21.7.16

Super


Mover-se entre casas requer uma série de arranjos e maneirismos. Sempre ter algo pessoal e útil em cada uma delas. Chegar a arranjos em poucos minutos. Onde dormiremos hoje? Aqui ou lá? Vamos passar em nossa casa para deixar mais algumas caixas? Podemos passar hoje na casa da minha mãe para pegar algumas roupas, depois voltamos para casa. 

Entre as casas sempre há o super, seja ele um de compras rápidas, emergenciais, ou o de compras mais seletivas e demoradas. Minha memória seletiva para coisas estranhas me faz memorizar o comprimento e o preço do papel alumínio. Também aprendi a resignar-me com a estranha ordem de velocidade das caixas registradoras dos super populares. Não há lógica ou ordem simples de ser seguida. Um mesmo caixa com apenas uma pessoa pagando um enlatado pode demorar três vezes mais que um com três pessoas com cestas contendo uma quantidade razoável de víveres. Coisas ímpares acontecem. Na sexta-feira passada tive sorte e fui logo avançando pela linha azul e depositando minhas compras na esteira. Items pequenos orbitando ao redor do pacote de cervejas. Ao erguer o rosto para ver a somatória dos produtos, percebi que a caixa da estação à frente chorava copiosamente. Os olhos vermelhos e as mãos tentando conter as lágrimas intermitentes. Alheio a tudo, um consumidor passava suas compras e a moça equilibrava-se entre a atividade de registrar items e limpar o choro. A sua colega está chorando, eu disse à moça que registrava meus produtos. Ela olhou para trás e não esboçou qualquer reação de espanto, muito menos de compadecência. Tudo continuou como se nada de triste estivesse acontecendo. Eu mesmo não soube o que fazer. Apenas disse à caixa à minha frente que ninguém deveria trabalhar chorando. A frase também não pareceu surtir efeito. 

A razão da compra das cervejas ser quase urgente foi o fato de uma faxina das brabas estar aguardando para ser feita. O apartamento enorme e silencioso respirando ar limpo e expelindo poeira ininterruptamente há mais de uma semana. A primeira hora de faxina, mais crua e bruta do que as que a sucederiam, foi interrompida pelo alarme do congelador. As latas estavam geladas. Tomei o primeiro gole com falsos brios de trabalhador braçal. E vários outros se sucederam. Achei que beberia quatro ou cinco latas até o final da faxina mas, realmente, não mensurara adequadamente o quão sujo e empoeirado o apartamento estaria. Ao quase final da limpeza já estava meio bêbado. O apartamento continuava com um pouco de silêncio. Durante todo o processo eu ouvira música através de fones de ouvidos. Um eventual curioso que auscultasse pela porta principal do apartamento poderia pensar estar lá uma criatura estranha, entrecortando grunhidos, espirros seguidos vez ou outra por palavrões e trechos de músicas de duas décadas.

Consegui armazenar mais grande parte da velhice do apartamento em caixas e guardá-las em lugares estratégicos, fora do campo de visão. O apartamento é enorme, repito, mas um a um os cômodos foram sendo limpos, vencidos. Durante grande parte do processo pensei em nosso apartamento, novo , sendo habitado aos poucos, e o quão difícil e complicado é ter um pedaço temporário de espaço . E o quanto demora para construí-lo e organizá-lo e decorá-lo da forma que queremos. Então envelhecemos. Desaparecemos. O apartamento fica vazio como uma anti-cova: sem corpo ou corpos, apenas uma cova vazia, ansiando para ser novamente preenchida por vidas. 

Considerei esta a mais pesada e última faxina que fiz em nosso apartamento provisório. Depois do trabalho fiquei um tanto adoecido. Inalei bastante poeira. Bebi demais e não alimentei-me direito. Falei com a minha mulher pelo telefone e contei em detalhes tudo o que escrevi acima. Decidimos dormir em lugares diferentes. Ela estava cansada demais para dirigir até o Centro e eu estava bêbado e cansado demais para locomover-me de qualquer forma que fosse. E eu ainda teria trabalho no dia seguinte. Nada dramático a ponto de ser ao menos comparado com uma faxina simples. Despedimos-nos e eu adormeci logo em seguida. Não lembro de ter desligado a televisão antes de ter adormecido mas lá estava ela, desligada. O quarto estava todo iluminado. O apartamento continuava limpo e no mais absoluto silêncio.

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