17.2.15

A Charada do Chapeleiro e o Unicórnio





No capítulo "O Chá Maluco", o Chapeleiro faz sua famosa charada a Alice: "Qual a semelhança entre o corvo e a escrivaninha?" Quando ela desiste de encontrar uma resposta, o Chapeleiro admite: " Também não tenho a menor ideia de qual seja."

Este episódio também pode ilustrar uma série de outras imagens que aparecem em "Alice no País das Maravilhas" e "Através do Espelho": às vezes, a resposta e não haver resposta. 

Obviamente, referências aos excessos da realeza (fortemente representadas pela Rainha de Copas e a Rainha Vermelha - que não, não são a mesma personagem) e críticas aos hábitos britânicos (representado, entre outros, pelo Coelho Branco e a sua obsessão pela pontualidade) são elementos substanciais e facilmente identificáveis no livros. Outros tantos significados, porém, estão apenas nos olhos do leitor.

Tentar encontrar significados e mensagens ocultos e buscar referências à vida pessoal de Charles Dogdon ao invés de sua persona narrativa, seu nom de plume - Lewis Carrol - se uma uma tarefa desinteressante e pessoal a ponto de não poder ser considerada um insight que possa servir a outros leitores. Em outras palavras, é cruel tentar desmascarar um falso unicórnio quando o unicórnio simplesmente é real:


– Sabe? Sempre pensei também que os Unicórnios fossem monstros fabulosos! Nunca tinha visto um antes!

– Está bem, agora que nos vimos um ao outro – disse o Unicórnio – se você acreditar em mim, acreditarei em você. Negócio fechado?


Este diálogo mostra como o leitor deve, antes de tudo, visualizar a cena e aproveitar a sua beleza, e não simplesmente buscar referências à cultura britânica. Sim, a figura do unicórnio (e o leão) carregam referências mas, melhor do que fazer referências a elas, eu prefiro visualizar a beleza da imagem.

É um grande desafio reler um livro que fora lido na infância. Como adultos, tendemos a explicar o unicórnio, duvidar da sua existência, ao invés de simplesmente conversar com ele. "Aqui, somos todos loucos" - diria o Chapeleiro -, mas ainda tentamos buscar respostas à charadas mesmo quando não existe resposta alguma.



8.2.15





Hansel e Grethel são crianças à mercê da crueldade do mundo. Órfãos de mãe. Criados por um pai passivo. Ao ponto de permitir que a madrasta das crianças ponha em prática o plano de abandoná-las na floresta e, assim, assegurar mais alguns dias de sobrevivência antes que todos morram de fome. 

No escuro, as crianças ouvem o plano e não se revoltam; resignam-se, apenas. Hansel pensa em uma estratégia: marcar o caminho com pedregulhos e, assim, voltar para casa. O plano dá certo. Quando eles retornam, nenhum alívio ou alegria se esboça nos pais: a madrasta - também chamada de "mãe" pelos Grimm (o que causa ainda mais desconforto) - os reprime por terem pegado no sono na floresta e terem sido "esquecidos" pelo pai. Este apenas sente alívio, mas não se opõe a continuidade do plano maligno da esposa.

Desta vez, a mãe/madrasta toma a precaução de trancar a porta para que Hansel não saia e recolha pedregulhos. Frente ao impedimento, Hansel (o "cérebro" dos irmãos)  usa o pouco pão que resta para criar bolotas e marcar o caminho de volta. Desta vez o plano não dá certo. Pássaros comem as bolotas largadas no caminho e os irmãos realmente se perdem dentro da floresta.

Após vagar por três dias, os irmãos encontram uma casa com paredes de pão, telhados de bolo e janelas de açúcar transparente. Famintos, Hansel e Grethel começam a comer a casa e, ao descobrirem ser ela habitada por uma velha de aparência sinistra, não hesitam em receber a sua acolhida. Ambos se sentem no céu e dormem alegremente.

A velha possui um cheiro forte e desagradável e tem olhos vermelhos extremamente míopes. Ela considera as crianças "humanos" dignos de um banquete dos deuses e resolve engordá-los para tornar a experiência de devorá-los ainda mais prazerosa. Sua primeira escolha é Hansel. A velha obriga Grethel a levar mais e mais comida para o irmão. 

Hansel, porém, usa mais um ardil: um osso encontrado na jaula. Todas as vezes que a velha pede para que ele ponha o dedo para fora para ver se ele está engordando, sente apenas finura, magreza. Após quatro semanas, ela desiste da engorda e resolve comer Hansel de qualquer forma e, para compensar a magreza do menino, também resolve comer Grethel junto.

A velha ordena a Grethel que acenda o forno e, em um momento de distração da velha ao explicar como deveria empurrar o irmão forno a dentro, Grethel a empurra. A velha se tranforma em cinzas. Hansel e Grethel escapam, mas antes ainda têm tempo para encontrar e roubar jóias e pérolas da casa.

As crianças finalmente encontram o caminho de volta. Mas antes precisam cruzar um rio. A tarefa parece impossível, até aparecer um pato disposto a ajudá-los. Hansel diz a Grethel que suba nas costas do pato e ela diz que não; isso afundaria a todos. É mais prudente ir um a um. O plano dá certo. Hansel e Grethel atravessam o rio e encontram o caminho de casa, onde reencontram o pai e descobrem que a sua madrasta está morta. A morte é ignorada. Hansel e Grethel dão as jóias ao pai e todos passam a viver juntos em grande alegria. 


*   *   *

Animais são controlados pelo estômago. A fome os distorce, os faz ferozes, egoístas. Os faz esquecer vínculos familiares e laços emocionais e em nosso caso, humano, não existe diferença.

A fome permeia todos os momentos da fábula de Hansel e Grethel (João e Maria, na versão em português) e é a responsável pela corrupção do caráter de todos os personagens. A madrasta não demonstra quaisquer traços de carinho ou ressentimento ao colocar a sua vida e a do marido obediente à frente da vida das crianças: não há vínculos sanguíneos, eles são inocentes e indefesos, que morram antes. O pai perde toda e qualquer altivez e se torna um autômato seguidor de ordens: está fraco e desmoralizado a ponto de não se opor ao absurdo da morte dos próprios filhos. Não se sabe como a sua primeira esposa - mãe das crianças - morreu e, a obediência à sua segunda esposa o torna uma figura deplorável. A velha perde a humanidade em praticamente todos os sentidos: ela se assemelha mais a um animal e pratica o canibalismo deliberadamente. A delícia do gosto da carne e do sangue humano não se compara ao trigo e ao açúcar do qual a sua casa é feita. É cega e monstruosa, mas se sente acima da cadeia alimentar ao comer humanos ou, pior, crianças humanas.

A idade de Hansel e Grethel não é mencionada no conto dos irmãos Grimm, mas há de se imaginar serem eles bastante jovens, a ponto de não sentirem ódio ou rancor; apenas reagirem às adversidades e tentarem sobreviver mais um dia, sem nunca renunciarem ao laços fraternos. Mesmo assim, ambos não são poupados pela estrutura cruel da história e precisam praticar maldades, amenizadas pela prerrogativa da sobrevivência: Grethel mata a velha má e ambos roubam jóias para ressarcir o trauma pelo qual passaram e ajudarem os pais, mesmo sabendo terem os mesmos sido os responsáveis pelas suas desventuras. Hazel e Grethel são jovens o suficiente para não sentirem culpa.

Além de si próprios, os irmãos também recorrem a Deus como apoio às adversidades e, somente no último ato da história, a Providência pode ter sido feita presente na figura do pato (ou cisne, em outras traduções) que os atravessa para o outro lado do rio. Ajudados por Deus ou não, as crianças encontram o caminho para casa. Chagando lá, descobrem que a madrasta está morta, mas não esboçam qualquer sofrimento. Ao contrário, rogozijam-se e cobrem o pai covarde e passivo com  as jóias roubadas, o que assegurará o sustento da família por muito tempo e não os fará serem abandonados novamente. 

As exigências dos estômagos estão aplacadas. Com comida sendo processada pelas vísceras e sendo transformada em energia, Hazel e Grethel poderão crescer e o seu pai, até então inútil, poderá usar a energia recém retornada às suas veias para buscar soluções menos cruéis e, quem sabe, buscar uma nova esposa que também possa ser devorada quando nada mais for possível.