2.5.10

A Madrugada na Padaria


Aguarda um pouco, digo. Vou até a varanda. Observo os carros abaixo. O piso intermediário, nem tão alto nem tão baixo, me faz pensar nos suicidas pobres de criatividade e recursos. Trago. Apago a ponta. Volto ao quarto. A forma recém chegada observa as mãos. Deito-me. Pergunto como foi o dia. Balbucios. Minhas roupas sobre a cadeira. Você precisa falar mais alto. É difícil ser romântico nesse mundo, ela diz: os faço falar isso antes de causar o desmaio. Os envolvo e sussurro isso dentro do ouvido deles. Mesmo com medo, a maioria não consegue decodificar os signos e a finalidade do que ouviram.


É difícil ser romântico nesse mundo: digo, entrecortando o diálogo sem um travessão antes como nos romances do século vinte. Essa frase, se você me perdoa, não faz muito sentido para a maior parte dos homens. Consciência do outro e do mundo e uma brochura encadernada com cento e vinte páginas que causam efeito imperene não pertencem ao léxico burro e cego das pessoas que dormem acordam suam e não pensam.


É uma missão de merda, ela diz, lábios entreabrindo-se. Pressiono o corpo negro derivado de sua cor amorfa. Faz-se a mulher finalmente. A nuca do corpo recém-formado pousa sobre meus braços como se estivesse assistindo a um filme sobre a parede branca. No meu quarto só existem paredes e livros empilhados por ordem de final. Os felizes e os tristes. Os circulares e os sapienciais. Os bons romances pulam de uma pilha para outra cada vez que os releio. Com os polegares, meço a simetria das costelas. Os lábios grossos. Os olhos me observam fazê-la criar sentido e sentir a rigidez das formas. Umas cedendo, outras não. Minha amante negra. Ela sorri pronunciando seu próprio nome. Isso se chama dor, mas só um pouco e isso, agora, que você sente é o extremo oposto. Aguarda. Preciso sentir mais um pouco, assim, com você se movendo quase. Você grita: é o ar passando com força pela tua garganta e chegando exagerado ao lado de fora. Horas. Sei que você não pode sair. Sempre souberas disso e mesmo assim entrou. Aqui só entra e sai quem eu permito e jamais deixaria você sair da forma que entrou: sem forma, sem voz, sem pele negra com água nos poros. Levanta, preciso olhar uma última vez para o que criamos juntos. Jamais deixaria você chegar como entrou, usando as sombras dos cantos das paredes para se mover entre cômodos e quase matar de susto os maus amantes. Eu vou te conduzir pelas mãos até a porta e pousarei meus polegares nas maçãs do teu rosto e te olharei fundo nos olhos e te deixarei em forma tempo suficiente para caminhar três blocos e tomar café da manhã observando os insones recém-chegados das festas. Dobro as barras e as mangas da minha calça e camisa que cobrem seu corpo. Ponho um cheque no bolso da frente. Sua existência será curta o suficiente para não se importar com a palavra descalça e ignorar os olhares anônimos por estar completamente absorta tentando transcrever o gosto do seu primeiro café.


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