31.3.15

Memento Mori



"Lembre que você deve morrer". O título lúgubre desse ensaio vem da célebre frase em latim sobre reflexão que devemos fazer sobre a nossa vaidade e mortalidade. Quão rápida a nossa vida é consumida pelos anos e o fato de a nossa velhice só ser percebida ao fim do processo, quando a juventude, até então aparentemente perene, não mais existe.

"Memento mori" também foi e tem sido uma parte importante das disciplinas ascéticas como forma de cultivar o desapego e outras virtudes, bem como voltar a atenção para a imortalidade da alma e consequente prosseguimento da vida. O personagem principal do conto "O Experimento de Dr. Heiddeger", o doutor do título, aparenta ter tomado tal postura em relação à vida e consequente mortalidade, e seu experimento serve para comprovar a vaidade inerente à personalidade humana e quão facilmente conseguimos (re)desenvolver a ignorância perante a inevitabilidade da morte.

A vaidade humana independe da idade. Dr. Heiddeger comprova tal fato após oferecer um elixir mágico aos seus amigos idosos e os mesmos, ao perceberem-se novamente jovens, ou "livre" da maldição da velhice, automaticamente tornarem-se vaidosos, lascivos e inconsequentes. A atenção do grupo não se concentra muito tempo na maravilha do experimento; e sim sobre a única mulher do grupo. A sensualidade e o instinto de competição - traços comuns da animalidade humana - também se mostram no experimento; e não tarda muito até outro dos instintos básicos humanos - a violência - se tornar uma ameaça.

Os efeitos do elixir mágico, porém, não duram muito além de algumas horas. Quando o final da noite se aproxima, a juventude se esvai e os instintos se recolhem novamente ao âmago. A exaltação e a sensualidade dão lugar ao desapontamento e ao medo.

O experimento do Dr. Heidegger terminou e alcançou o seu objetivo: provar em algumas horas o quanto os instintos e a ignorância humana são inerentes e prontos a serem postos em prática quando a proximidade da morte dá lugar à juventude. 

Felizmente, não há mágica e ciência capaz de reverter a inexorabilidade da morte e criar uma (des)civilização de jovens imortais e inconsequentes. "Memento mori", apesar de ser um moto cruel, é algo que nos acalma. Felizmente, o nosso instinto não nos faz senti-lo, apenas sabe-lo. 


5.3.15

Deuses, Criaturas e Solidão






Deus e criação são o leitmotiv do romance Frankenstein. Desde a sua publicação discute-se quão perigoso pode ser o homem imitar Deus e manipular a vida e a morte por si próprio.


Em "O Mal Estar na Civilização", Freud comentou o fato de o homem ter se tornado um deus por meios de membros artificiais e acessórios magníficos auxiliares da vida; mas ainda ser incapaz de fazer os órgãos originais crescerem novamente; e que tais tentativas não raro o puseram em más situações. No romance de Mary Shelley, Dr. Frankenstein consegue burlar essa limitação ao criar e reviver não apenas um membro, mas todo um novo corpo inteligente. A consequência, apesar de funcional, tem aparência monstruosa e não leva muito tempo até tornar-se a nêmesis do seu criador.


Além da conexão criador-criatura e do ódio derivado pela tal,  Dr. Frankenstein e a criatura dividem um forte sentimento: a solidão. Ela é a causa de todas as ações terríveis e vingativas do monstro e é como ele inflige ao seu criador a maior punição possível: o desespero de ser sozinho, o único de uma espécie. A criatura solitária faz o seu criador se transformar em um deus solitário.


É interessante como a ideia da solidão dos deuses conecta tanto textos ateus quanto textos religiosos. Ao fazer uma breve busca sobre o tema, encontrei um ensaio escrito por um reverendo chamado Noel E. Bordador. Em seu ensaio, ele diz: "Deus, porém, não é o único que é sozinho. Nós também somos criaturas solitárias. No cerne de nossa humanidade está a necessidade de amar apaixonadamente, e a nossa necessidade de ser amado incondicionalmente.".


Nós não somos diferentes dos personagens de Mary Shelley. Nós precisamos ser amados e o nosso Criador também clama por ser amado incondicionalmente. Nós somos versões elegantes e civilizadas do monstro: somos compostos por partes dos nossos antecedentes, partes essas organizadas geneticamente de uma forma tão complexa a ponto de não sabermos qual parte veio de qual morto. Nós precisamos encontrar uma versão de nós mesmos para a vida não se tornar tão intolerável. Nós tentamos desesperadamente encontrar o nosso Criador e obter respostas às perguntas que nos fazemos durante toda a vida. A solidão, porém, isola ambos, Criador e criatura, e o romance nunca tem fim.



1.3.15

Drácula e o Romance Epistolar: Fascinante ou Frustrante?




"Drácula" é a pedra fundamental da literatura vampiresca. Se o romance nunca tivesse sido escrito, não teríamos certeza se o gênero e as suas variações culturais teriam se tornado tão populares e se mantido por tanto tempo. As variações e reinvenções do gênero bordam o infinito, mas o seu cerne sempre será a obra de Bram Stoker. 


É bastante comum decidirmos ler "Drácula" muito tempo depois de termos sido introduzidos a adaptações da história original; após termos assistido filmes ou mesmo lido outros romances sobre vampiros (no meu caso, as Crônicas Vampirescas de Anne Rice). Nós também já podemos ter sido introduzidos aos personagens Jonathan e Mina Harker, ao nobre Dr. Van Helsing e, obviamente, à figura do conde imortal. E pensamos que se as adaptações da história original já foram suficientes para nos dar calafrios, o romance original será ainda mais pungente: os personagens serão descritos em detalhes e cada capítulo terminará com um susto e encadeará o próximo.

Isso não acontece. O romance segue o estilo epistolar. E o leitor não raro tem que organizar uma sequência cronológica de cartas e documentos de modo a fazer a história ter sentido. O poderoso e infame conde Drácula é apenas uma sombra maléfica presente nos relatos dos narradores e, seguindo a estrutura epistolar, todos os seus atos são contados tempos depois de terem sido realizados. Quando os narradores, mesmo sob grande estresse e medo, encontram tempo para redigir longas cartas - algo impensável em uma situação como a qual eles estão submetidos.

A característica principal do romance epistolar é tentar dar verossimilhança ao que está sendo contado. Em "Drácula" isso funciona bem como estilo por si, tentando mostrar ao leitor como seria a reação das então pessoas comuns a um ser sobrenatural se o mesmo vivesse em um mundo "real". A estrutura da história, porém, perde muito da sua tensão e profundidade quando nós, leitores, apenas vemos partes de algo que poderia ser uma narrativa ainda mais densa e profunda. 

A estrutura epistolar matou a força da ação narrativa e causa uma grande frustração em quem lê o romance pela primeira vez. Mas esta mesma frustração também é responsável pelo desejo de recontar uma história cujos personagens são tão interessantes. A necessidade de reinventá-los, bem como ao universo ao qual eles pertencem e de, enfim, tentar "corrigir" a falta de ação do romance original, é a principal conquista deste romance.