14.6.16

O vaga-lume (trecho do romance "Norwegian Wood", de Haruki Murakami)



À tardinha, o alojamento era silencioso como uma ruína. A bandeira era arriada do mastro e as luzes reluziam na janela do refeitório. Como o número de estudantes havia diminuído, apenas metade das luzes do refeitório era mantida acesa. A metade da direita era apagada, ficando acesa apenas a metade da esquerda. De qualquer forma, sentia-se no ar o leve aroma do jantar.

Subi no terraço levando o vidro de café solúvel contendo o vaga-lume. O lugar estava deserto. Esquecida no varal, uma camisa branca, semelhante à pele despojada de um animal, tremulava ao sabor da brisa noturna. Subi pela escada de metal em um canto do terraço até o alto da torre da caixa-d'água. O tanque cilíndrico ainda estava quente do calor absorvido durante o dia. Sentei-me no espaço exíguo e, apoiado no corrimão, tinha diante dos olhos a lua branca quase cheia. À minha direita, via as luzes de Shinjuku e, à esquerda, as de Ikebukuro. Os faróis dos automóveis formavam um rio luminoso fluindo entre esses dois bairros. Um leve gemido, formado pela mistura de vários ruídos, pairava como uma nuvem sobre a cidade.




O vaga-lume brilhava indistintamente no fundo do vidro, com uma luz muito fraca e pálida. Havia muito que eu não via um vaga-lume, mas em minhas lembranças eles emitiam na escuridão das noites de verão uma luminosidade mais intensa e nítida do que aquela. Eu sempre achara que os vaga-lumes emitiam essa luminosidade viva, incendiária.

Tentei me lembrar da última vez em que vira um vaga-lume. E onde teria sido? Consegui me lembrar da paisagem. Mas fui incapaz de recordar o lugar e o momento. Ouvia o som de água dentro da escuridão noturna. Havia o dique de tijolos ao estilo antigo. Podia-se abri-lo ou fechá-lo girando-se uma manivela. O rio não era largo. Era um pequeno curso d´água, com a superfície coberta pelas plantas aquáticas que brotavam à sua margem. Tamanha era a escuridão ao redor que com a luz da lanterna apagada não era sequer possível ver os próprios pés. Centenas de vaga-lumes voavam acima da água represada do dique. Seu brilho se refletia na superfície da água como uma chuva de faíscas.

Cerrei os olhos e me deixei afundar por um momento nas trevas das lembranças. Podia ouvir o som do vento mais distintamente que de costume. Não era um vento muito forte, mas deixava rastros estranhamente nítidos ao soprar ao meu redor. Quando tornei a abrir os olhos, a escuridão da noite de verão havia se tornado um pouco mais profunda.

Abri a tampa do vidro, retirei o vaga-lume e o pus sobre a borda de apenas 5 centímetros da caixa d´água. O inseto pareceu ignorar sua mudança de condição. Deu uma volta ao redor de um parafuso, num movimento incerto, tentando subir por uma parte solta da pintura semelhante a uma ferida. Depois de avançar um pouco para a direita e notar que por ali não poderia mais ir além, voltou em direção à esquerda. Subiu com esforço até a cabeça do parafuso, onde permaneceu agachado por um tempo. Totalmente imóvel, pareceu ter exalado o seu último suspiro.

Ainda apoiado ao corrimão, eu observava o vaga-lume. Tanto ele quanto eu permanecemos assim imóveis por muito tempo. Apenas o vento soprava ao nosso redor. Dentro da escuridão, as inúmeras folhas dos olmos farfalhavam.
Esperei uma eternidade.

Demorou muito tempo até o vaga-lume levantar voo. Como se finalmente tivesse entendido alguma coisa, ele abriu as asas e, no instante seguinte, estava flutuando na penumbra para além do corrimão. Descreveu um arco rápido próximo à torre da caixa d´água, como se desejasse recuperar o tempo perdido. Parou depois, como se esperasse para ver a linha curva de luz que criara ser dispersa pelo vento, e finalmente voou rumo ao leste.

Muito depois de o vaga-lume desaparecer, seus traços luminosos continuaram dentro de mim. Atrás de minhas pálpebras cerradas, dentro das espessas trevas, seu brilho suave continuava a vagar como uma alma perdida.

Estendi várias vezes os braços em direção a essas trevas, Meus dedos nada tocaram. A pequena luz estava sempre um pouco além do meu alcance.


(MURAKAMI, Haruki. Norwegian Wood. Alfaguara. (pgs 57-58)


8.6.16

Pedestre

Não gosto de automóveis. Não sinto vontade de ter um. Não tenho time de futebol. Eu normalmente me aborreço quando ando de carro com a minha mulher. Prefiro ônibus. Vazio, lógico. Dependendo da luminosidade e dos amortecedores, dá pra manter a leitura em dia. Também posso ouvir música intrauricularmente e abafar o som ao redor.  Principalmente o de pregadores maníacos. Cansei do metafísico. Não me importo mais com isso. É impossível afirmar ou negar se deus existe ou não. É totalmente simples, porém, recursar qualquer deus que permita o sofrimento de inocentes. E isso inclui todos eles. 'Eles' para usar a imensa maioria deles, masculina de gênero. A maior parte dos deuses não gosta de mulheres. Masculinos, femininos, coisas ou hermafroditas, todos, sem exceção, permitem ou permitiriam o sofrimento.

Gosto praticamente de todos os tipos de mulheres. Acho todas atraentes. Curiosamente, não acho as mulheres fitness atraentes. Independente das malhas deixarem todas as formas à mostra - o que seria algo muito atraente para quem gosta de mulheres - a proximidade com o masculino anula a atração. Acho engraçado ler comentários empolgados em fotos de mulheres fazendo agachamentos com um peso sobre os ombros, ou levantando e abaixando as pernas repetidamente. Os músculos tensionados e todos os músculos do tórax aparentes. Obviamente, toda e qualquer forma de exercício é válida (afinal, é importante morrer com saúde) e qualquer pessoa tem a liberdade de usar o seu corpo como bem entender, levá-lo ao limite, como os atletas no clipe de Survival, do Muse. Para mim, porém, nada barra a beleza de um corpo feminino natural. 

Os homens são, em sua maioria, uns cretinos. Fato é a ojeriza coletiva atual a quase todos eles. Os assediadores e os agressores se escondem. Os que nunca fizeram nenhuma das coisas sentem-se constrangidos pelo fato de serem homens. Não me sinto menos homem for não fazer algumas coisas do establishment tais como dirigir, gostar de carros, ou praticar esportes de forma amadora com o verdadeiro intuito de tomar umas cervejas depois. Eu vou direto para a parte das cervejas. 

Há um par de horas, caminhando de volta do supermercado, vi um sujeito horroroso passando no sentido oposto a uma mulher. Ele a olhou nos olhos e, em seguida, de cima a baixo. Seu corpo esbarrou no dela. A mulher era jovem. O sujeito há muito já passara dos quarenta. Estava mal vestido. Era sujo e a sua barriga caía por cima da cintura, escapando por baixo da camisa. Em nenhum mundo normal um sujeito como aquele teria qualquer chance de aceitação imediata por qualquer mulher sã. E talvez isso é que cause o desespero em homens como o que vi. A total fealdade e a impossibilidade de realização de qualquer aceitação estética por qualquer mulher bonita e atraente. Sua única chance de tal realização de ideal estético seria encontrar uma mulher bela, porém perversa ou com alguma perturbação mental. O que, sabemos, só acontece nas histórias rodrigueanas.

Os homens desinteressantes, por serem feios, ou sujos, ou ignorantes, ou grossos, ou todas essas coisas juntas, caem em desespero. Eles precisam gozar para diminuir a dor inconsciente de estarem vivos. De estar em um planeta hostil, tendo uma existência sem nenhum sentido além de viver um dia após ao outro e carregar uma porção desagradável de matéria que precisa reproduzir-se para perpetuar a maleficência da existência humana. O dia inteiro galgado por trabalho ou sofrimento precisa ter uma interrupção de segundos; um clímax que os torne cegos e felizes por um curto momento. Para chegar a tal, eles fazem de tudo.  O homem fedorento, com a barriga caindo por cima das calças, quer ter um filho. Consciente ou inconscientemente. Isso é assustador. Dependesse dele, a mulher assediada - assim como tantas outras, incontáveis, ao longo do caminho - abriria as pernas e o receberia e, após ela, toda uma série de mulheres diversas traria à Terra o paraíso do homem nojento. As mulheres precisam caminhar desviando-se de demônios, ouvindo obscenidades à sua revelia, quando não duelando com o contato físico. Discreto ou extremo, covarde e nojento sempre. As mulheres devem escolher a violência para subjugá-los. É assim que funciona com as bestas.

Voltando a antes de minha ida ao supermercado. Fui de boníssimo humor porque tivera um sonho bom. Estranho, porém bom. Eu estava em um ônibus (nem em sonhos ando de carro) passando pelo boulevard Álvaro Maia. Se você não é de Manaus, não sabe que nesta rua fica o cemitério mais antigo da cidade. São João Batista. Não sei o que o santo fez para ter tantos cemitérios batizados com o seu nome. Ao passar pelo cemitério, ouvi um burburinho e descobri que dentro do cemitério estava acontecendo uma performance do Radiohead. Desci imediatamente do ônibus.

Para tornar a narrativa um pouco mais dramática, eu não conseguia achar o cemitério. Passei batido a primeira vez, como se um quarteirão inteiro fosse fácil de não ser percebido. Na volta, porém, encontrei a porta. Toda a alameda principal do cemitério estava tomada por barracas iluminadas. Era um arraial de São João. As luzes eram azuis e vermelhas e todas as pessoas conversavam de forma vivaz. Nada ali era mórbido. Ouvi a música e descobri que a banda estava se apresentando no final do cemitério. Corri.

No fundo do cemitério não havia túmulos, e sim um pátio coberto que ocupava toda a extensão do muro. Em seu teto havia arranjos de pequenas luzes, amarelas e brancas. Percebi serem elas parte do cenário da performance. A banda estava em um dos extremos do pátio. Eles tocavam dentro de um grande cubo, seguindo a formação clássica de uma banda no palco, mas separados por cubos menores. Sem se verem, como se estivessem em um estúdio de gravação. Eles estavam tocando 'There There' ("just ´cause you feel it, it doesn´t mean it´s there") e assisti atônito a performance. Não havia quase ninguém assistindo.

Durante a performance me dei conta de estar observando a banda por um espelho. O que via - à minha direita - era um reflexo - a banda - real - estava à minha esquerda. Ao me dar conta disso, os vi ainda mais próximos. Não consegui ver os membros no centro do cubo. Em um dos lados, havia uma moça misto de membro do Radiohead com membro do Ladytron e em outro lado, Thom Yorke. Eles terminaram a execução da música e logo em seguida um membro da equipe abriu um cortina ao lado do cubo indicando um intervalo. Thom saiu bem próximo a mim e, quando estava passando, chamei o seu nome. Ele parou, sorriu, e apertou a minha mão. Ele estava com o cabelo branco e descolorido e tinha altura menor do que tem realmente. Eu disse 'thank you'. Ele sorriu discretamente e seguiu em frente.

Um das cortinas do quarto deixava o sol passar mais livremente. Mesmo com a preguiça natural, levantei feliz. Quase com um sentimento secundarista de quando se tem a primeira paixão da escola correspondida.