23.5.10

O Romance Infantil Filmado




O romance infantil clássico é construído sobre símbolos. Tais símbolos se dividem entre ilustrações e parágrafos curtos que carregam universos de interpretações e significados. A pós-leitura é como a do romance autêntico: os significados ocultos vêm e vão e serão para sempre reinterpretados.

Escrever um desses romances autênticos é talento para poucos. Transpor um deles para as telas, mantendo o clima de estranhamento e a sua carga simbólica, é talento para menos pessoas ainda. Maurice Sendak, escritor, e Spike Jonze, cineasta, pertencem a estes pequenos grupos.

A realização de Onde Vivem os Monstros (Where the Wild Things Are) possui como grande mérito misturar o que há de melhor nestes dois mundos: os símbolos da literatura e a atração estética da cinematografia.

A história conta sobre Max, um garoto mimado, que após uma crise de ciúmes da mãe foge para a floresta e navega até um mundo imaginário (?) onde encontra monstros que o elegem seu rei e passam a brincar com ele.

A maior parte da história se passa durante esse convívio sem tempo definido, onde Max aprende a lidar com os monstros e as suas diferentes personalidades, ora tornando-se mais próximo a um, ora a outro, mas sempre tendo maior afinidade com Carol, temperamental como ele próprio.

Então Max decide voltar para casa e o filme termina.

O plot seria simples assim se Spike Jonze não dominasse a cinematografia com a estranha delicadeza com a qual os autores infantis conduzem suas histórias. Ele nos conduz durante mais de uma hora de delírio (?) através de um mundo que possui a complexidade, a intensidade e a inconstância da consciência infantil. Suas mudanças de clima e de plano, seus cenários e diálogos absurdos por vezes fascinam e por vezes aborrecem e, como todo grande livro, possuem um clímax belo e memorável que nos acompanha após a história ter terminado.

E permanece. E nos faz pensar em nós mesmos e nos monstros que brincaram em nossa psique. E ainda brincam.


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