cruza a sala em direção ao quarto, os objetos ganham vida. 

A televisão se liga quando ela passa à sua frente e as luzes, até então no limiar da penumbra, se tornam um pouco mais reluzentes quando sensorizam a sua passagem. Flávio, Ângela e Antônio, um pouco mais íntimos com o ambiente, acomodam-se nos estofados. Júlia os segue. Os outros três visitantes (incluindo Flávio, o qual, por ser namorado de Carla, deveria frequentar bastante o apartamento) também não pareciam completamente à vontade. 

“Eu me sinto como se estivesse em uma loja onde posso tocar em tudo ou em uma grande livraria onde posso passar horas sem ser incomodada...” – Júlia pensou “...mesmo tudo sendo considerado normal pela ordem do lugar, não pareceria certo abusar dessa gentileza”. 

Carla voltou com os cabelos presos em um coque, o que deixava as maçãs do seu rosto ainda mais precisas. Elas não são fofas ou curvilíneas como maçãs – são quase polígonos sobressaltados mas ainda assim belos. “Tá tudo pronto lá em cima” – Carla diz. “A gente não pode terminar o domingo na frente da televisão, né pessoal? Vamos para a piscina. Tá tudo pronto lá.” 

Júlia precisa ir ao banheiro, está próxima à frase crítica a ponto de não conseguir se surpreender com o fato de que, além de tudo o que vê, ainda há sobre eles toneladas de água. Apenas pensa na água que precisa livrar de si quando se senta ao vaso e, à medida que começa a retornar aos modos humanos vê as paredes ao redor voltarem a obter significado.

Por mais opulentos que sejam os lugares, os banheiros ainda conseguem manter uma sutil ligação uns com os outros e, mesmo quando tentam ser diferentes e realmente luxuosos, sempre há o papel higiênico. Ornado, pousado sobre um discreto suporte, prateleira ou recipiente, mas ainda assim papel higiênico. Sobre a bancada do lavatório há lenços específicos para limpar maquiagem e, mesmo sem saber se irá ou não entrar em uma piscina absurda sobre a sua cabeça, Júlia decide retocar a sombra nos olhos, devolver a secura saudável ao rosto e corrigir pequenos borrados e ausências de batom. 

Volta à sala de estar em poucos minutos e não encontra ninguém. Os objetos perderam a animação e o lugar voltou à penumbra. 

Júlia imediatamente buscou o telefone na bolsa. O grande recurso da solidão, do desespero... teorizam, quando na verdade tudo o que ele é um aparelho. E aparelhos servem e nada mais do que isso. Não existe um vazio existencial ou perda de interação social. Os aparelhos simplesmente são legais e funcionam. Não há e não haverá grandes mudanças nisso tudo. Júlia apenas se surpreendeu com o vazio do cômodo e com a mensagem na tela “estamoslá em cima. segue pra tua direitae tuvai encontrar a escadaque leva a piscina”. 


Mal haviam se passado oito minutos e esse mísero intervalo de tempo fora suficiente para que todos decidissem deixa-la sozinha e uma mensagem mal redigida fosse mandada ao seu telefone, quando apenas um toque na porta ou, menos que isso, três minutos de aguardo seriam suficientes para amenizar o terror de alguns segundos pelos quais Júlia passara involuntariamente. 

Ela observou a sala novamente, as luzes indisciplinadas. Buscou interruptores. Sem sucesso. Deu um cotoco para a televisão e nada aconteceu. Arrumou os peitos, seguiu as instruções simples da mensagem e subiu a escada caracol.


O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...