28.4.10

O Pomo Sujo


Ônibus. Senta-se ao fundo devolvendo aos curiosos um olhar agudo inferiorizante. Ouve grunhidos dum fanático religioso: o rosto transmutado, as orações confusas, desconexas, o mal sendo desejado a todos os que não louvarem o seu deus incerto guiado por coordenadas bíblicas como um jogo de batalha naval sem navios — apenas naves à deriva num mar absurdo sem fim nem começo.


Conhece o pregador fanático. Percebe o mal guiando sua língua inculta, empapando o colarinho abotoado até o pescoço. Todos desviam o olhar do pregador. Ora constrangidos, ora temerosos de serem parte direta de seu discurso açoitando a tudo e a todos. Discurso fruto de um ódio fruto de uma série infinita de frustrações fruto da feiúra que o cerca desde a infância. As mulheres maquiadas, os bebedores de cervejas, os adoradores de imagens, os fumantes, os consumidores de pornografia, os admiradores da televisão. Todos, sem exceção, companheiros de Judas. Exceto ele; outrora também companheiro, pecador, mas agora regenerado, limpo e livre, diz.

Seu pomo sujo sobe e desce. O pregador bastardo tem a voz trêmula. Sua e esfrega o rosto com um lenço. A água brota em seguida. Nunca se adaptou ao nó da gravata, e perde ainda mais o fio do discurso quando vem o reflexo de afrouxá-la. Os reflexos, todos sendo guiados por eles. Olhando a não-paisagem pela janela. Levando as mãos aos cabelos. Contendo bocejos. Cobrindo sorrisos para esconder as falhas entre os dentes. Pescoços sonolentos permitindo que as suas cabeças tombem para trás e para frente.

Após uma curva brusca, o pregador percebe estar perto de casa. Encerra bruscamente o sermão dando uma aleluia-ponto-final. Desce.

Ele também desce e o acompanha a poucos passos. O fanático vira-se enquanto caminha. O rosto ainda inflamado. O livro de capa preta sob uma das axilas. Tenta sorrir. Está exausto. Ergue a mão e diz Deus te abençoe, irmão.

Por que você faz essas coisas, Antônio?


De onde você me conhece, irmão?


Certamente não é do galpão que você frequenta. Até porque o dono de lá não te dá a palavra, temendo as asneiras que você pode falar. E você sabe que estou longe de ser teu irmão.


Não estou entendendo.


Está sim. Não se faça de desentendido. Você sabe quem eu sou.


Certamente não é do bem.


Como assim você pode dizer se alguém é bem ou do mal? Olha bem nos meus olhos e diz se você não me conhece.


Antônio o encara e baixa a vista, impotente.


O que houve? De repente ficou sem palavras?


Eu só estou tentando evangelizar. Só isso.


E quem disse que aquelas pessoas precisam disso? Quem disse que precisam de você? Você deve saber que muitas delas são imensamente mais sábias do que você e só querem um pouco de paz antes de voltar para casa. Muitas delas trabalharam, construíram. Certamente não para eles, provavelmente algo diminuto; mas construíram. E quando finalmente voltam para casa, espremidas, indo e vindo dentro de um automóvel grande e fedorento, ainda são obrigadas a ouvir os teus julgamentos sem conhecimento de causa. O que muito me surpreende. E o que muito me enoja; vindo de um homem que há um par de meses fazia exatamente as mesmas coisas que agora condena e que ainda hoje as faz escondido, após ter inventado uma pequena brecha na mesma lei que segundo você a todos observa e condena. Ou você pensa que não sei sobre os goles de bebida escondidos? Ou sobre a revistinha que você mantém sob o colchão e não tem forças para jogar fora? Ou os pensamentos constantes e nem um pouco pudicos que você tem sobre as suas duas vizinhas todos os dias antes de levantar da cama? Muito me decepciona, Antônio, você usar todo o fôlego e toda a voz que não ganhou de graça para atormentar os outros com as suas releituras cegas de um livro impreciso. Pedir a eles para serem humildes de uma forma ridícula, humilharem-se sem qualquer propósito além de alcançar um paraíso ou de evitar um inferno que você, Antônio, não tem a menor idéia de como seja. Que tipo de imbecil gostaria de ser propositadamente fraco? Que tipo de idiota gostaria de passar ridículo e se autoflagelar disfarçando essa necessidade sob uma aura sapiente falsa, suada e ridícula? Anda, ainda estou esperando uma resposta decente para a minha primeira pergunta. Me responde.


Por favor, me deixe em paz! Vai embora em nome...


Fala.


O que você fez comigo?


Só fiz perguntas. E você não as respondeu. E por causa disso não responderá mais pergunta alguma usando essa retórica surda e insana que você tem usado para atormentar os outros. A partir dessa noite, e com ela amanhã e com ela as outras você terá que falar com outros propósitos se não quiser ficar incapaz de um simples murmúrio.


(Sem qualquer agressividade ou movimento abrupto, ele pousa um dos polegares sobre o pomo suado e sujo e o retira em um átimo. Estende a outra mão. Aturdido, Antônio o entrega o livro cheio de grifos e notas pessoais. Também retira a gravata de nó mal dado e a joga no chão)


Eu aguardo você chegar em casa e pedir desculpas a tua mulher e aos teus dois filhos. Eles estão extremamente constrangidos pelo papel de louco que você tem feito.


Antônio começa a caminhar em direção ao beco aonde descerá vários degraus até chegar a um outro beco menor onde encontrará a sua casa com a luz da frente desligada para economizar energia.
Sente-se assustado e só mas, estranho, sente-se livre, sem obrigações metafísicas, sem qualquer necessidade específica de se preocupar com o universo. No banho, observa o chão de cimento. Chega até a cama e dorme um sono de dez horas seguidas sem sonhos marcantes. Não sonhará nem mesmo com o homem que recolheu a sua gravata suja do chão, enrolou-a no livro, e entrou no ônibus seguinte.

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