19.6.15

a ignorância


A distância entre a minha casa e o supermercado é curta. A rua movimentada. Todos os tipos de veículos seguem um mesmo rumo. Todos as formas humanas tentam a ir a algum lugar com pressa. Montadas ou dentro. Acumuladas ou em si próprias.


O que seria uma caminhada simples assemelha-se a um jogo de videogame. Com o diferencial de o dano ser real e não poder haver reinício. Durante o caminho entre a minha casa e o supermercado, nem mesmo a bela máxima do Vanguart, "só acredito no semáforo" , é possível. Carros roubam o tempo e o direito uns dos outros. As luzes e as cores não importam.


Eu odeio carros. Simples assim. Os odeio pelo fato de serem uma representação gigante e gasosa da pessoa que está dentro. Pedestres se esgueiram entre os carros como se fossem insetos. Arriscam o corpo. 


Eu espero o semáforo e observo a falência do sistema de trânsito. Observo a falência básica da inteligência social quando, deliberadamente, os homens ignoram a diferença entre o verde e o vermelho. Uma variação ignorante e desrespeitosa do daltonismo.


Compro pão, queijo e cerveja. Não sei de onde eles vieram. Quem os produziu. O nome dos funcionários. Não sei o nome da senhora atendente que fez muito bem o seu trabalho de ensacar e pesar o pão. Tenho profundo respeito a quem faz bem o seu trabalho. Não distinguo esse ou aquele trabalho como sendo mais importante. A minha distinção é entre bons e maus profissionais. Estes últimos, todos sabemos, são a imensa maioria.

Compras em mãos, vou ao caixa. Um deles não funciona porque a gerente do supermercado não consegue desbloquear a tela de entrada. Não sabe como logar outra conta que não seja a sua própria. Entro em uma das duas filas possíveis.

Então surge a grande incógnita ignorante deste post: a mulher à minha frente. Em uma primeira visão, não dá para achá-la determinantemente feia ou bonita. Em seu anelar esquerdo está um anel que pode ou não ser uma aliança. As suas compras são compostas por produtos saudáveis e, entre as caixas e o pacote, está um saco transparente com dois quilos de carne vermelha e sangrenta. Um bicho morto entre caixas cheias de líquido de úberes de vacas modificados quimicamente para engordar menos os mamíferos no topo da cadeia alimentar. Os fazendeiros, os engenheiros químicos, as máquinas empacotadoras. Todos estão em torno de um boi morto e uma pequena parte do corpo desse boi (ou vaca) está sendo vendida decentemente a uma mulher que não parece solteira ou casada, hétero ou lésbica ou bi, feia ou bonita.


No meio do fechamento das compras, o telefone da mulher toca. Ela fala sobre decisões pessoais com alguém que soa ser seu irmão. Ela possui uma voz grave, masculina, destoante das suas roupas de establishment feminino manauara. Ela digita o código do cartão e sai, ainda falando ao telefone. Não sem antes dirigir um obrigado inútil ao caixa — um rapaz com sobrancelhas tiradas e irritadíssimo com o seu dia e o rumo da sua vida. Um outro rapaz leva as suas compras até o carro. O papo sobre coisas inúteis continua ininterrupto.


Eu passo as minhas compras e a conta dá exatamente o número que eu calculara mentalmente. Os pequenos prazeres inúteis: não são tão burro a ponto de fazer cálculos aritméticos de cabeça. Eu, que estudei até Cálculo 2. E toda a Física secundarista e algo de moderna. 


Quando saio do supermercado, ainda vejo a mulher-nada com a porta do carro aberta, falando ao telefone. Não sei se ela agradeceu ao rapaz que guardou as suas compras ou se deu a ele alguma gorjeta. Imagino a sua vagina incerta e a carne vermelha deglutida sendo despejada em um vaso enquanto ela fala ao telefone, prestes a pressionar pedais e a despejar fumaça.

No curto caminho de volta, percebo os carros ainda mais apressados desrespeitosos. Todos apressados. Entre eles há um ambulância gritando uma sirene. Não tenho ideia do






Nós não deveríamos dormir juntos. 

   Eu sou quase um ano mais velho que você. Você é quase um ano mais velha do que eu. Eu sou quase dez anos mais velho que você. Você é quase vinte anos mentalmente mais nova do que eu e também quarenta anos mais responsável do que eu; e eu sou alguém mentalmente trinta anos mais velho do que eu mesmo deveria ser, e com uma raiva de vinte e cinco anos passados.

   Você gosta de apanhar e eu gosto de bater porque a mão de quem bate também apanha e ficam marcadas tanto uma quanto a outra. Depois de um tempo, ambas saram. 

   Você dorme e eu acordo em horas diferentes. Eu penso em organismos, em átomos desorganizados e você pensa na sociedade como um todo


 malaise /mælˈeɪz/ noun [ S or U ] formal
a general feeling of being ill or having no energy, or an uncomfortable feeling that something is wrong, especially with society, and that you cannot change the situation 



   Eu vou à varanda e vejo trabalhadores do sistema de saneamento vestidos todos na cor laranja. Eles não percebem que eu os observo enquanto fumo.


   Eu leio Thomas Ligotti e John Green. Sou um homem complicado intelectualmente. Em minhas veias correm a crítica ao capitalismo e uma vontade imensa de morar em Porto de Galinhas. Um humanista pacifista que quer ter o seu próprio rifle para apontar a quem ousar invadir a sua propriedade.

   Eu quero ter algo mais pelos próximos trinta anos. Ocupar uma área deste planeta afundado em merda. Habitado por uma maioria explorada, ignorante. A humanidade nunca foi emocionalmente tão burra quanto tem sido hoje em dia; e você não concorda mas mesmo assim me ouve. Pensamos em bolos de aniversário. As pessoas cheias de problemas — por que eles existem?

   As pessoas não sabem. Eu não sei. Mas vivemos / ganhamos a vida assim / vivemos por ganharmos a vida. Tocantes à ignorância: Não existissem os ignorantes, os precisantes de cuidados, os que não sabem aprender um idioma por si próprios ou a viver por si próprios, teríamos que vender flores, maçãs, bandeirinhas do Brasil no Sete de Setembro.

   Eu admito a ignorância dos outros. Não admito a nossa. As paredes da nossa caverna devem ser mais brilhantes que a dos outros. Mais limpas. Eu me recuso a admitir o contrário. Uma bela amostra de ignorância. Recorro aos livros. Eles são o meu tutor, o meu deus, o meu guia adotado por mim mesmo. Um monte de papel que ecoa e mim. Um eco imaginado e silencioso.

   Os livros tornaram-me inteligente, cruel, agressivo, amoroso. Os livros proporcionaram-me tudo o que sei de substancial. E continuarão. 

   E acredito que nunca, na história da humanidade, duas pessoas que nasceram exatamente no mesmo momento, hora, minuto, segundo, centésimo, treparam. E, ainda menos provavelmente, amaram-se tanto.