30.12.15

Sumire


"Na primavera do seu vigésimo segundo ano, Sumire apaixonou-se pela primeira vez. Um amor intenso, um verdadeiro tornado que varre planícies — aplanando tudo em seu caminho, lançando coisas para o ar, deixando-as em frangalhos, triturando-as. A intensidade do tornado não abranda nem por um segundo, enquanto sua rajada atravessa o oceano, destruindo Angkor Wat, incinerando a selva indiana, tigres e tudo, transformando-se em uma tempestade de areia no deserto persa, sepultando uma exótica cidade-fortaleza sob um mar de areia. Em resumo, um amor de proporções realmente monumentais. A pessoa por quem Sumire se apaixonou era, por acaso, dezessete anos mais velha do que ela. E casada. E, devo acrescentar, uma mulher. Foi aí que tudo começou, e onde tudo acabou. Quase."


(MURAKAMI, Haruki. Minha querida sputnik)


O




Recebi dois comentários sobre posts antigos feitos por perfis que não mais existem. Os linques, as conexões, me levaram a caminhos sem destino. Há esse vórtice nos espremendo cada vez mais contra o sol. Por isso normalmente só escrevo à noite, a noite.

23.12.15

E onde?


E onde está esse
deus?
Que deixa queimar a
Céu
Aberto
O Museu da Língua Portuguesa?
Cretino
Se existe,
nos odeia.

FIM

6.12.15

Mobile version


Irei começar a postar pelo telefone o que me vir à telha. Não tenho mais aquele tempo mágico e aqueles rompantes de inspiração que faziam-me sentar ao computador e teclar coisas sem rumo:
a você:


ninguém


Todas as vezes em tempo livre. Um livro. Um casal observando-se pela primeira vez e constantando serem um casal.

19.6.15

a ignorância


A distância entre a minha casa e o supermercado é curta. A rua movimentada. Todos os tipos de veículos seguem um mesmo rumo. Todos as formas humanas tentam a ir a algum lugar com pressa. Montadas ou dentro. Acumuladas ou em si próprias.


O que seria uma caminhada simples assemelha-se a um jogo de videogame. Com o diferencial de o dano ser real e não poder haver reinício. Durante o caminho entre a minha casa e o supermercado, nem mesmo a bela máxima do Vanguart, "só acredito no semáforo" , é possível. Carros roubam o tempo e o direito uns dos outros. As luzes e as cores não importam.


Eu odeio carros. Simples assim. Os odeio pelo fato de serem uma representação gigante e gasosa da pessoa que está dentro. Pedestres se esgueiram entre os carros como se fossem insetos. Arriscam o corpo. 


Eu espero o semáforo e observo a falência do sistema de trânsito. Observo a falência básica da inteligência social quando, deliberadamente, os homens ignoram a diferença entre o verde e o vermelho. Uma variação ignorante e desrespeitosa do daltonismo.


Compro pão, queijo e cerveja. Não sei de onde eles vieram. Quem os produziu. O nome dos funcionários. Não sei o nome da senhora atendente que fez muito bem o seu trabalho de ensacar e pesar o pão. Tenho profundo respeito a quem faz bem o seu trabalho. Não distinguo esse ou aquele trabalho como sendo mais importante. A minha distinção é entre bons e maus profissionais. Estes últimos, todos sabemos, são a imensa maioria.

Compras em mãos, vou ao caixa. Um deles não funciona porque a gerente do supermercado não consegue desbloquear a tela de entrada. Não sabe como logar outra conta que não seja a sua própria. Entro em uma das duas filas possíveis.

Então surge a grande incógnita ignorante deste post: a mulher à minha frente. Em uma primeira visão, não dá para achá-la determinantemente feia ou bonita. Em seu anelar esquerdo está um anel que pode ou não ser uma aliança. As suas compras são compostas por produtos saudáveis e, entre as caixas e o pacote, está um saco transparente com dois quilos de carne vermelha e sangrenta. Um bicho morto entre caixas cheias de líquido de úberes de vacas modificados quimicamente para engordar menos os mamíferos no topo da cadeia alimentar. Os fazendeiros, os engenheiros químicos, as máquinas empacotadoras. Todos estão em torno de um boi morto e uma pequena parte do corpo desse boi (ou vaca) está sendo vendida decentemente a uma mulher que não parece solteira ou casada, hétero ou lésbica ou bi, feia ou bonita.


No meio do fechamento das compras, o telefone da mulher toca. Ela fala sobre decisões pessoais com alguém que soa ser seu irmão. Ela possui uma voz grave, masculina, destoante das suas roupas de establishment feminino manauara. Ela digita o código do cartão e sai, ainda falando ao telefone. Não sem antes dirigir um obrigado inútil ao caixa — um rapaz com sobrancelhas tiradas e irritadíssimo com o seu dia e o rumo da sua vida. Um outro rapaz leva as suas compras até o carro. O papo sobre coisas inúteis continua ininterrupto.


Eu passo as minhas compras e a conta dá exatamente o número que eu calculara mentalmente. Os pequenos prazeres inúteis: não são tão burro a ponto de fazer cálculos aritméticos de cabeça. Eu, que estudei até Cálculo 2. E toda a Física secundarista e algo de moderna. 


Quando saio do supermercado, ainda vejo a mulher-nada com a porta do carro aberta, falando ao telefone. Não sei se ela agradeceu ao rapaz que guardou as suas compras ou se deu a ele alguma gorjeta. Imagino a sua vagina incerta e a carne vermelha deglutida sendo despejada em um vaso enquanto ela fala ao telefone, prestes a pressionar pedais e a despejar fumaça.

No curto caminho de volta, percebo os carros ainda mais apressados desrespeitosos. Todos apressados. Entre eles há um ambulância gritando uma sirene. Não tenho ideia do






Nós não deveríamos dormir juntos. 

   Eu sou quase um ano mais velho que você. Você é quase um ano mais velha do que eu. Eu sou quase dez anos mais velho que você. Você é quase vinte anos mentalmente mais nova do que eu e também quarenta anos mais responsável do que eu; e eu sou alguém mentalmente trinta anos mais velho do que eu mesmo deveria ser, e com uma raiva de vinte e cinco anos passados.

   Você gosta de apanhar e eu gosto de bater porque a mão de quem bate também apanha e ficam marcadas tanto uma quanto a outra. Depois de um tempo, ambas saram. 

   Você dorme e eu acordo em horas diferentes. Eu penso em organismos, em átomos desorganizados e você pensa na sociedade como um todo


 malaise /mælˈeɪz/ noun [ S or U ] formal
a general feeling of being ill or having no energy, or an uncomfortable feeling that something is wrong, especially with society, and that you cannot change the situation 



   Eu vou à varanda e vejo trabalhadores do sistema de saneamento vestidos todos na cor laranja. Eles não percebem que eu os observo enquanto fumo.


   Eu leio Thomas Ligotti e John Green. Sou um homem complicado intelectualmente. Em minhas veias correm a crítica ao capitalismo e uma vontade imensa de morar em Porto de Galinhas. Um humanista pacifista que quer ter o seu próprio rifle para apontar a quem ousar invadir a sua propriedade.

   Eu quero ter algo mais pelos próximos trinta anos. Ocupar uma área deste planeta afundado em merda. Habitado por uma maioria explorada, ignorante. A humanidade nunca foi emocionalmente tão burra quanto tem sido hoje em dia; e você não concorda mas mesmo assim me ouve. Pensamos em bolos de aniversário. As pessoas cheias de problemas — por que eles existem?

   As pessoas não sabem. Eu não sei. Mas vivemos / ganhamos a vida assim / vivemos por ganharmos a vida. Tocantes à ignorância: Não existissem os ignorantes, os precisantes de cuidados, os que não sabem aprender um idioma por si próprios ou a viver por si próprios, teríamos que vender flores, maçãs, bandeirinhas do Brasil no Sete de Setembro.

   Eu admito a ignorância dos outros. Não admito a nossa. As paredes da nossa caverna devem ser mais brilhantes que a dos outros. Mais limpas. Eu me recuso a admitir o contrário. Uma bela amostra de ignorância. Recorro aos livros. Eles são o meu tutor, o meu deus, o meu guia adotado por mim mesmo. Um monte de papel que ecoa e mim. Um eco imaginado e silencioso.

   Os livros tornaram-me inteligente, cruel, agressivo, amoroso. Os livros proporcionaram-me tudo o que sei de substancial. E continuarão. 

   E acredito que nunca, na história da humanidade, duas pessoas que nasceram exatamente no mesmo momento, hora, minuto, segundo, centésimo, treparam. E, ainda menos provavelmente, amaram-se tanto. 


28.5.15

sonho de uma hora


Pelas minhas costas, sem eu te ver, você tira pequenas bolotas de algodão presas a minha camisa (com crase ou sem). 

Eu estou em um ponto de ônibus.

Pego ônibus até em sonhos.  Quando dirijo um carro (ou um barco, ou um avião), ajo como se estivesse jogando vídeo-game; fácil, aventureiro e inconsequente. Sonhei que o meu irmão Lucas dirigia e ele o fez melhor do que eu, acordado, em sonhos ou em vídeo-games. 

Faz frio ou quase, e você me belisca também. Teus olhos são os mesmos, não mudam nunca. Eu não sei o que devo fazer. Dos tantos anos que vivi, fixei os meus olhos nos teus – sem mudar o foco – apenas por segundos menores que um minuto.

Surpreendo-me por ser você que conheço tanto, talvez. Vejo se a minha camisa está melhor ou não. Ela tem botões, mangas curtas, um salmão desbotado. Jamais usaria uma camisa dessas, mas gosto dela.



Vejo a minha tia-avó de cabelos recém-cortados. 

Existe um corte para a casa da minha avó.  A casa onde a minha tia-avó morava. Minha tia-avó sempre teve espaço, mas nunca teve propriedade. 

Minha tia e eu temos isso em comum; e eu sofro (sofremos) um pouco por isso: quase-pequeno-burguês, trabalhador constante, como foste até o fim da vida e assim eu serei. Espaço suficiente, mas sem a propriedade plena.

Eu só tenho trinta e cinco, tia, quarenta e oito a menos que vós quando me deixaste (porque não deixaste a ninguém mais do que a mim). 

Branquíssimos, os cabelos. Ela mexia na cozinha, preparando algo. Coisa que a minha avó detestava e agora não mais detesta porque não há mais ninguém para afrontá-la na cozinha. Perdi a conta dos anos de morte dos domingos. 

Durante isso - o sonho - o meu amor a ela, à minha tia-avó, é intacto. Eu sinto muito a sua falta, tia. Espero que estejas certa, mesmo não acreditando na tua certeza de que um dia nos veremos novamente.


Então eu volto a ti. E acordo. Olho para o dia e não sei exatamente que horas são. Dormi no quase calor e agora faz quase frio. Um frio falso, causado pelo ventilador aos meus pés. Uma simulação simples e lubrificante do meu sonho. 

Nada do que sonhei existe mais. E jamais voltará. E isso não é triste. 

As coisas amadas se encerram. Encerram-se as coisas amadas quando elas não mais existem. Amá-las não significa amá-las agora. É um amor impraticável, parcial, imaginado, evanescente. Mas, mesmo assim, bom para quem o sonha. Lá fora o mundo segue indiferente e indigno de nós.



7.5.15

O pênis da baleia





Dormir com uma mulher pode parecer um acontecimento de extrema importância ou, ainda, pode não parecer absolutamente nada. Em outras palavras, existe sexo como autoterapia e sexo como passatempo.

Existe o sexo do tipo autoterapia do começo ao fim e existe o sexo do tipo passatempo de cabo a rabo; sexo que é terapêutico no começo, apenas para acabar como passatempo, e vice-versa. É difícil explicar, mas nossa vida sexual difere fundamentalmente da vida sexual de uma baleia.

Não somos baleias — é uma proposição de suma importância em minha vida sexual.


*


Quando eu era pequeno, existia um aquário a trinta minutos de bicicleta da minha casa. Um silêncio gelado, aquático, reinava no local, onde apenas se ouvia um ocasional espadanar. Eu era quase capaz de sentir um monstro semimarinho respirando em algum canto do corredor escuro.

Cardumes de atum circulavam inúmeras vezes pela enorme piscina. Esturjões percorriam regularmente seu próprio estreito curso aquático, piranhas cravavam dentes cortantes como navalhas em nacos de carne, e enguias elétricas bruxuleavam insignificantes lanternas.

Havia também inúmeros outros peixes, com nomes, escamas e barbatanas diferentes. Eu não conseguia imaginar porquê cargas-d´água existiam tantas espécies de peixe.

Não mantinham baleias no aquário, naturalmente. Eram grandes demais e não caberiam ali, mesmo que todas as paredes fossem derrubadas, transformando o aquário inteiro num único tanque. Em vez disso, mantinham um pênis de baleia em exposição. Um sucedâneo, por assim dizer.

Desse modo, passei os anos mais impressionantes da minha infância contemplando não uma baleia, mas um pênis de baleia. Toda vez que me cansava de perambular pelos frios corredores do aquário, ia para o meu sofá no silêncio estanque da sala de exposição de pé-direito alto e ali permanecia horas a fio contemplando aquele pênis de baleia.

Às vezes ele me lembrava uma palmeira-anã enrugada; em outras uma gigantesca espiga de milho. De fato, não fosse pela placa — GENITÁLIA DE BALEIA: MACHO —, ninguém haveria de perceber que aquilo era um pênis de baleia. Mais parecia uma relíquia desenterrada do deserto da Ásia Central que produto do oceano atlântico. Não tinha semelhança alguma com o meu pênis, nem com nenhum que eu já tivesse visto. Além disso, o pênis amputado exsudava uma singular e de alguma maneira indescritível aura de tristeza. 

Esse gigantesco pênis me veio à mente depois da minha primeira experiência sexual com uma garota. Que caprichos do destino, que tortuosas rotas marítimas o teriam trazido àquela cavernosa área de exposição? Meu peito doía ao pensar naquilo. Não havia vislumbre de esperança. Mas eu tinha apenas dezessete anos e era obviamente jovem demais para me desesperar por tudo. E a partir de então passei a pensar da seguinte maneira:

Não somos baleias.




MURAKAMI, Haruki. Caçando Carneiros. Editora Alfaguara. Pg. 28, 29.

24.4.15

Viagem em casa


Nas duas últimas viagens  experimentei a desfragmentação e a vontade da volta. A primeira em São Paulo e a segunda em Fortaleza. Algo momentâneo ou não, a vontade de priorizar a casa ante uma cidade estranha me pegou de surpresa. A ponto de não conseguir entender quem tem planos de estar sempre viajando.

Estou ficando velho, desta vez realmente. Toda a extensão da Avenida Paulista sem nada de novo. O mar da Praia do Futuro com suas ondas repetitivamente agressivas.

As duas cidades carregam imenso significado. São Paulo é uma constante em meu relacionamento com a minha mulher. Em Fortaleza vivemos as núpcias. A carteira sempre no bolso da frente para não ser tomada pelo Atlântico. As alianças deixadas no hotel  para não serem puxadas pelo metrô.


O metrô e o mar quando repetidos tornam-se insuficientes.


A viagem para o simples experimentar do novo, fuga ou alívio da cidade-mãe, perdeu o sentido. Não tenho necessidade de fuga ou alívio. Existo aqui, em Manaus. Não preciso conhecer nada e voltar permeado por um conhecimento invisível ou uma nostalgia inútil. Passar a mão por corredores distantes, experimentar esse ou aquele sabor ou ter essa ou aquela outra vista tridimensionalmente. 

As viagens são dispendiosas. Os aviões são desconfortáveis e todas as aeromoças exilaram-se em uma ilha distante. As camas e os chuveiros alugados, por melhores que sejam, não são os meus.


Preciso reinternalizar o processo da viagem. Revalidá-lo. O simples fato de deslocar-me algumas milhas não me torna outro. Apenas o mesmo em paisagens novas. Ou simplesmente posso deixar de viajar. Sinto-me mais completo aqui; em frente ao meu bom e velho computador, do que atravessando uma rua, até então desconhecida, pela segunda vez.

Este sentimento de completude é algo novo, trazido, acredito, pela constância das viagens. Talvez este seja o grande sentido delas, encontrar-se a si próprio. Sendo assim, vou até a esquina e volto. Sento. E escrevo o que escreveria em qualquer outro lugar do mundo. 

Estou em casa. 


16.4.15

Little Brother






g     o     t     t    a         





m   i   s   s       





m  y                  



                                         C  O  U  R  S  E  R  A      


f  a  n  t   a   s    y  



             a  n   d    


s  c  i  f i    


       c  o   u   r   s   e



2.4.15

Camus in the right place





I don´t know who you are,

But I´ll find you 

And lick 

you(r)

Right

Arm

Pit


31.3.15

Memento Mori



"Lembre que você deve morrer". O título lúgubre desse ensaio vem da célebre frase em latim sobre reflexão que devemos fazer sobre a nossa vaidade e mortalidade. Quão rápida a nossa vida é consumida pelos anos e o fato de a nossa velhice só ser percebida ao fim do processo, quando a juventude, até então aparentemente perene, não mais existe.

"Memento mori" também foi e tem sido uma parte importante das disciplinas ascéticas como forma de cultivar o desapego e outras virtudes, bem como voltar a atenção para a imortalidade da alma e consequente prosseguimento da vida. O personagem principal do conto "O Experimento de Dr. Heiddeger", o doutor do título, aparenta ter tomado tal postura em relação à vida e consequente mortalidade, e seu experimento serve para comprovar a vaidade inerente à personalidade humana e quão facilmente conseguimos (re)desenvolver a ignorância perante a inevitabilidade da morte.

A vaidade humana independe da idade. Dr. Heiddeger comprova tal fato após oferecer um elixir mágico aos seus amigos idosos e os mesmos, ao perceberem-se novamente jovens, ou "livre" da maldição da velhice, automaticamente tornarem-se vaidosos, lascivos e inconsequentes. A atenção do grupo não se concentra muito tempo na maravilha do experimento; e sim sobre a única mulher do grupo. A sensualidade e o instinto de competição - traços comuns da animalidade humana - também se mostram no experimento; e não tarda muito até outro dos instintos básicos humanos - a violência - se tornar uma ameaça.

Os efeitos do elixir mágico, porém, não duram muito além de algumas horas. Quando o final da noite se aproxima, a juventude se esvai e os instintos se recolhem novamente ao âmago. A exaltação e a sensualidade dão lugar ao desapontamento e ao medo.

O experimento do Dr. Heidegger terminou e alcançou o seu objetivo: provar em algumas horas o quanto os instintos e a ignorância humana são inerentes e prontos a serem postos em prática quando a proximidade da morte dá lugar à juventude. 

Felizmente, não há mágica e ciência capaz de reverter a inexorabilidade da morte e criar uma (des)civilização de jovens imortais e inconsequentes. "Memento mori", apesar de ser um moto cruel, é algo que nos acalma. Felizmente, o nosso instinto não nos faz senti-lo, apenas sabe-lo. 


5.3.15

Deuses, Criaturas e Solidão






Deus e criação são o leitmotiv do romance Frankenstein. Desde a sua publicação discute-se quão perigoso pode ser o homem imitar Deus e manipular a vida e a morte por si próprio.


Em "O Mal Estar na Civilização", Freud comentou o fato de o homem ter se tornado um deus por meios de membros artificiais e acessórios magníficos auxiliares da vida; mas ainda ser incapaz de fazer os órgãos originais crescerem novamente; e que tais tentativas não raro o puseram em más situações. No romance de Mary Shelley, Dr. Frankenstein consegue burlar essa limitação ao criar e reviver não apenas um membro, mas todo um novo corpo inteligente. A consequência, apesar de funcional, tem aparência monstruosa e não leva muito tempo até tornar-se a nêmesis do seu criador.


Além da conexão criador-criatura e do ódio derivado pela tal,  Dr. Frankenstein e a criatura dividem um forte sentimento: a solidão. Ela é a causa de todas as ações terríveis e vingativas do monstro e é como ele inflige ao seu criador a maior punição possível: o desespero de ser sozinho, o único de uma espécie. A criatura solitária faz o seu criador se transformar em um deus solitário.


É interessante como a ideia da solidão dos deuses conecta tanto textos ateus quanto textos religiosos. Ao fazer uma breve busca sobre o tema, encontrei um ensaio escrito por um reverendo chamado Noel E. Bordador. Em seu ensaio, ele diz: "Deus, porém, não é o único que é sozinho. Nós também somos criaturas solitárias. No cerne de nossa humanidade está a necessidade de amar apaixonadamente, e a nossa necessidade de ser amado incondicionalmente.".


Nós não somos diferentes dos personagens de Mary Shelley. Nós precisamos ser amados e o nosso Criador também clama por ser amado incondicionalmente. Nós somos versões elegantes e civilizadas do monstro: somos compostos por partes dos nossos antecedentes, partes essas organizadas geneticamente de uma forma tão complexa a ponto de não sabermos qual parte veio de qual morto. Nós precisamos encontrar uma versão de nós mesmos para a vida não se tornar tão intolerável. Nós tentamos desesperadamente encontrar o nosso Criador e obter respostas às perguntas que nos fazemos durante toda a vida. A solidão, porém, isola ambos, Criador e criatura, e o romance nunca tem fim.



1.3.15

Drácula e o Romance Epistolar: Fascinante ou Frustrante?




"Drácula" é a pedra fundamental da literatura vampiresca. Se o romance nunca tivesse sido escrito, não teríamos certeza se o gênero e as suas variações culturais teriam se tornado tão populares e se mantido por tanto tempo. As variações e reinvenções do gênero bordam o infinito, mas o seu cerne sempre será a obra de Bram Stoker. 


É bastante comum decidirmos ler "Drácula" muito tempo depois de termos sido introduzidos a adaptações da história original; após termos assistido filmes ou mesmo lido outros romances sobre vampiros (no meu caso, as Crônicas Vampirescas de Anne Rice). Nós também já podemos ter sido introduzidos aos personagens Jonathan e Mina Harker, ao nobre Dr. Van Helsing e, obviamente, à figura do conde imortal. E pensamos que se as adaptações da história original já foram suficientes para nos dar calafrios, o romance original será ainda mais pungente: os personagens serão descritos em detalhes e cada capítulo terminará com um susto e encadeará o próximo.

Isso não acontece. O romance segue o estilo epistolar. E o leitor não raro tem que organizar uma sequência cronológica de cartas e documentos de modo a fazer a história ter sentido. O poderoso e infame conde Drácula é apenas uma sombra maléfica presente nos relatos dos narradores e, seguindo a estrutura epistolar, todos os seus atos são contados tempos depois de terem sido realizados. Quando os narradores, mesmo sob grande estresse e medo, encontram tempo para redigir longas cartas - algo impensável em uma situação como a qual eles estão submetidos.

A característica principal do romance epistolar é tentar dar verossimilhança ao que está sendo contado. Em "Drácula" isso funciona bem como estilo por si, tentando mostrar ao leitor como seria a reação das então pessoas comuns a um ser sobrenatural se o mesmo vivesse em um mundo "real". A estrutura da história, porém, perde muito da sua tensão e profundidade quando nós, leitores, apenas vemos partes de algo que poderia ser uma narrativa ainda mais densa e profunda. 

A estrutura epistolar matou a força da ação narrativa e causa uma grande frustração em quem lê o romance pela primeira vez. Mas esta mesma frustração também é responsável pelo desejo de recontar uma história cujos personagens são tão interessantes. A necessidade de reinventá-los, bem como ao universo ao qual eles pertencem e de, enfim, tentar "corrigir" a falta de ação do romance original, é a principal conquista deste romance.

17.2.15

A Charada do Chapeleiro e o Unicórnio





No capítulo "O Chá Maluco", o Chapeleiro faz sua famosa charada a Alice: "Qual a semelhança entre o corvo e a escrivaninha?" Quando ela desiste de encontrar uma resposta, o Chapeleiro admite: " Também não tenho a menor ideia de qual seja."

Este episódio também pode ilustrar uma série de outras imagens que aparecem em "Alice no País das Maravilhas" e "Através do Espelho": às vezes, a resposta e não haver resposta. 

Obviamente, referências aos excessos da realeza (fortemente representadas pela Rainha de Copas e a Rainha Vermelha - que não, não são a mesma personagem) e críticas aos hábitos britânicos (representado, entre outros, pelo Coelho Branco e a sua obsessão pela pontualidade) são elementos substanciais e facilmente identificáveis no livros. Outros tantos significados, porém, estão apenas nos olhos do leitor.

Tentar encontrar significados e mensagens ocultos e buscar referências à vida pessoal de Charles Dogdon ao invés de sua persona narrativa, seu nom de plume - Lewis Carrol - se uma uma tarefa desinteressante e pessoal a ponto de não poder ser considerada um insight que possa servir a outros leitores. Em outras palavras, é cruel tentar desmascarar um falso unicórnio quando o unicórnio simplesmente é real:


– Sabe? Sempre pensei também que os Unicórnios fossem monstros fabulosos! Nunca tinha visto um antes!

– Está bem, agora que nos vimos um ao outro – disse o Unicórnio – se você acreditar em mim, acreditarei em você. Negócio fechado?


Este diálogo mostra como o leitor deve, antes de tudo, visualizar a cena e aproveitar a sua beleza, e não simplesmente buscar referências à cultura britânica. Sim, a figura do unicórnio (e o leão) carregam referências mas, melhor do que fazer referências a elas, eu prefiro visualizar a beleza da imagem.

É um grande desafio reler um livro que fora lido na infância. Como adultos, tendemos a explicar o unicórnio, duvidar da sua existência, ao invés de simplesmente conversar com ele. "Aqui, somos todos loucos" - diria o Chapeleiro -, mas ainda tentamos buscar respostas à charadas mesmo quando não existe resposta alguma.



8.2.15





Hansel e Grethel são crianças à mercê da crueldade do mundo. Órfãos de mãe. Criados por um pai passivo. Ao ponto de permitir que a madrasta das crianças ponha em prática o plano de abandoná-las na floresta e, assim, assegurar mais alguns dias de sobrevivência antes que todos morram de fome. 

No escuro, as crianças ouvem o plano e não se revoltam; resignam-se, apenas. Hansel pensa em uma estratégia: marcar o caminho com pedregulhos e, assim, voltar para casa. O plano dá certo. Quando eles retornam, nenhum alívio ou alegria se esboça nos pais: a madrasta - também chamada de "mãe" pelos Grimm (o que causa ainda mais desconforto) - os reprime por terem pegado no sono na floresta e terem sido "esquecidos" pelo pai. Este apenas sente alívio, mas não se opõe a continuidade do plano maligno da esposa.

Desta vez, a mãe/madrasta toma a precaução de trancar a porta para que Hansel não saia e recolha pedregulhos. Frente ao impedimento, Hansel (o "cérebro" dos irmãos)  usa o pouco pão que resta para criar bolotas e marcar o caminho de volta. Desta vez o plano não dá certo. Pássaros comem as bolotas largadas no caminho e os irmãos realmente se perdem dentro da floresta.

Após vagar por três dias, os irmãos encontram uma casa com paredes de pão, telhados de bolo e janelas de açúcar transparente. Famintos, Hansel e Grethel começam a comer a casa e, ao descobrirem ser ela habitada por uma velha de aparência sinistra, não hesitam em receber a sua acolhida. Ambos se sentem no céu e dormem alegremente.

A velha possui um cheiro forte e desagradável e tem olhos vermelhos extremamente míopes. Ela considera as crianças "humanos" dignos de um banquete dos deuses e resolve engordá-los para tornar a experiência de devorá-los ainda mais prazerosa. Sua primeira escolha é Hansel. A velha obriga Grethel a levar mais e mais comida para o irmão. 

Hansel, porém, usa mais um ardil: um osso encontrado na jaula. Todas as vezes que a velha pede para que ele ponha o dedo para fora para ver se ele está engordando, sente apenas finura, magreza. Após quatro semanas, ela desiste da engorda e resolve comer Hansel de qualquer forma e, para compensar a magreza do menino, também resolve comer Grethel junto.

A velha ordena a Grethel que acenda o forno e, em um momento de distração da velha ao explicar como deveria empurrar o irmão forno a dentro, Grethel a empurra. A velha se tranforma em cinzas. Hansel e Grethel escapam, mas antes ainda têm tempo para encontrar e roubar jóias e pérolas da casa.

As crianças finalmente encontram o caminho de volta. Mas antes precisam cruzar um rio. A tarefa parece impossível, até aparecer um pato disposto a ajudá-los. Hansel diz a Grethel que suba nas costas do pato e ela diz que não; isso afundaria a todos. É mais prudente ir um a um. O plano dá certo. Hansel e Grethel atravessam o rio e encontram o caminho de casa, onde reencontram o pai e descobrem que a sua madrasta está morta. A morte é ignorada. Hansel e Grethel dão as jóias ao pai e todos passam a viver juntos em grande alegria. 


*   *   *

Animais são controlados pelo estômago. A fome os distorce, os faz ferozes, egoístas. Os faz esquecer vínculos familiares e laços emocionais e em nosso caso, humano, não existe diferença.

A fome permeia todos os momentos da fábula de Hansel e Grethel (João e Maria, na versão em português) e é a responsável pela corrupção do caráter de todos os personagens. A madrasta não demonstra quaisquer traços de carinho ou ressentimento ao colocar a sua vida e a do marido obediente à frente da vida das crianças: não há vínculos sanguíneos, eles são inocentes e indefesos, que morram antes. O pai perde toda e qualquer altivez e se torna um autômato seguidor de ordens: está fraco e desmoralizado a ponto de não se opor ao absurdo da morte dos próprios filhos. Não se sabe como a sua primeira esposa - mãe das crianças - morreu e, a obediência à sua segunda esposa o torna uma figura deplorável. A velha perde a humanidade em praticamente todos os sentidos: ela se assemelha mais a um animal e pratica o canibalismo deliberadamente. A delícia do gosto da carne e do sangue humano não se compara ao trigo e ao açúcar do qual a sua casa é feita. É cega e monstruosa, mas se sente acima da cadeia alimentar ao comer humanos ou, pior, crianças humanas.

A idade de Hansel e Grethel não é mencionada no conto dos irmãos Grimm, mas há de se imaginar serem eles bastante jovens, a ponto de não sentirem ódio ou rancor; apenas reagirem às adversidades e tentarem sobreviver mais um dia, sem nunca renunciarem ao laços fraternos. Mesmo assim, ambos não são poupados pela estrutura cruel da história e precisam praticar maldades, amenizadas pela prerrogativa da sobrevivência: Grethel mata a velha má e ambos roubam jóias para ressarcir o trauma pelo qual passaram e ajudarem os pais, mesmo sabendo terem os mesmos sido os responsáveis pelas suas desventuras. Hazel e Grethel são jovens o suficiente para não sentirem culpa.

Além de si próprios, os irmãos também recorrem a Deus como apoio às adversidades e, somente no último ato da história, a Providência pode ter sido feita presente na figura do pato (ou cisne, em outras traduções) que os atravessa para o outro lado do rio. Ajudados por Deus ou não, as crianças encontram o caminho para casa. Chagando lá, descobrem que a madrasta está morta, mas não esboçam qualquer sofrimento. Ao contrário, rogozijam-se e cobrem o pai covarde e passivo com  as jóias roubadas, o que assegurará o sustento da família por muito tempo e não os fará serem abandonados novamente. 

As exigências dos estômagos estão aplacadas. Com comida sendo processada pelas vísceras e sendo transformada em energia, Hazel e Grethel poderão crescer e o seu pai, até então inútil, poderá usar a energia recém retornada às suas veias para buscar soluções menos cruéis e, quem sabe, buscar uma nova esposa que também possa ser devorada quando nada mais for possível.  


O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...