29.12.17

Os Seios que Salvam os Filmes Ruins







Decidi assistir Blind Date (1984) movido por dois desejos que não mais podem ser considerados tardios, e sim eternos: o de gostar de filmes que de tão ruins são interessantes, e o de gostar de seios. 

Explico. Sou de um tempo onde não escolhíamos os filmes - os filmes nos escolhiam - e seios eram difíceis de serem vistos. Na minha época, para olhar um par de seios anônimos ou famosos você precisava ter idade e coragem suficientes para ir a uma banca de revistas ou aguardar sessões pós-meia noite na televisão para observar, inocentemente boquiaberto, seios anônimos ou famosos. 

Em contrapartida, durante os anos 80, 90 e comecinho dos 2000, nunca tantas modelos e atrizes famosas toparam participar de ensaios fotográficos. Movidas pelo clamor silencioso do público masculino, as editoras não mediam esforços para chamar patrocinadores e bancar ensaios caríssimos que brevemente pagavam os investimento ao vender milhões de cópias. Era um acordo entre damas e cavalheiros.

Até a internet e os escâneres chegarem com tudo e acabarem com a exclusividade e o charme das revistas, tornando-as peças de colecionador. Hoje ainda possuo uma pequena coleção de clássicos, aceitos pela esposa, e discretamente visíveis na prateleira mais alta de minha modesta biblioteca.

O grande mérito de tais décadas passadas foi o fato de todas as famosas nuas estarem ali por seu próprio consentimento. Um ato voluntário, pensado, negociado e legalizado. Ao contrário das fotos infames hackeadas e vazadas de forma covarde das quais as celebridades modernas vez ou outra tornam-se vítimas. 

Voltando ao filme ruim que em português recebeu o título de 'Visão Fatal'. Tudo nele é ridículo e anacrônico. 

É a história de um sujeito babaca que anda de walkman pra cima e pra baixo e joga videogame usando seis televisões de tubo. O cara é babaca a ponto de namorar a Kirstie Alley e ainda assim seguir uma modelo que parece sua com a sua ex-namorada. Em uma ocasião ele é descoberto, literalmente, atrás da moita observando a modelo. Ele corre desesperado pela floresta e dá de cara com um tronco, o que o faz perder a visão. 

Após se oferecer como cobaia para um experimento ultra-tecnológico, ele consegue desenvolver uma visão sonar 8 bits interligada ao seu walkman que o torna apto não somente a locomover-se como um Daredevil movido à pilha, mas a investigar e perseguir um serial killer que anda pelas ruas de Atenas matando moças sem saber que uma delas era a Marina Sirtis. 

Falando nela (o grande motivo de eu ter decidido assistir a tal filme ruim) posso dizer que nem tudo no filme é ridículo e anacrônico. As mulheres, famosas ou não, então utilizadas apenas como chamariz (palavra velha, sei) são hoje o que o torna digno de ser visto. 

A história, a trilha e os argumentos risíveis o desintegraram. A beleza de Kirstie Alley e, principalmente, a primeira aparição de Marina Sirtis em uma cena curta e absurda onde ela nem parece ela mesma, é o que mantém os torrents de Blind Date ativos até hoje.



27.12.17

A tarde aguardada por todo um ano




Ano passado, em um tarde nublada como esta, estava aqui em casa assistindo Entrerprise, na razão de uma cerveja e meia por episódio. Assistia no celular episódios baixados para serem assistidos offline porque não tínhamos internet permeando a casa. Naquela tarde conforto crescente fez com que eu tivesse o embraçamento do lugar. Minha casa. O meu lugar aguardado por tanto tempo. 

O ano passou e com ele as suas turbulências. Ao contrário de Star Trek, elas não foram resolvidas em menos de cinco minutos. Algumas, porém, resolvidas nos cinco minutos finais. Minha casa melhorou e continuará melhorando; e como o membro anônimo do crew que, mesmo vestindo vermelho, consegue escapar por um ano difícil, e ao mesmo tempo como o capitão que, ao final do episódio, senta em sua cadeira e sorri internamente, sabendo que os créditos pós-edição passarão à sua frente, eu observo o final do dia, quarta-feira, após uma breve pausa entre episódios para escrever este post.

26.12.17

O Dia do Nada

Sempre falo para os meus alunos sobre uma reunião de seres malignos ocorrida há muitos e muitos milênios. Em tal reunião definiu-se que, mesmo sem qualquer motivo realmente necessário, todos os seres humanos seriam forçados a acordar cedo, mesmo contra a sua vontade. 

Falo em tom de brincadeira, porém excetuando-se a fábula de forças malignas, tal convenção de que devemos acordar cedo para sermos mais produtivos não faz o menor sentido quando é fato que a imensa maioria das pessoas detesta acordar cedo e só vai produzir algo realmente consistente após uma, duas ou várias horas se passarem; quando não raro passam todo um dia sem fazer nada de realmente produtivo porque não dormiram na noite anterior. Vivem um dia de dor que poderia ter sido evitado.

Penso que o ideal seria existir um programa de catalogação para pessoas que acordam cedo espontaneamente. Elas, e apenas elas teriam a permissão de trabalharem de manhã cedo. O horário de trabalho das demais também obedeceria ao relógio biológico. Os despertantes matinais, vespertinos, e mesmo os notívagos trabalhariam quando estivessem no seu horário desperto. 

Uma segunda decisão, mais radical, seria a de proibir qualquer atividade antes das nove horas da manhã seguida de uma terceira, que proibiria o funcionamento de lojas e serviços não fundamentais em horários inadequados. Exemplo: uma loja de brinquedos não funcionaria às oito da manhã de uma quarta-feira pelo simples fato de não ser de menor urgência alguém comprar um brinquedo em tal horário. Mas digresso em um texto sem postulados.

Hoje, dia de natal, fiquei feliz também pelo fato de ser segunda-feira e praticamente tudo na cidade estar fechado. O nome Jesus ainda consegue fazer certos milagres. Voltamos para casa durante o horário de almoço. Não vimos o trânsito lento e irritante de costume. Vimos sim uns tantos mas poucos carros transitando porque, assim como em nosso caso, era realmente necessário locomover-se, sair ou voltar para casa. 

O comércio parou. Todos ficaram em casa, encolhidos por causa da chuva. Em uma realidade senão ideal, bem melhor que a nossa, ninguém trabalharia na segunda-feira. A segunda-feira serviria para descansar do domingo, ficar em casa, sem fazer esforço. Seria o dia do nada.


21.12.17

Filmes Pretensiosos




Todo filme é, via de regra, pretensioso. Seu objetivo é o de levar o maior número possível de pessoas ao cinema, ou acumular a maior porcentagem de críticas positivas ou, fato ideal, aliar os dois e ainda conseguir se incluir no panteão dos grandes filmes. Movidos por esse desejo, vários diretores e roteiristas usaram de toda a sua criatividade e ação para conseguir tal feito. A consequência de tal ambição é que, infelizmente, eles quase sempre deixam a pretensão guiá-los e erram na mão, criando um resultado desagradável. Existem inúmeros exemplos de tal falta de sucesso, sendo o mais recente o filme Mother!, escrito e dirigido por Darren Aronofsky.

Partindo da estrutura clássica dos filme de suspense, mais especificamente os de Roman Polanski, acompanhamos por horas câmeras em plano fechado no rosto de Jennifer Lawrence enquanto a mesma presencia comportamentos estranhos tanto por parte do marido quanto por um casal de visitantes que insiste em se tornar parte do convívio do casal e visivelmente possuem uma cumplicidade incômoda que torna o mistério mais e mais crescente. Fantasmas? Paranóia? Conspiração satânica para sacrificá-la? Nenhum dos motos são a justificativa; e é apenas neste momento que o filme mostra certa originalidade. O espectador mais atento ou dado a interpretações literárias logo percebe que o filme é uma grande alegoria sobre a criação artística. 

A mãe é a musa do escritor/poeta e toda a tensão se dá pelo fato do mesmo não consegui criar algo novo. Quando ela decide engravidar, o processo de criação se desencadeia, a obra se concretiza. O livro é impresso e o escritor claramente sente mais orgulho dele do que da criança prestes a nascer. Não demora muito até a sua casa ser invadida pelo público: gente anônima e de todo tipo, que não se importa em saber como a obra foi criada, e sim em consumi-la em causa própria. Envolvo pelo público e pela vaidade, o escritor esquece de sua musa, a abandona, não precisa mais dela. A beleza da arte é consumida. 

O grande problema do filme é que esta última parte da alegoria é mostrada de forma muito, mas muito violenta. Um vilipêndio gratuito que tem como mera explicação chocar visualmente o público. Tudo poderia ser narrado de forma mais curta, menos violenta. Sem tanta pretensão. A musa, mãe ou outro paralelo que o valha, se deixa morrer, e ainda pede que o escritor retire o seu coração para que, assim, ainda seja apto a dar vida a outra musa e assim continuar criando. A casa queimada, exaurida pelo fim da primeira obra e invasão antropofágica do público, se recompõe e outra musa desperta. 

A história funcionaria bem em um romance seguindo o estilo de Homem Lento ou Desejo e Reparação, onde a narrativa se rompe de súbito e nos damos conta de que a realidade na qual envolvemo-nos era na verdade outra. Em forma de filme, a alegoria de Mother!, além de consumir milhões e, mais gravemente, beleza, talento e juventude de Jennifer Lawrence, falhou.



O Desodorante


Estava em casa, aguardando a hora do encontro. A hora marcada era às cinco e o relógio ainda marcava duas e meia. Não havia nada que pudesse ser feito a respeito. O problema é que tomara banho muito cedo, em torno das dez da manhã e, sob o calor desde então, começou a suspeitar que o desodorante não estava fazendo o efeito desejado. Após o banho, constatou que o desodorante estava no fim, no estágio em que não sabemos se o que sai é líquido desodorante ou apenas o resto do gás comprimido. Se eu sair para comprar desodorante, vou precisar trocar de roupa e andar por mais dez minutos sob  o sol assassino das três da tarde, se eu ficar em casa, o desodorante (ou quase desodorante) que tenho sob o corpo pode vencer de vez e todo o disfarce da minha condição inerente de bicho irá por água abaixo porque começarei a cheirar da forma que cheiro realmente. É preciso correr, pensou. É sensato não se brincar com a animalidade. Dobrou as roupas cuidadosamente e, com passos apressados, foi até a drogaria a dez minutos de casa. 

O Dono do Edifício


É comum observar edifícios sendo construídos. É incomum, porém, realizar como uma única pessoa ou um grupo de pessoas foi capaz de pensar e concretizar tal ideia. Imagino a satisfação do dono do edifício. Para observá-lo apropriadamente, é necessário que ele (ou ela, ou eles) entre e suba em outro edifício algumas quadras adiante, para que só então tenha uma noção mais exata do tamanho do edifício, seu agora. Seria como possuir um elefante, caso se gostasse de elefante, apenas sendo esse um elefante inorgânico, cheio de tubos por onde correm fios e água vinda de fora, uma caixa que emana luz e também despeja dejetos. O dono do edifício tem consciência disso. E enquanto circula pelos corredores, toca levemente as paredes. Os construtores, elfos humanos silenciosos e anônimos, já foram pagos e agora constroem outro edifício. Isso tudo é meu, ele pensa, enquanto um carteiro apressado e esbarra nele sem pedir desculpas. 

Andando por Entre Roupas


Os breves momentos de confusão mental ao despertar, sem saber qual a hora exata, ou o mesmo o dia, a acomete tanto quanto a todos os seres vivos. O despertar da planta, se se dá ou não, não é o mais importante. O seu trabalho humano é atender a uma loja de roupas para todas as idades, exceto a terceira, idade onde ou você costura as suas próprias roupas ou tem que adaptar roupas de faixas etárias inferiores a sua. Recebe brevemente as diretrizes do dia, sempre as mesmas, convencer pessoas a incluírem mais um cartão em sua carteira cheia de papéis que não são moeda. O time dá as mãos e solta um breve grito motivacional. O dia começa às nove da manhã e terminará às dez da noite. Durante este período ela caminhará entre roupas, organizando-as, ajudando pessoas que não tem consciência do tamanho do próprio corpo. Em cada corredor curto e simples, de paredes baixas compostas por roupas em cruzetas, ela pensará em como sairá deste lugar. Por hora, encanta-se com um novo modelo de saia. Pede a colega do caixa que a separe.

As Mandíbulas


Você tenta contê-las de forma a usar a força mas não causar trauma. Ela porém as abre e dá um grito raivoso, abafado, contido. Tuas mãos tremem porque não sabem como agir com algo selvagem sem usar a força. O canto dos lábios prestes a romper-se, e lá de dentro algo, bicho, se insinuando. Você sente as mandíbulas tornarem-se fortes a ponto de rasgar quem tu és. Algo te observa lá de dentro enquanto a mulher cessa os gritos para respirar, recompor-se. Sua caixa torácica se comprime e se expande,  a temperatura do quarto se altera, esfria. Todos os barulhos cessam e de dentro dela sai uma cadela, farejando todo o quarto - a mim - e abandonando a pele de antes. Seu hálito próximo é o mesmo.

As Bordas


Atualmente trabalho em postulados sobre a minha Teoria Geral das Bordas e Típicos Contratos Sociogeográficos que as Tornaram ou Tornarão  Bordas. Até onde avançar a mão ou o discurso ou, caso ainda mais delicado, apesar do mais macroscópico, avançar sobre a borda de um país. É difícil postular equações sem um zero fixo: por exemplo, o beijo no canto dos lábios, se acidental ou calculado e os efeitos motores e consequentes do mesmo. A entonação da voz também é um problema. O que a bordeia como anódina ou um grito de desespero? Durmo tão tarde a ponto de ser cedo ou acordo tão cedo por curtos minutos e começo a dormir: acordei muito, mas muito cedo e decidi dormir mais um pouco. O abraço, sua duração e abertura dentro do abraço caso um dos abraçados possua seios e o outro não e o primeiro indivíduo decide voluntaria ou arbitrariamente que o volume dos seios possa ser sentido de forma breve, semi-crassa pelo outro não pode ser expresso em gráficos, ainda.

A Anti-Lótus


Enquanto todos se preparam para dormir ou para ler um livro nem tão bom assim ou para trepar ou beber o primeiro café, nossa gata apenas se larga, como que arrebatada pelo deus do sono. Ela dorme entre espaços mínimos tão bem quanto quando tem permissão para dormir em nossa cama de casal. Não importa se o som é de um telejornal horroroso ou Coltrane; o dormir e acordar tão simples e tão rápido dos gatos, sem frescura de lugar ou tempo, é fato de uma paz de espírito e elevação física que jamais teremos. Seus planos? Ficar em casa pelos próximos treze ou quinze anos e depois não mais ser gato. Chega. 

20.12.17

O Prêmio


Todos a observaram ganhar o prêmio. Um reconhecimento e um envelope cujo conteúdo era desconhecido tanto para a audiência quanto para o premiado. O que é estranho. Você ganha um prêmio por algo e o prêmio, o teor recompensa, é incógnito. "Quero agradecer a K.". Não dá para abrir o prêmio de imediato. As pessoas mais próximas o cumprimentam efusivamente, outras simplesmente desviam o olhar. O ambiente corporativo, mesmo nas mais diminutas corporações, é segregativamente silencioso, todas as castas sendo definidas através de olhares e cumprimentos. Uma novela mexico-liliputiana. O conteúdo do envelope? Um cartão impresso com votos de felicidades e elogios.

Paulistanos Gritam Relacionamentos


Na praça de alimentação dos shoppings, nas ruas, sentados em lugares públicos e em bares, como todas as pessoas, em frestas e lugares sem gravidade, em todos os lugares, os paulistanos gritam sobre os seus relacionamentos. É como um compartilhamento indesejado automático de um contato em uma rede social. Você não quer ler, não quer ver, mas está lá. Todos os depoimentos lançados no ar anônimo levemente poluído de São Paulo tendem para a infelicidade. São problemáticos sem exceção. Os paulistas e paulistanos parecem não se importar com a altura da voz e a quantidade de pessoas ouvindo suas desventuras amorosas (cujo desenlace será solitário e acima do peso, em um apartamento com vinte anos restantes para quitação e infelizmente desvalorizado porque dentro deste imóvel foi encontrado um corpo já em estado avançado de decomposição) pelo fato de as pessoas não se olharem nos olhos ou, mesmo que se olhassem, possivelmente não se esbarrarão novamente pelos próximos três anos.

–– Intermission: Amarna



O Bolo


Você sabe que está tentando emular certo aspecto da criação. Reunir ingredientes conhecidos e cuja dosagem é proporcionalmente determinada e o tempo de cada parte no processo. Apenas siga a receita, mas não. Não é assim que funciona. Existe o incerto durante todo o processo. A qualidade do material, a temperatura ambiente. É comum ouvir alguém dizendo ter seguido a receita detalhadamente e, no final de tudo, o bolo não ter dado certo. Culpa do forno ou de um ovo que não se dissolveu como o esperado porque, por dentro, estava corrompido ou, simplesmente, o fermento. Bolo como gente.

O Sentinela


Eu acredito ser a minha função meramente punitiva. Este pensamento me ocorreu no meio da noite, mais exatamente às duas da manhã (a manhã ainda escura, que nem manhã é realmente), quando todos sem exceção dormiam e eu observava uma rua sem carros e nem ao menos pedestres zumbis que costumam vagar sem rumo. Guardar um prédio, eu apenas, contra alguém bem armado ou simplesmente dois, é de uma inutilidade tremenda. Sou apenas um pára-balas, um sinal de alerta ou, desonra para a profissão, uma testemunha ocular. Os primeiros carros começam a transitar, apressados mesmo ainda sem dia, e a inutilidade, a punição que também eles sofrem, me conforta.

Os Aniversários


Observo e não entendo como o rapazinho de quatorze anos simplesmente não se aproxima da mocinha de mesma idade - a qual, desde o início da festa de aniversário o encara copiosamente, deixando claro a ele e a todos que a está encarando copiosamente por ter decidido, pleno início dos anos noventa, a possuir o empoderamento mínimo de encarar um garoto bonitinho e vê-lo sem saber o que fazer. Não há lugares na casa, não há tempo ou experiência mínima para que ele se aproxime. Passados mais de vinte anos, os dois finalmente conversam através de uma caixa de comentários, as vidas completamente mudadas e sem necessidade real de qualquer conversa e muito menos aproximação; apenas a vontade de fechar algo ainda aberto.

O Café da Tarde


Sempre desconheci de onde vinha tal ordem em um casa sem servos. Tudo se arranjava e o pão quasse nunca quente porém sempre fresco, o bolo surgido do nada, uma jarra com inúmero cubos de gelo. Servíamos duas, às vezes três vezes do café da tarde. Todos tomávamos café, simples com leite com ou sem açúcar. O tempo faz as fatias de queijo prato se soltarem facilmente.  Mas era, era verdade. Depois voltávamos para o quarto e, além do café, não tínhamos noção do que faríamos com as nossas vidas.

A Mesma Camiseta


Acordou cedo e não sabia o que vestir. Trôpega, mal conseguiu escovar os dentes e entender a cozinha. O balde de roupas datava do ano de mil e quinhentos. A camiseta, usada há pouco, menos de três horas, aguardava presa ao cabide. Pára, cambaleia e é salva pela perna esquerda. Cheira as axilas para confirmar se passou ou não desodorante. Certa do sim, o borrifa dentro a camiseta de ontem, a tornando a camiseta de hoje. Ontem ela parecia cinza, agora é rubra e se encaixa perfeitamente.

O Bloco


Não deveríamos estar tendo essa conversa, mas estamos aqui e olha, o bloco que recebi de presente há dois ou três natais e nunca usei, nunca nem liguei pra ele mas estranhamente ele me aparece em sonhos. Recebi vários souvenires que simplesmente joguei fora na limpa de fim de ano, mas esse bloco continua, resistente, então resolvi te devolver com sinceridade, a mesma que me move a dizer que não aguento, não suporto mais ver a tua cara. Toma o bloco. Vou continuar te vendo, mas suma.

Despedida


Cinquenta pessoas lançaram flores em direção ao rio. O corpo, coberto por várias camadas de lençóis sendo as duas últimas utilizadas para acolher pedras, afundou calmamente. Observamos por mais um curto intervalo de tempo, até quando só havia água. As flores também sumiram e nada pareceu ter acontecido. Observamo-nos, um clube de branco, definido em sua cor por gente que nunca conhecemos, há muito já no fundo do rio. Os mais próximos abraçaram-se, os de carro ofereceram carona.

Sentimento


"Eu estive aqui, juro que estive aqui antes", e que diferença faz?, eu digo. "Não, queria apenas dizer, não como se fosse o plot de um filme onde as pessoas viajam no tempo e dá tudo errado porque, ao longo do tempo, as coisas sempre dão errado". Sim, entendo, e você percebeu como todas as pessoas sem exceção, nós e todo o resto, possuem rostos repetidos? "Sim, o meu mesmo parece um pouco com o daquela mulher ali a frente". Há gente igual a gente circulando por aí, o pessoal negando os criadores. Estranho como se atribui o surgimento do universo a um criador ou a uma criadora, mas raramente a duas entidades. "Mas há crenças que pregam isso". Jesus, eu sei, mas aqui em Manaus ninguém dá conta de quais são elas.

O Ônibus


Dividíramos o mesmo ônibus por semanas desconhecidas até trocarmos olhares por diversas vezes até sorrirmos e começarmos a nos espremer de pé um próximo ao outro, trocarmos telefones e começarmos o namoro. Nunca tivemos uma real versão corporal plena um do outro pelo fato de estarmos sempre dentro de um veículo coletivo, ou caminhando para casa ou sentados em uma praça de alimentação. O ir e vir da cama de quartos de motéis para pedestres também não nos dava uma dimensão exata de como seríamos quando estivéssemos casados e dividíssemos a mesma cama quarto e vida. O corpo lasso, sem fazer nada, como uma planta, jogado na sala ou adormecido, veio apenas após termos assinado os papéis. Decidimos ter uma gravidez. Nunca aconteceu. A observo assistindo o sol.

8.10.17

O horizonte



O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — e o céu caindo mais adiante, bem mais à frente, já na avenida Constantino Neri — em um silêncio constante talvez interrompido em um dia onde não haverá mais gente — pontuado por luzes de torres desconhecidas e prédios de apartamentos cheio de gente dormindo — muda de cor.

Penso na inclinação da Terra. Estamos ou não de cabeça para baixo? E, se estamos, qual diferença faz para toda a ordem das coisas? Ao nosso redor — fora da Terra — tudo é absurdamente silencioso. O silêncio do universo, mesmo com tantos planetas girando furiosamente, tanta grandeza — e gás — é inexplicável como todo o resto.

Girando o ponto de vista. Indo muito, mas muito longe, em uma distância impossível de imaginar para olhos humanos, há um homem bastante semelhante a mim com um livro sobre o colo. A existência deste homem é tecnicamente possível. O universo é largo o bastante para existirem muitas Terras iguais a nossa e gente semelhante a nós. Esse homem semelhante a mim é mais magro — diferente do outro outrora semelhante a mim — em um lugar ainda mais distante — envelhecido de forma gorda torta e incorreta. E a magreza e ou a gordura são totalmente irrelevantes: o homem é o mesmo. Eu neste universo ainda resisto ao envelhecimento óbvio. Descubro e confirmo através dos olhos de outrem o fato de tanto eu quanto a minha mulher aparentarmos ter menos idade. Não tenho trinta e sete anos.


Alguém viu este horizonte antes de mim, neste lugar exato? Não, nunca. Ninguém nunca esteve suspenso neste apartamento. Piso muitos metros acima, imitando o chão. Piso, muitos metros acima, imitando o chão. Piso muitos metros, acima, imitando o chão. Piso muitos metros acima. Imitando, o chão.  

6.9.17

Um trekker em formação



Assistir Star Trek faz você se tornar uma pessoa melhor. Primeiro porque se você decidir assistir a todas as séries: The Original Series, The Next Generation, Deep Space Nine, Voyager, Enterprise e mais a Discovery (prestes a estrear) não sobra muito tempo para odiar ou fazer muitas coisas erradas. 

Segundo, porque os valores mostrados nas séries fazem ter esperança na humanidade, vislumbrar um futuro onde nem países existem mais e a ética humanista, não religiosa, guia as decisões (quase) sempre sábias dos comandantes. O coletivo antes do individual. A amizade antes da missão.

Cada um dos comandantes ensina algo ímpar. Kirk a ser passional, mas sempre guiado pela razão. Além de sempre beijar a garota quando possível, não importando de qual planeta ela seja ou mesmo sendo uma andróide. Piccard a ser firme e sempre optar pelo discurso antes de usar a força. Janeway a ter muita paciência, mesmo que a sua missão leve literalmente uma vida inteira. Sisko a aceitar entreveros mas sem se resignar com isso, e Archer a ter coragem, não ter medo do que acontecerá, mesmo sem muitas vezes ter a menor idéia do que virá pela frente.

E há os volcanos. Spock, principalmente. Todo fã de Star Trek (eu pelo menos) tenta ser como ele em vários momentos onde tentamos agir e resolver coisas logicamente. E falhamos. Na verdade não conseguimos ser tão bons como nenhum integrante principal da série nem em suas virtudes e nem em seus defeitos. Não consigo beber tanto quanto Mr. Scott e ainda ser apto a consertar um mecanismo movido a antimatéria, ou segurar a onda como Mr. Tucker ao esfregar gel antiséptico e ser esfregado pela T´Pol. Mesmo assim continuo tentando. 

Inconscientemente sempre fui fã da saga. Quando criança tenho a memória do VHS de Star Trek II, À Procura de Spock, e lembro do quanto fiquei impressionado ao vê-lo indo de uma criança a um adulto em poucos dias. Nos anos que se seguiram, vi alguns filmes sem seguir a sequência, sempre gostando, mas sem assistir os episódios organizadamente pelo fato de então ser bastante difícil (e caro) encontrar e encomendar séries, muito menos abrir um serviço de streaming e ter todos os episódios organizados, prontos para serem assistidos.


Ao lembrar da maravilha tecnológica que era o video-cassete e compará-lo com o computador à minha frente percebo o quanto o tempo passou rápido. Mesmo não estando no planeta Gênesis, me sinto um pouco como o Spock. Um dia criança, outro adolescente e agora adulto indo para os quarenta. Por enquanto a lembrança, distorcida, mas lembrança, é o único time warp possível.   

Ainda sobre a questão do tempo, se você decidir não assistir mais nada além de Star Trek, levaria pelo menos um ano até você conseguir assistir a todos os filmes e episódios já produzidos. Sem contar os livros e os jogos. É preciso muita gostar muito. E não é difícil gostar muito das séries, mesmo se você incompreensivelmente não é fã de ficção científica.

Assim, para você dizer a alguém que é um trekker e se garantir, leva tempo. Eu decidi começar a minha graduação, digamos assim, após o reboot da franquia. Comprei a caixa com todos os episódios da série original (a qual teve apenas três temporadas, sendo que a terceira é considerada bem ruim) e todos os longa-metragens da série original e os da Nova Geração. Agora estou terminando os episódios da série clássica e assistindo as primeiras temporadas das outras séries pela Netflix. E aguardando a Discovery ansiosamente. 

A cada episódio - onde normalmente os problemas mais catrastóficos se resolvem nos últimos cinco minutos - vou aprendendo mais um pouco do que não considero uma cultura inútil; e sim algo possível de existir um dia. Vislumbrar coisas que, se acontecerem, acontecerão muito depois de eu não mais existir. Além de os personagens serem muito bem criados e desenvolvidos com uma impressionante dedicação do elenco: em momento algum você pensa que William Shatner não está realmente vendo uma nave se aproximar pelo monitor, ou que qualquer figurante não está realmente circulando pelos corredores de uma das naves ou em uma estação espacial no fim do universo.

Não sei quando termino de assistir a todas as séries Star Trek, mas um dia chegarei lá. Verei os créditos subirem e, ao me olhar no reflexo da televisão, não sei ao certo qual aparência terei, mas espero estar aqui. Antes disso, porém, espero que o mundo real não acabe antes; e que um dia cheguemos a pelo menos um vislumbre do que é mostrado em Star Trek. 

26.8.17

Trânsitos



A percepção de estar em um lugar fazendo algo e, ato contínuo, estar presente em outro fazendo algo completamente diferente, usando as mesmas roupas e com a mesma umidade sobre a pele do banho que tomara minutos antes e muitas vezes a mesma música, mas ambientada em outro lugar, me mostra um conjunto de cenas banais, porém bem urdidas, e faz com que me sinta personagem de algo não controlado por mim mesmo. Eu vou te contar sobre meu dia de hoje.

A visão e as interações curtas que tenho com a minha mulher enquanto eu tento acordar e ela está pronta para o trabalho estão mais no campo onírico do que no da realidade. Às vezes ela está bem-humorada e às vezes não (isso é uma descrição tacanhamente limitada e óbvia do ser humano: todos, sem exceção, estão ou bem-humorados ou não) mas de qualquer forma nos comunicamos. Hoje foi assim. Um beijo mais longo que o normal para antes das sete e a porta se fechando em um silêncio breve; como se minha mulher tivesse esquecido de trancar a porta, mas não: a tranca corre uma, duas vezes, e ela fecha a mim e a nossa gata em segurança.

Eu tomo café da máquina nova e que delícia é o café. Provar um café bom ou provar qualquer outra bebida razoavelmente boa cria uma frustração constante com o que não é tão bom quanto. Ainda essa semana comprei pó Santa Clara para coar o café que levo para a autoescola. Levei por dois dias, terça e quarta, mas não levei nos dois últimos porque não ia voltar para casa depois e antes do trabalho. Uma garrafa térmica é algo frágil; independentemente de ser uma Zojirushi ou uma comprada com bônus Bemol. Estava acostumado com o café en passant, aquele que você bebe enquanto vê televisão ou calça os sapatos. O café cuja função é acordar e não fazer com que você e o aprecie – café – em seu gosto e importância. 

Pouco tempo depois estou dentro de um ônibus. Uma espécie de purgatório ambulante. Várias pessoas se aglomeram antes da roleta. Uma senhora negra e magra recende a álcool. A cobradora recusa a minha cédula – diz não ter troco. Uma senhora bate no meu ombro, diz que quer passar. Eu a encaro e digo que eu irei afastar e ela irá passar. Os presos antes da roleta percebem o meu tom de voz e me encaram brevemente com leve estranheza. A senhora que morrerá sem ter bons modos fica em silêncio e segue em frente. Empurra a roleta que lhe dará acesso a um dia totalmente esquecível. Tento não ser preconceituoso, mas é difícil não me ater ao fato de que a existência da maioria daquelas pessoas deu errado. Começou errada e continuará pontuada por um sofrimento que terá um fim incerto. 

Eu abandono o ônibus um ponto depois do qual entrara. É um veículo expresso, circula pela faixa azul. Enquanto os carros particulares se espremem no engarrafamento, o ônibus articulado segue com os seus passageiros irritados, entorpecidos, dentro, como uma massa, golfada ponto após ponto. O segundo ônibus passa logo. Este mais vazio e civilizado. Em pouco mais de cinco minutos estou a caminho da sala de aula. Desta vez não como professor, mas como aluno de legislação de trânsito.

Esperava o resultado de um teste previsto para o fim da tarde. Eu sabia que passaria, mas o teste é um teste por si só e só se encerra quando se sabe o resultado e você começa a pensar ‘e senão passei? Que vexame! Não basta estar em uma autoescola aos trinta e sete anos de vida?  Resolvi abrir o link e lá estava: aprovado. Alguém feliz no meio de uma aula de legislação de trânsito! Passei pelo teste silencioso. A instrutora de legislação de trânsito é uma mulher fincada na meia-idade, presa em um loop de chatice e constante. Tudo o que eu aprendi em relação a ser um professor é o que ela nunca aprendeu. Do arranjo das carteiras a coisas básicas como saber o nome das pessoas que por três horas estarão ouvindo as suas digressões de três frases sobre o trânsito e a existência.

Nesse ínterim terminei de ler O Teatro de Sabbath, de Philip Roth. O qual, realmente, não sei porque se tornou um escritor digno de vendas e de cânone. Tudo em Roth é ok. Só me dá a estranha impressão que a sexualidade exacerbada de seus personagens foi feita para vender livros. Não há significado. A leitura do livro me deu a clara impressão de estar lendo algo que não foi editado. Algo sem substância. Jonathan Franzen é melhor que Philip Roth. E o primeiro não precisou escrever uma dúzia de romances com um protagonista judeu e vender livros por sua obscenidade que nem obscena é direito. Romance tem que ter unidade. Causar um frio e um assombro quando do seu fim. Ou um anticlímax que te acompanhará por semanas. Romances de Jorge Amado me causaram isso mais de uma vez. Graciliano. Ou Como Era Verde o Meu Vale, de Richard Llewellyn, que me levou às lágrimas com tanta singeleza e força narrativa. O romance finalmente chega ao fim. Em sua cena final Sabbath se cobre com a bandeira americana e mija sobre o túmulo de sua amante. O fim dos livros digitais é abrupto ou inesperado – quando as várias páginas seguintes são na verdade apêndices ou informações extra sobre o autor e sua obra. 

Ainda tenho metade de Os Detetives Selvagens para ler e, não sei, por várias vezes penso que Bolaño pecou pelo excesso de genialidade; algo semelhante a David Foster Wallace em Graça Infinita: a demonstração implacável de quão culto e o quanto se domina o idioma e a técnica da escrita e isso tirar o lugar da história e até mesmo a força dos personagens. Você lê mais pensando o quanto o escritor é bom do que o quanto a história é boa. Independentemente de ser um clássico ou um livro da série Star Wars, a história é o mais importante.

Caminho bastante após a aula. Além de ir em direção ao apartamento da minha sogra, também tenho por motivo encontrar um adaptador para tomada. Passo por três lojas e não encontro em nenhuma. Para não perder a viagem compro uma saboneteira. Há poucas horas estava tomando um café delicioso e a minha casa ainda guardava a penumbra e um resto do ar condicionado da noite recém-desfeita – agora estou sob o sol me fazendo e refazendo entre luz e sombra. A estrela flamejante sobre a cabeça. Um negócio que rompe o vácuo. Uma estrela girando e explodindo furiosamente no centro de algo. Os homens buzinam dentro dos carros.

Almoço. Leciono até as quatro e meia. Preciso correr após o fim da minha aula - agora como professor e não aluno entediado - para conseguir furar as paredes antes das cinco e parafusar as saboneteiras novas. Termino de furá-las às quatro e cinquenta e nove. Torço parafusos. Limpo o chão do boxe com os pés. A água corre alheia. Reativo a barra do Windows após assistir a um tutorial feito por um rapaz simples do interior paulista. Só termino este texto vinte e quatro horas depois.



5.8.17

Ódio Social


Você pensa no life spam. Em todas as coisas legais e todas as merdas que fez e que mesmo assim ainda te deixam vivo e cheio de memórias. As coisas legais acontecem em uma frequência muito maior do que as merdas, mas estas últimas sempre são mais marcantes. Ou ambas se misturam e as coisas ficam ainda mais complicadas de serem esquecidas. Exemplo: Tudo era tão legal e prazeroso, até ficar uma merda (ou mesmo) quase acabar com a minha vida. Li recentemente vários posts sobre um tal aplicativo que permite a alguém mandar mensagens anônimas a outrem. A premissa cínica era a de que, dessa forma, anônimos se encorajariam, dariam “uma força” uns aos outros – como se o aplicativo fosse ser utilizado por pessoas de um outro planeta, e não humanos. Humanos adoram guardar rancores, odiar, ou foder uns aos outros, muitas vezes com tudo ao mesmo tempo. Não criei e jamais criarei uma conta nessa coisa. Várias pessoas já disseram que me odeiam sem precisar utilizar aplicativo e algumas outras me odeiam sem nem ao menos precisarem falar isso. Outras me amaram, fodemos e depois nos odiamos, mesmo continuando nos fodendo e nos desprezamos ou odiamos por termos que continuar fodendo pela falta de amor de outrem e no final das contas fui odiado por ter deixado ou ter continuado como alguém que não espera nada porque não há nada além do life spam. 

Mas digresso. 

E continuarei em minha digressão. Realmente não sei o que faz alguém odiar outrem gratuitamente. Sem ter tido um familiar morto por esta pessoa ou ter perdido um membro do corpo ou tudo o que possuíra: casa, carro; o que a maioria das pessoas consegue possuir e que, no balanço universal, não vale absolutamente nada. A amizade vale, até um dos amigos morrer e lá estou eu digressando novamente. Digo odiar por odiar. Ter o seu pensamento direcionado a alguém constantemente e desejar algo de mau ou simplesmente ter raiva dessa pessoa. Isso vale um estudo. Um estudo que não mudará nada como todo estudo, mas que mesmo assim será um estudo. Eu não odeio ninguém. Fato. Isso não me faz melhor ou pior, mas me desocupa muito, mas muito tempo. Escrever isto, claro, já é uma perda de tempo, mas como não possuo interlocutor no momento, me expresso por aqui, um espaço tranquilo e sem o fluxo constante e caótico de outras redes sociais. Há um desejo sadomasoquista e egocêntrico em se abrir a uma rede onde mensagens anônimas são trocadas. Qual a utilidade disso? É algo como ouvir uma voz ou receber um papel por baixo da porta sendo que você jamais poderá esmurrar, abraçar, comer (ou todas as coisas ao mesmo tempo) ou mesmo agradecer a quem te mandou tal mensagem. Tudo posto, esta mensagem é pra você, que ainda lê o que escrevo.

4.6.17

All-in-One


Não lembro muito bem de como escrevi o último post. Decidi escrever alguns dias após termos assistimo ao filme abaixo. Koreano e com margem a interpretações. Meio bêbado, escrevi as minhas impressões. É estranho ler algo assim, escrito sob certo efeito e empolgação do álcool. Parece que outra pessoa escreveu certos trechos. Também tenho a mesma impressão quando, escolhendo alguns meses aleatórios do arquivo passado ao lado, leio algo que não lembro mais ter escrito e que por vezes me surpreende por ser bom ou ridiculamente mal escrito. Sendo assim, totalmente sóbrio ou levemente bêbado, ao passar dos dias me torno outra pessoa. Melhor ou pior, mas outro.

Tanta coisa aconteceu. É difícil organizar os atos. Perdi a respiração por duas semanas. Uma sensação horrível. Leituras interrompidas. Tive certeza que há algo de maléfico no clima das quatro da manhã, quando uma asma ininterrupta me fazia acordar de um pesadelo menos pior que a realidade.

Escrever ou não, ou não continuar não escrevendo? Sou do tempo em que o blog era a única forma de oversharing possível. Hoje em dia eu vejo gente proclamando quase um pré-suicídio via Facebook, ou postando fotos do dente recém-extraído pelo Instagram. O que há em comum é que ninguém escreve textos, e sim posts. Não há um começo-meio-e-fim. Quando há ninguém lê. Eu posto umas coisas vez ou outra, mas nunca posto textos nas páginas dinâmicas e brilhantes do Facebook ou do Instagram. Ninguém consegue mais se concentrar na leitura porque só se lê em locais não propícios. Todos buscam imagens e um reflexo do que gostam, do que são ou do que desejam. Nesse mundo, um monte de letras é uma chatice, o que torna o blog algo silencioso e positivo. Só lê quem quer, quem tem interesse ou está com a mais pura falta do que fazer e não tem um livro em mãos. Escrever sobre si, postar e deixar um texto como este online não significa muita coisa. Apenas o Google+ permite um anonimato mais aberto.

Comprei um computador que faz tanto ou menos coisas que o meu celular. Não um notebook ou um tablet. Um computador, ou “all-in-one” como se diz hoje em dia. Cheguei à fase do dizer ‘hoje em dia’ porque já se vão lá vinte anos desde que comecei a ter acesso constante a um computador, ainda sem internet, e passei pela fase dos vinte anos postando quase todos os dias e obtivendo respostas, fazendo semi-amizades e tendo discussões saudáveis. O tempo em que mais postei foi durante o ano em que morei na casa da minha tia. Meu quarto era um guarda-roupas, um sofá-cama e uma mesa de computador. Não havia muitas opções. Eu também não tinha um tostão. Pedia dez reais emprestados a minha tia para passar o final de  semana. Acreditem ou não, era possível sair no sábado com dez ou vinte reais e ter um baratinho com três caipirinhas e ainda voltar para casa no primeiro ônibus da  manhã. “Qual é a sua história?”, os aplicativos perguntam: “Jogue um fitro no rosto e nos conte”. Eu costumava editar os html para mudar a cor do cabeçalho da página; publicar fotos alheias sem edição porque era simplesmente impossível melhorar a coisa toda.

Hoje tudo é mais fácil e possível. A qualidade de texto não é a mesma, o que é natural. O texto segue a mesma linha entrópica da criatividade. Estamos na fase terminal. Não há mais nada a ser escrito que ainda cause alguma surpresa. A leitura para quem gosta é o café: gostoso e imprescindível, mas nada de novo. Você bebe o mesmo todos os dias e um dia ou outro o gosto vem diferente, melhor. Sendo assim, leio de tudo. Comprei o calhamaço do Proust. Reiniciei o primeiro livro de Em Busca Do Tempo Perdido em sua tradução mais recente. Uma caixa com três volumes, sendo que o segundo tem um amassado na lombada, o que causou um desconto de quase cem reais. Leio pela manhã, sempre que posso, com a nossa gatinha ao lado, pulando sobre o meu colo, tentando arranhar o sofá ou brincando com o seu rato feito de saco plástico. Cada parágrafo escrito por Proust é uma humilhação a qualquer escritor que tente descrever a atmosfera de algo, mais ainda a alguém que tente ser prolixo tentando fazer com que isso signifique conteúdo. Também leio livros ruins, livros pós-adolescentes, ficção científica boa e mais ou menos. O curioso e bom é que nunca li tanto quanto tenho lido hoje em dia. Encontrei listas de leituras passadas, por volta de 2012, e vi que então chegara a vinte e poucos livros por ano; menos do que já cheguei nesse ano de 2017, sem Proust e sem uma casa para cuidar e sem a Frida para tomar de conta. Há algo a mais, livros, a minha vida e as horas-aula que me permitem fazer algo de útil a outrem; além da leitura que é útil a mim mesmo.

Grande parte das minhas leituras são feitas no meu Lev. Jamais pensei tornar-me adepto do leitor digital até o dia em que ganhei um da minha mulher. Durante o primeiro livro comecei a perceber a mágica da coisa. A leitura flui, mais dinâmica e simultânea. Você pode ler dois ou três livros ao mesmo tempo (como quase sempre leio) sem que precise se preocupar com marcadores ou peso. Além disso, é possível baixar livros ilegalmente como se baixava músicas e ainda se baixam filmes. Bibliografias inteiras em arquivos minúsculos. Estava com 1984 pela metade quando fui assaltado perto da minha casa e perdi o meu Lev. Continuei com os livros ‘físicos’, o Proust de antes, e Battle Royale. Pretendia esgotar a dúzia de livros da nossa biblioteca que ainda ainda não foram lidos quando, sem pompa ou circunstância, minha mulher me presenteia com a nova versão upgrade do Lev. Chama-se Lev Neo. Possui luz e botões que o tornam ainda mais dinâmico e incitador da compulsão pela leitura. O meu gosto pelos livros ruins fez com que eu abrisse uma protobiografia do Casagrande e a incluisse em minhas leituras atuais. Há muito a ser lido. Proust e todos os livos que já li tornam-me consciente de que não sou digno de ter a mulher que tenho. Tantos outros também me ensinaram que ser humano é quase o oposto de ser digno. Entre mortos e mortos, continuo lendo.

Como consequência, não há mais em mim o gosto pelo criar. Tudo já foi feito. Perdi o ímpeto por criar novas histórias. Queimei todos os meus cartuchos. Não tenho esperanças de haver ou haverem novos. Qual a necessidade disso tudo?, eu me pergunto. Escrevo boa parte pelo ato mecânico de pensar e ver o que penso sendo transcrito em uma tela, sem gosto e sem cheiro. Tudo já foi feito café. Como as moças no ônibus, ou as mães de pernas cansadas esperando os filhos saírem da aula. Há ali um enredo, uma possibilidade. No fim das contas, porém, tudo será o mesmo. Vale a pena ser editado na vida de alguém anônimo? Fazer parte, ser inscrito na vida de uma pessoa nova em folha? Não mais. Deus, como me arrependo de ter sido inscrito na vida de um punhado de gente e agravantamente sem saber o quão construtivo ou danoso eu fui exatamente. Todos sobreviveram; sendo que a palavra ‘sobreviver’ está longe de ter uma conotação positiva.  Sobreviver pode ser contar os gastos e continuar fazendo a barba a cada dois dias. Ter sido parte da vida de alguém como um mau amante; ou um grande amigo em potencial que desapareceu com o passar dos dias.

O prédio todo, todo o condomínio está em silêncio. O meu novo computador all-in-one continua impávido à minha frente, esperando ter coisas escritas. Meu corpo, eu, começo a dar sinais de cansaço. Acordei hoje cedo, há vinte e uma horas para ser mais exato. Este post se encerra porque amanhã precisamos acordar relativamente cedo para ver a ópera de Onde Vivem os Monstros.




19.2.17

sobre como Eungyo nos ensina a observar as mulheres corretamente






A contemplação da beleza feminina é algo que está caindo em desuso. O que há é desrespeito ou, mais radicalmente, desejo puro e simples de cópula. A culpa de tudo isso é dos homens, não das mulheres. 

Exceto pelos homens de classe, nos quais me incluo com segurança, que realmente admiram as mulheres. E não os cretinos que acham que seus assovios e comentários pernósticos são uma forma de "valorizar" uma mulher. Grana. Os músculos aparecendo de forma inútil. O grande problema da humanidade é que ninguém lê e, dentro dos que leem, apenas uma minoria lê os livros certos. Eu possuo preconceitos contra quem não lê. Ainda mais obtusos quando são homens. Mais ainda quando são homens que tiveram acesso à leitura mas não leram por serem burros e preguiçosos. 

Eu amo o feminino e serei para sempre um admirador da beleza feminina. Independentemente de gênero, classe ou forma. Mesmo algo inorgânico, como uma montanha, ou uma pilha encurvada de livros que remetam à forma de um quadril. Se evocam o feminino, para mim são belos. Uma mulher trans, com pau ou não, é pra mim muito mais atraente do que uma mulher fitness que possui músculos até nos polegares. Claro que uma fisiculturista não é menos mulher que uma pin-up que não liga para músculos; mas para mim, o seu corpo, a sua força, e até a sua voz que remete, lembra, evoca o masculino, anula o meu ideal estético, erótico e contemplativo de beleza. O feminino para mim é belo. O masculino para mim é feio. Não inferior. Feio.

Um cavalheiro não comenta sobre as mulheres que já passaram pela sua vida. Muito menos sobre a sua mulher. Permito-me dizer, porém, que as mulheres que tive foram muito diferentes umas das outras e eu me tornei um homem melhor após conhecer cada uma delas. Eu lamento quando ouço ou vejo homens que gostam de "um tipo" de mulher; como se isso não fosse uma clara comprovação de imbecilidade e evolucionismo de ave. A vida de um homem é agraciada com o surgimento de mulheres e cabe a ele saber amá-las da melhor forma possível. Não há um homem sem um uma mulher em sua vida. Excluindo a obviedade da mãe, o papel das mulheres é fundamental para que, sem exageros, a vida e o universo com um sentido existam.

Eu não me considero um bom amante. E isso é bom. Mesmo tendo ouvido elogios de minhas mulheres do passado e da minha mulher, a quem quero pra sempre, não considero isso menos do que uma obrigação mínima. Também já decepcionei e machuquei mulheres incríveis que passaram pela minha vida e mesmo essa culpa, arrefecida pelo tempo, tornou-me um homem melhor por não querer repetir o erro. Até onde sei, as moças de dias atrás continuam tornando-se cada vez mais mulheres. Graças a deus, esse materialista nunca desgraçou a vida de ninguém.

Todo esse papo e essa vontade de escrever sobre o meu tema preferido surgiu ontem, enquanto eu e minha mulher assistíamos Eungyo. A primeira sequência de imagens onde Lee Jeok-yo - um poeta de setenta anos, caetanamente vividos - vê a jovem Han Eun-gyo adormecida e em toda a sua beleza plena e feminina, com pés sujos e joelho ralado, respirando, apenas, e comeve-se ao ver a beleza feminina como quem realmente a percebe. E se comove ao senti-la.

Han Eun-gyo é uma mulher "sem" peito, "sem" bunda, sem nenhum atrativo óbvio de beleza. Ela é jovem e não sabe o que é poesia. Seu rosto é assimétrico, ela é magra e desajeitada, mas a câmera a percebe da forma como as mulheres devem ser percebidas; e isso a torna uma das mulheres mais belas que já vi no cinema. O poeta tem setenta anos, o que gentilmente torna desnecessário fazer comentários sobre as limitações da idade. Mesmo assim ele vê a grande beleza. Espontânea e crua. 

Não há lei que não permita a um homem observar a beleza de uma mulher de dezessete ou setenta anos. Respeitosamente.

Há desejo? Sim. Obviamente. Mas não há desrespeito. É um direito humano desejar quem é adulto o suficiente para o desejo.

Durante uma pausa, olhei minha mulher nos olhos e disse "Tá vendo? É assim que eu te vejo. Sob os ângulos corretos. Como a musa." Ela sorriu surpresa, finalmente tendo o insight de que a beleza não é óbvia. A beleza é. E não há nada mais belo no mundo do que as mulheres.

Obrigado.