27.6.10

Estampas


Algo assim como repousar as mãos sobre o painel do automóvel ainda em funcionamento e não conseguir desligá-lo por não saber o óbvio em dirigi-lo. Tenta acalmá-la. Ela arfa. Alheio a todos os meandros que causaram tal fúria, não deixa de repousar os olhos (momentaneamente) sobre as curvas escuras sem decote.

Causar uma fúria planejada sempre fora algo que causara certo orgulho. Escolher as palavras. Soltá-las como pequenos combos, agulhadas morais até a última frase, seca e pontuada por um sorriso prestes a sair, causar a reação desejada.

Desta vez não. Não sabe o que fizera a ponto de causar tal arfor —, ou seja lá qual palavra seja usada para representar uma mulher branca com olhos injetados de raiva.
A irrita ainda mais quando a deixa parada no meio da sala e encerra a história.

A sala é branca e se encerrou em um parágrafo — aquele ali, anterior, acima — e a mulher arfante permanecerá lá por um tempo indefinido. Nua e arfante. Olhos lacrimejantes (de raiva) e verdes. Uma cicatriz na perna esquerda consequência da queda de um muro. Confiara nos seus instintos de equilibrista a falhara ridiculamente. Agora, sentada, observa a cicatriz. Paralela a panturrilha grossa. Como alguém (pensa), como alguém, pode ter me feito esperar aqui. Sentada no meio de uma sala sem nada dentro além delamesma. Sem móvel algum. Com os cabelos escorrendo úmidos. Encolhida. Nelamesma. Simplesmente porque o sujeito não teve mais idéia alguma. Ela encerra, (observem o peito arfante), ela encerra este parágrafo com vários pontos mudos de exclamação em forma de arfos pequenos breves e intensos.



ø


Fui até a mercearia. No fundo, havia camisetas monocromáticas fluorescentes. Comprei uma longa, tamanho grande, laranja. As mulheres possuem essência tão ilógica a ponto de passar ao mundo externo de forma a torná-las os únicos seres que ficam lindos com uma camiseta vários números maior. A camiseta e mais nada. Na fila, percebi como são tristes e incômodas as pessoas fora do tempo. É fácil identificar uma delas: elas não combinam as estampas das roupas. Usam uma saia de chita com uma camisa quadriculada e toda a sorte de combinações acidentais. A cor dos cabelos não combina com a pele. A cor das sandálias não combina com a cor da camisa. A música que ela cantarola, disco dos anos setenta, não combina com os lançamentos dos últimos dez anos. Desisto dela. Não olhar significa dissipar a menor possibilidade de interação. As coisas sem harmonia, deixa, continuam.


A caixa embala as compras. Olha a camiseta tamanho grande. Olha os cigarros e a cerveja. Olha os preservativos. Observo as suas estampas: uma pele branca + uma camisa xadrez + um jeans desbotado + uma sombra negra ao redor dos olhos. Você sabe quem é Elly Jackson, pergunto. Claro que sei. De quem você acha que copiei esse corte de cabelo? São trinta reais e cinquenta, diz. São trinta e cinco reais, digo, guarda um dos maços contigo.


Arrancar um sorriso simpático de uma garota desconhecida que gosta de garotas desconhecidas é das tarefas mais difíceis. Consigo.



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