30.4.10

O Canto


Deito no quarto. O episódio do pregador fanático me cansou um pouco. Essas conversas metafísicas mesmo ultrassimplificadas causam uma palpitação breve. Espalho meu tórax sobre a cama. Os cantos do lençol vincados como envelopes cedem ao peso do meu corpo. As costelas descansam o tórax. Os rins descansam as costas e todo o resto com a sua dor aguda interna aliviante.

O único ponto de luz presente no quarto deixa à mostra uma forma negra agachada num dos cantos. Move-se. Não me espanto ou assusto: digo à meia voz que ela suba até a cama. A nenhuma forma desconhecida ou masculina é permitida a passagem além da soleira cinco andares abaixo.

Curioso como o cansaço aumenta quando se descansa. Deitado na cama sinto-me esgotado mesmo sem ter feito nalgo nas últimas duas horas. Algo como uma glândula oculta artifício desse corpo branco de um metro e oitenta que contém as enzimas do cansaço que só se libertam quando os rins estão em posição de descanso. Meus antebraços se tocam. Reconhecem-se. Vem, que medo é esse? Digo.


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