26.7.10

2666.4

(...) Essa camuflagem humorística, naturalmente, se presta a muitas interpretações, que finalmente sempre se reduzem, para maior facilidade do público ou do olho coletivo do público, a duas. Vez por outra, os intelectuais se instalam para sempre no proscênio televisivo. Da boca da mina continuam saindo rangidos, e os intelectuais continuam a interpretá-los mal. Na realidade, eles, que em teoria são os amos da linguagem, nem sequer são capazes de enriquecê-la. Suas melhores palavras são as palavras emprestadas, que ouvem os espectadores da primeira fila dizer. A esses espectadores costuma-se chamar de flagelantes. Estão doentes e a cada certo tempo inventam palavras atrozes e seu índice de mortalidade é elevado. Quando acaba a jornada de trabalho fecham-se os teatros e tapam-se as bocas das minas com grandes chapas de aço. Os intelectuais se retiram. A lua é gorda e o ar noturno é de uma pureza tal que parece alimentício. Em alguns bares se ouvem canções cujas notas chegam às ruas. Às vezes um intelectual desvia, penetra num desses bares e bebe mescal. Pensa então no que aconteceria se um dia ele. Mas não. Não pensa nada. Só bebe e canta. Às vezes alguém acredita ver um escritor alemão legendário. Na realidade só viu uma sombra, em certas ocasiões só viu a própria sombra, que volta para casa todas as noites para evitar que o intelectual estoure ou se enforque no portão. Mas ele jura que viu um escritor alemão e nessa convicção se resume sua felicidade, sua ordem, sua vertigem, seu senso da gandaia. Na manhã seguinte faz um dia bonito. O sol crepita, mas não queima. Você pode sair de casa razoavelmente tranquilo, arrastando a sua sombra, parar num parque e ler umas páginas de Valéry. E assim até o fim.

— Não entendi nada do que você disse — disse Norton.

— Na verdade, eu só disse besteira — falou Amalfitano.

(BOLAÑO, Roberto. 2666. São Paulo: Companhia das Letras, pgs. 126, 127, 128)


Nenhum comentário: