20.7.10

Mágica


Acordo. A minha percepção do universo é tão apurada e lenta a ponto de quase ver a luz se alastrando sobre os lençóis. Sem sobrenaturalidade alguma: ainda sonho e o sobrenatural não existe. Por isso vejo a claridade fluindo feito água. Indo. Voltando. Acordo. Percebo o sol e ele não me toca. Assim como o corpo ao meu lado porque o fogo e o calor das pontas ao redor da casa absorvera toda a luminosidade do dia.


Antes de entregá-la, antes de precisar atravessar o país para entregá-la e antes de entregá-la ao homem que me repassara a quantia de cinco mil reais para procurá-la e entregá-la a ele, refaço a mulher. Quando soube que eu a encontrara, dobrara a recompensa. A surpresa certamente renderia o dobro do dobro. Quanto mais idiota, mais rico.

Moldei-a. Deitei-a e a vesti com roupas velhas dos anos noventa. Camisetas puídas. Calças gastas. Meias velhas. Com a ponta dos dedos refiz seu rosto. Dissipei as rugas de cansaço. O queixo duplo. Os pelos excedentes das sobrancelhas. Durante todo o tempo fez-se necessário que ela declamasse letras de músicas. Acorda. Digo. Acorda e te olha no espelho. Ela lagrima pateticamente como se tivesse reencontrado o tempo perdido. O que você fez? Isso é fantástico! Eu não posso dizer. E não é tão fantástico quanto você imagina. Agora você precisa se vestir porque precisamos partir. E se eu não quiser? Ela diz. Simples. Você fica e eu desfaço o que fiz há pouco.

Não demora muito para ela arrumar a mala. A maioria das suas roupas não serve mais. Peço que ela as deixe porque não serão mais necessárias por um bom tempo. Seguimos para o aeroporto.



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