16.6.10

O Fogo e o Calor das Pontas


Uma camada de chuva invisível. Neblina. O ameno existe. Apenas se esconde entre as quatro e as cinco e meia da manhã. Agora sente o quase frio e a mulher observando o frio se tornar água sobre o vidro do carro. O motorista assiste a uma coletânea de videoclipes dos anos 80 e os trata como a dois fantasmas. Em Manaus, apenas algumas poucas avenidas possuem aquele amarelo cosmopolita. Com o polegar esquerdo a desperta do transe. Toca a ponta do seu queixo e a têmpora. Ela o observa. Se aproximam e aproximam as bocas. Beijam-se. Que bom que encontrei você, a mulher diz. Foi uma coincidência, coisa de Deus.

Não, não foi.

Como assim, não foi?

Eu fui até aquela casa noturna para levar você de volta ao Rio, de volta ao teu antigo namorado, aquele que você nunca conseguiu esquecer.

As cervejas que bebera ajudaram-na a conter a surpresa. O álcool e a empatia que sentira pelo homem desconhecido causou curiosidade e surpresa ao invés de repulsa.

Foi isso mesmo que você ouviu. A pura verdade. Quando ele soube que eu estaria em Manaus por uns dias, pediu para eu tentar encontrar você e convencê-la a voltar para o Rio. A tentar consertar os erros dos passado, a tentar rearranjar as coisas. Eu e você sabemos que isso não resolverá nada.

Se você sabia que não resolveria nada, então por que se deu ao trabalho de vir falar comigo?

No início eu pensei em dar um recado simples e direto. O problema é que gostei de você. Te achei uma mulher interessante, bonita, independente. Depois pensei em não dar droga de recado nenhum e mentir pra ele; dizer que não consegui te encontrar. Mas não posso ser desleal a um amigo. O problema é que também não posso ser desleal a você.

O táxi chegou ao primeiro destino. A casa da mulher que comprara a mentira. Ela pediu que ele descesse e conversasse um pouco. Desembarcaram. Acenderam cigarros e observaram a rua vazia à frente. A camada de chuva invisível, neblina. O clima ameno entre as quatro e as cinco e meia da manhã. Um simulacro de neblina criado pela fumaça do cigarro. Neblina interna.

Ok. E se eu quisesse ir lá um dia qualquer só pra olhar uma última vez pra cara daquele escroto? Sabia que ele me deixou sozinha na cidade e viajou para fora para "pensar grande", para "ver o que o mundo tinha a dizer pra ele
?", "para dar continuidade aos estudos", como se eu fosse uma criança que não pudesse acompanhar ele por ser muito provinciana, muito barulhenta?

Se você decidisse tal coisa. eu ligaria pra ele amanhã, ou hoje, Sábado, que seja, e no domingo você estaria observando o mar ao invés de vídeos de pára-quedistas. Você sabe que ele tem dinheiro e todos os cursos universitários. Um tíquete pra entar no avião não seria problema.

A mulher sorri. Ele a beija. As defesas fáceis. A umidade. E a gente, ela pergunta. Eu estarei lá te esperando depois que tudo se resolver, se você quiser que eu te espere. É claro que eu vou querer... E você, o que quer que eu faça?

Eu quero que você o veja, que converse com ele. E depois você deveria esgotá-lo. Não existe isso de esquecer pessoas e cidades. Eles viverão em você pra sempre enquanto você não esgotá-los. Os homens as cidades e todas as coisas precisam ser esgotados para serem esquecidos. Senão você se torna como aquela gente atrelada às sensações do passado, usando justificativas furadas de lembranças e tributos e etecétera para tentar dar algum significado a um presente ao qual não dão muito valor. Isso não faz sentido. É como assistir a uma banda-tributo. Pior. Uma banda-tributo ao Placebo. Uma imitação. Alguém fingindo ser alguém que era nos anos noventa. Você tem que ir lá. Esgotar a possibilidade da experiência a ponto de não precisar mais ter com ela nenhum vínculo. Não há nada mais patético do que alguém sem noção de tempo e espaço, flertando com o passado, tentando mantê-lo como um animal de estimação que não incomoda não por ser discreto; mas porque já morrera há muito e você, sem se dar conta, continua agradando um bicho morto. Você vai ver como o tempo se faz pesar de forma brutal e diversa sobre certas pessoas. E rirá dele. E enganará a ele e se sentirá imensamente bem e em paz com isso. Então você poderá viver em outro estado, ou na rua de trás porque vai dar na mesma. Você poderá ter namorados de verdade.

A mulher aquiesce. Sempre teve para si que essa seria uma hora mágica. Entre as quatro e as cinco e meia da manhã: o único intervalo de tempo no qual as mulheres aquiescem a tudo que lhes seja dito. No dia seguinte, estarão no aeroporto aguardando o vôo que os levará ao Rio. Antes, ele alerta o quase nascimento do sábado. Ela o convida a entrar na casa. Mora sozinha. Só tem por companhia os fantasmas dos anos noventa que insistem em viver nos anos zero, onde tudo fora reiniciado; ou ao menos deveria ter sido. Precisamos fazer duas coisas antes, ele diz: precisamos fumar mais dois cigarros e jogar as pontas ainda acesas em cada um dos lados da casa.

O fogo e o calor das pontas manterá os fantasmas longe da casa. O fogo e o calor das pontas absorverá toda a luminosidade do dia e tornará o quarto escuro até precisarem sair novamente.


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