9.6.10

Ida e Vinda


Sempre encarei com espanto a forma como o tempo se faz pesar de forma brutal e diversa sobre o corpo de certas mulheres.

Comparo as fotos. A da esquerda mostra uma mulher sorridente. Jovem adulta. Tivera no máximo dois parceiros fixos e três desilusões amorosas. O choro e o sofrimento, todos sabem, envelhecem. Mesmo assim não havia sobre o rosto vincos de rugas ruins. Assim como a quantidade modesta de amassos e tapas furtivos não ameaçara a resiliência da pele e dos músculos. Uma mulher bonita. Não do tipo que me atrairia. Bonita. Graduação média. Olho para a minha mão direita. Três anos separam uma fotografia da outra. Mil dias causadores de quadris com circunferência dobrada, olheiras, uma cor de cabelo incerta, um queixo duplo proeminente e uma ponta de cinta espiando sob o decote vencido.

Ela teve filhos?, pergunto por protocolo.

Não, e não acredito que tenha engravidado nesses três anos.

Cinco mil reais para encontrar um estereótipo infeliz. Mais a passagem e a estadia em Manaus, uma cidade delicada em suas pequenas coisas – alguns lugares, comidas – e horrorosa em sua maioria. Estive lá duas vezes. As pessoas fogem para Manaus. Desemprego, concurso público, infelicidade conjugal. A jovem mulher velha mudara-se do Rio para Manaus na tentativa de reiniciar uma nova vida. Qualquer idiota sabe que mudar de cidade não muda em nada a sua vida; a não ser que você tenha recebido uma proposta de emprego com salário acima de cinco mil reais. Sendo que tal quantia é suficiente para melhorar a sua vida sem que para isso precise cruzar o país. Quando se quer, tudo é motivo.

Certamente o sujeito que agora me contrata para encontrá-la também não sabe do fato. Ou talvez saiba, e quer apenas reatar um laço emocional que no máximo convergirá para um simulacro dos sentimentos que existiram. Além da tentativa de retomada de uma vida sexual que invariavelmente terá pior qualidade. Não discuto. Tenho à minha frente o monitor com a página do banco. Cinco mil reais a mais. Faço um recibo. Declaro: entrega em mãos de documentos pessoais. Além da assinatura, dou a minha palavra.

Manaus é uma cidade pequena circundada por uma massa periférica anônima e padronizada. Seus círculos sociais são ridiculamente minúsculos. Todos se conhecem ou se vêem nos mesmos lugares. Vários já se pegaram e quando se esbarram no shopping trocam olhares cínicos e fortuitos.
Hoje é quinta-feira. Viajarei amanhã. Domingo à noite estarei de volta. Conseguirei fotografias e até mesmo uma carta de próprio punho, se você quiser. Sim? Imaginei que. Nada mais caloroso do que o manuscrito, o cursivo. Despeço-me com um olhar sereno, confidente. Não me sinto muito diferente dos sensitivos que dizem trazer de volta o seu amor em cinco dias.


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