28.5.15

sonho de uma hora


Pelas minhas costas, sem eu te ver, você tira pequenas bolotas de algodão presas a minha camisa (com crase ou sem). 

Eu estou em um ponto de ônibus.

Pego ônibus até em sonhos.  Quando dirijo um carro (ou um barco, ou um avião), ajo como se estivesse jogando vídeo-game; fácil, aventureiro e inconsequente. Sonhei que o meu irmão Lucas dirigia e ele o fez melhor do que eu, acordado, em sonhos ou em vídeo-games. 

Faz frio ou quase, e você me belisca também. Teus olhos são os mesmos, não mudam nunca. Eu não sei o que devo fazer. Dos tantos anos que vivi, fixei os meus olhos nos teus – sem mudar o foco – apenas por segundos menores que um minuto.

Surpreendo-me por ser você que conheço tanto, talvez. Vejo se a minha camisa está melhor ou não. Ela tem botões, mangas curtas, um salmão desbotado. Jamais usaria uma camisa dessas, mas gosto dela.



Vejo a minha tia-avó de cabelos recém-cortados. 

Existe um corte para a casa da minha avó.  A casa onde a minha tia-avó morava. Minha tia-avó sempre teve espaço, mas nunca teve propriedade. 

Minha tia e eu temos isso em comum; e eu sofro (sofremos) um pouco por isso: quase-pequeno-burguês, trabalhador constante, como foste até o fim da vida e assim eu serei. Espaço suficiente, mas sem a propriedade plena.

Eu só tenho trinta e cinco, tia, quarenta e oito a menos que vós quando me deixaste (porque não deixaste a ninguém mais do que a mim). 

Branquíssimos, os cabelos. Ela mexia na cozinha, preparando algo. Coisa que a minha avó detestava e agora não mais detesta porque não há mais ninguém para afrontá-la na cozinha. Perdi a conta dos anos de morte dos domingos. 

Durante isso - o sonho - o meu amor a ela, à minha tia-avó, é intacto. Eu sinto muito a sua falta, tia. Espero que estejas certa, mesmo não acreditando na tua certeza de que um dia nos veremos novamente.


Então eu volto a ti. E acordo. Olho para o dia e não sei exatamente que horas são. Dormi no quase calor e agora faz quase frio. Um frio falso, causado pelo ventilador aos meus pés. Uma simulação simples e lubrificante do meu sonho. 

Nada do que sonhei existe mais. E jamais voltará. E isso não é triste. 

As coisas amadas se encerram. Encerram-se as coisas amadas quando elas não mais existem. Amá-las não significa amá-las agora. É um amor impraticável, parcial, imaginado, evanescente. Mas, mesmo assim, bom para quem o sonha. Lá fora o mundo segue indiferente e indigno de nós.



7.5.15

O pênis da baleia





Dormir com uma mulher pode parecer um acontecimento de extrema importância ou, ainda, pode não parecer absolutamente nada. Em outras palavras, existe sexo como autoterapia e sexo como passatempo.

Existe o sexo do tipo autoterapia do começo ao fim e existe o sexo do tipo passatempo de cabo a rabo; sexo que é terapêutico no começo, apenas para acabar como passatempo, e vice-versa. É difícil explicar, mas nossa vida sexual difere fundamentalmente da vida sexual de uma baleia.

Não somos baleias — é uma proposição de suma importância em minha vida sexual.


*


Quando eu era pequeno, existia um aquário a trinta minutos de bicicleta da minha casa. Um silêncio gelado, aquático, reinava no local, onde apenas se ouvia um ocasional espadanar. Eu era quase capaz de sentir um monstro semimarinho respirando em algum canto do corredor escuro.

Cardumes de atum circulavam inúmeras vezes pela enorme piscina. Esturjões percorriam regularmente seu próprio estreito curso aquático, piranhas cravavam dentes cortantes como navalhas em nacos de carne, e enguias elétricas bruxuleavam insignificantes lanternas.

Havia também inúmeros outros peixes, com nomes, escamas e barbatanas diferentes. Eu não conseguia imaginar porquê cargas-d´água existiam tantas espécies de peixe.

Não mantinham baleias no aquário, naturalmente. Eram grandes demais e não caberiam ali, mesmo que todas as paredes fossem derrubadas, transformando o aquário inteiro num único tanque. Em vez disso, mantinham um pênis de baleia em exposição. Um sucedâneo, por assim dizer.

Desse modo, passei os anos mais impressionantes da minha infância contemplando não uma baleia, mas um pênis de baleia. Toda vez que me cansava de perambular pelos frios corredores do aquário, ia para o meu sofá no silêncio estanque da sala de exposição de pé-direito alto e ali permanecia horas a fio contemplando aquele pênis de baleia.

Às vezes ele me lembrava uma palmeira-anã enrugada; em outras uma gigantesca espiga de milho. De fato, não fosse pela placa — GENITÁLIA DE BALEIA: MACHO —, ninguém haveria de perceber que aquilo era um pênis de baleia. Mais parecia uma relíquia desenterrada do deserto da Ásia Central que produto do oceano atlântico. Não tinha semelhança alguma com o meu pênis, nem com nenhum que eu já tivesse visto. Além disso, o pênis amputado exsudava uma singular e de alguma maneira indescritível aura de tristeza. 

Esse gigantesco pênis me veio à mente depois da minha primeira experiência sexual com uma garota. Que caprichos do destino, que tortuosas rotas marítimas o teriam trazido àquela cavernosa área de exposição? Meu peito doía ao pensar naquilo. Não havia vislumbre de esperança. Mas eu tinha apenas dezessete anos e era obviamente jovem demais para me desesperar por tudo. E a partir de então passei a pensar da seguinte maneira:

Não somos baleias.




MURAKAMI, Haruki. Caçando Carneiros. Editora Alfaguara. Pg. 28, 29.