19.2.17

sobre como Eungyo nos ensina a observar as mulheres corretamente






A contemplação da beleza feminina é algo que está caindo em desuso. O que há é desrespeito ou, mais radicalmente, desejo puro e simples de cópula. A culpa de tudo isso é dos homens, não das mulheres. 

Exceto pelos homens de classe, nos quais me incluo com segurança, que realmente admiram as mulheres. E não os cretinos que acham que seus assovios e comentários pernósticos são uma forma de "valorizar" uma mulher. Grana. Os músculos aparecendo de forma inútil. O grande problema da humanidade é que ninguém lê e, dentro dos que leem, apenas uma minoria lê os livros certos. Eu possuo preconceitos contra quem não lê. Ainda mais obtusos quando são homens. Mais ainda quando são homens que tiveram acesso à leitura mas não leram por serem burros e preguiçosos. 

Eu amo o feminino e serei para sempre um admirador da beleza feminina. Independentemente de gênero, classe ou forma. Mesmo algo inorgânico, como uma montanha, ou uma pilha encurvada de livros que remetam à forma de um quadril. Se evocam o feminino, para mim são belos. Uma mulher trans, com pau ou não, é pra mim muito mais atraente do que uma mulher fitness que possui músculos até nos polegares. Claro que uma fisiculturista não é menos mulher que uma pin-up que não liga para músculos; mas para mim, o seu corpo, a sua força, e até a sua voz que remete, lembra, evoca o masculino, anula o meu ideal estético, erótico e contemplativo de beleza. O feminino para mim é belo. O masculino para mim é feio. Não inferior. Feio.

Um cavalheiro não comenta sobre as mulheres que já passaram pela sua vida. Muito menos sobre a sua mulher. Permito-me dizer, porém, que as mulheres que tive foram muito diferentes umas das outras e eu me tornei um homem melhor após conhecer cada uma delas. Eu lamento quando ouço ou vejo homens que gostam de "um tipo" de mulher; como se isso não fosse uma clara comprovação de imbecilidade e evolucionismo de ave. A vida de um homem é agraciada com o surgimento de mulheres e cabe a ele saber amá-las da melhor forma possível. Não há um homem sem um uma mulher em sua vida. Excluindo a obviedade da mãe, o papel das mulheres é fundamental para que, sem exageros, a vida e o universo com um sentido existam.

Eu não me considero um bom amante. E isso é bom. Mesmo tendo ouvido elogios de minhas mulheres do passado e da minha mulher, a quem quero pra sempre, não considero isso menos do que uma obrigação mínima. Também já decepcionei e machuquei mulheres incríveis que passaram pela minha vida e mesmo essa culpa, arrefecida pelo tempo, tornou-me um homem melhor por não querer repetir o erro. Até onde sei, as moças de dias atrás continuam tornando-se cada vez mais mulheres. Graças a deus, esse materialista nunca desgraçou a vida de ninguém.

Todo esse papo e essa vontade de escrever sobre o meu tema preferido surgiu ontem, enquanto eu e minha mulher assistíamos Eungyo. A primeira sequência de imagens onde Lee Jeok-yo - um poeta de setenta anos, caetanamente vividos - vê a jovem Han Eun-gyo adormecida e em toda a sua beleza plena e feminina, com pés sujos e joelho ralado, respirando, apenas, e comeve-se ao ver a beleza feminina como quem realmente a percebe. E se comove ao senti-la.

Han Eun-gyo é uma mulher "sem" peito, "sem" bunda, sem nenhum atrativo óbvio de beleza. Ela é jovem e não sabe o que é poesia. Seu rosto é assimétrico, ela é magra e desajeitada, mas a câmera a percebe da forma como as mulheres devem ser percebidas; e isso a torna uma das mulheres mais belas que já vi no cinema. O poeta tem setenta anos, o que gentilmente torna desnecessário fazer comentários sobre as limitações da idade. Mesmo assim ele vê a grande beleza. Espontânea e crua. 

Não há lei que não permita a um homem observar a beleza de uma mulher de dezessete ou setenta anos. Respeitosamente.

Há desejo? Sim. Obviamente. Mas não há desrespeito. É um direito humano desejar quem é adulto o suficiente para o desejo.

Durante uma pausa, olhei minha mulher nos olhos e disse "Tá vendo? É assim que eu te vejo. Sob os ângulos corretos. Como a musa." Ela sorriu surpresa, finalmente tendo o insight de que a beleza não é óbvia. A beleza é. E não há nada mais belo no mundo do que as mulheres.

Obrigado.

Nenhum comentário:

O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...