19.8.14

Linhas Paralelas


Há tempos comecei a escrever e postar sob o endereço chamado Mundo Próprio. Comecei em um domínio cujo nome não lembro ao certo. Era algo envolvendo Web e um portal que hoje em dia, se existe, não é mais lembrado. Depois passei para o Blogger Brasil até, em 2007, cansar das limitações da versão nacional e migrar para o Blogspot original. Somando estes três anos transitórios com os sete organizados nos arquivos à esquerda, é algo em torno de dez anos.

Durante este tempo, o conceito, a motivação, o hábito e a prática da escrita mudaram bastante. Não chego a sentir o constrangimento ou a crítica que normalmente se sente quando se lê algo antigo; apenas me surpreendo como as coisas ali parecem terem sido escritas por outro que não eu. O de então. Um sujeito mais jovem metido a resenhista de todas as coisas e escrevendo contos com um ritmo estranho, proparoxítono e aliterante. 

Nessa época, a caixa de comentários dos blogs era a grande ferramenta de comunicação entre os postadores (digamos assim) e sempre se estabeleciam contatos e troca de críticas e elogios.  Fiz algumas amizades. Fui convidado a participar de um blog com sete pessoas de diferentes regiões do país que postavam um texto por dia. O meu dia era o sábado ou o domingo (essas falhas de memória incomodam) e o retorno sobre o que eu escrevia (uns contos que gosto até hoje) era bem estimulante. O blog durou certo tempo. Logo fomos perdendo o gás e paramos de postar. Sem crises. Acho que todos tinham algo semelhante à preguiça natural que se dá após participar de um coletivo por certo tempo. 

A minha vontade em escrever algo substancial, importante e significativo é primordialmente centrada na vaidade. Pensando bem, escrever no Brasil e na maioria dos outros lugares é um ato centrado na vaidade. A escrita engajada, pensada para ser lida e causar mudança, há muito não mais existe. Quando me digno a ler um ou outro romance atual, o que vejo são floreios e um aturdimento inautêntico - parece haver algo vergonhoso em se criar um personagem feliz ou uma história com começo, meio, e personagens que causem saudade após o fim. Só há algo pior do que uma história sem arestas e floreada: escrever sobre si próprio em floreios e deixando as arestas à mostra. Não lembro a última vez que fiz isso, postando ou não. Apesar da memória falha, o passar do tempo traz boas vantagens. 

Quando outras atividades estimulantes da vaidade começaram a também requererem o meu tempo, a minha vontade e produção escrita encolheram. Há o trabalho e outras diversões. Atividades. Coisas novas. Lugares. Músicas. Novos estudos. Aparelhos eletrônicos. Os períodos onde vaidosamente paro e escrevo qualquer coisa que seja, ou têm a motivação de querer contar algo para não esquecer, ou simplesmente tamborilar no teclado. Escrever à revelia para ser lido à revelia; como alguém que caminha calmamente pela rua ou por um parque esperando encontrar alguém conhecido. E não há tempo para se queixar quando se encontra alguém na rua. Reclamo pouco porque reclamar quase sempre é inútil.

Levantei há pouco de uma noite entrecortada por sonhos e imagens aleatórias que se prolongaram até agora. Fixaram-se enquanto eu observava o vestido pendurado em uma das hastes altas do guarda-roupas. Entre tantas coisas, sonhei com um céu dividido em quatro partes pela fumaça deixada por aviões supersônicos. De um horizonte a outro, dois aviões uniram pontos cardeais e deixaram o céu perfeitamente dividido em quatro quadrantes convexos. Não sei porque os pilotos foram ordenados a fazer isso, não sei como eram os aviões. Mas o fizeram bem: os traços ficaram perfeitos e, até agora, ainda não se dissiparam.