14.6.10

Tenda


Tartarugas. Na saída do aeroporto existem ilhotas onde tartarugas tomam sol e trocam sinais subsônicos com as carpas na água escura. Táxi. Hotel. Centro da cidade. Gosto dos Centros das cidades pelo fato de todos eles terem algo de semelhante. Lojas com fachadas anacrônicas. Bares misturados a franquias internacionais. Tudo mais ou menos informal e perto. Com cheiro de mundo. Sem aquele cheiro de shopping. Desinfetante.


Vejo o Google da programação noturna. Apenas quatro bares de rock. Apenas dois com música ao vivo. Aposto nesses dois últimos. Defino a escolha do lugar quando vejo a temática: um deles terá música dos anos 90. Talvez a última década de algo criativo no rock. Quatro grandes anos de produção musical e depois mais nada. A fita voltou ao início, dessa vez mais gasta. As bandas-tributo ainda permanecem. Existe algo de terrivelmente autômato nelas. A mecânica perfeita da execução de acordes e nenhuma expressividade ou possibilidade de expressão autêntica. Os anos 90 foram profícuos em talento mecânico e vazios em autenticidade artística. Falsos Kurts. Falsos Eddies. Falsos Chris. Falsos Laynes. A banda que tocará no lugar onde irei procurar a jovem velha fará um tributo ao Placebo. Uma situação emblemática para os tempos modernos: A cópia dum placebo é tudo a que se resumiu o rock.


A casa noturna fica em uma estrada chamada Estrada do Turismo. Tenda Rock. Na portaria, sujeitos com camisas de banda e barriga proeminente controlam a entrada. Alguns monitores mostram imagens de pára-quedistas. Não consigo relacionar os significados. Tenda. Rock. Pára-quedas. Sento num ponto discreto. Tão logo aumenta o movimento, fico junto ao balcão. Em Manaus as pessoas não parecem ter o costume de encostarem-se ao balcão e beberem em pé, como acontece nas outras cidades; preferem ficar sentadas ou encostadas nalgum vinco de parede. Em um deles, reconheço a mulher da fotografia.


A máquina que a imprimira não fora generosa. As rugas não são explícitas. Tão. Ela está um pouco mais gorda. A bunda contida pelo jeans da calça. Os peitos contidos pelo sutiã. O tórax contido pela cinta. A tristeza contida pela maquiagem. Alguns milhares de quilômetros para observar a bunda de uma mulher de quem o tempo é inimigo. Para vê-la observar alguns sujeitos e cutucar as amigas. Elas fazem comentários picarescos e não tomam iniciativa. Esse cinismo irritante das mulheres que se produzem para ficarem sem roupa e fingem pudicícia. Cinco mil reais para tentar convencê-la a ir ao Rio de Janeiro e fazer um homem infeliz com a própria fortuna sentir um pouco de calor dos anos noventa. Não posso chegar a ela e simplesmente fazer uma proposta. Terei que flertar com ela e teremos que descobrir coisas, amigos, coisas, em comum. Tudo terá que parecer uma coincidência daquelas dignas de deus. Teria. Aprendi a não contar com ele. Ao invés, a navalha. Occam. O simples é o possível. Quando ela chega ao balcão, olhamos um para o outro. Sorrimos.


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