7.7.10

O Fiasco




























O Fiasco
, de Imre Kertész, tem início com um escritor de meia-idade parado em frente ao seu arquivo de textos, tentando buscar idéias para escrever um romance. A certa altura, surge um pensamento recorrente: o seu primeiro livro, ultrapessoal e escrito com pretenso esmero, rejeitado pela editora através de uma carta que desmontava, peça por peça, sua estrutura narrativa e o seu estilo literário.

Tal recusa, um literal atestado de falha, como uma certidão de divórcio ou uma carta definitiva de despedidas, não deixou qualquer motivação para novas tentativas. E como um filho defeituoso, ou um relacionamento mal encerrado, o romance permaneceu décadas dentro de uma das gavetas do arquivo.


Após uma série de pequenas pressões e, principalmente, a insustentabilidade de lidar com essa falha primordial em sua vida, o velho resolve reiniciar a história e outro livro, dentro do livro, começa.

E o que lemos não é a historia de um escritor tentando reescrever seu primeiro livro e assim livrar-se de um sentimento recorrente de frustração; e sim um novo romance, com o mesmo protagonista, Koves, retornando a uma cidade abandonada por décadas, ocupada por personagens estranhas, desacostumadas a lidar com estrangeiros e com formas mais sofisticadas de retórica.
À medida que Koves passa a estreitar relacionamentos com as pessoas e os lugares, tudo passa, gradativamente, a aumentar seu sentido e sua densidade narrativa e ele descobre a capacidade inusitada de manipular e modificar tudo o que o rodeia.

Algo como um escritor encarnado em um alter-ego encarnado na reencarnação de um personagem antigo que faz conceitos intradiegéticos e extradiegéticos virarem uma grande bobagem de apostila do primeiro período de Letras. Enquanto caminhamos com Koves pela cidade revisitada e sabemos que, por trás dele está um escritor em desespero silencioso e, por trás dele, um outro escritor, percebemos o quanto as técnicas aparentemente irritantes e impossíveis do romance moderno quando bem realizadas, podem nos encher os olhos e as idéias.


Nas páginas de O Fiasco, lançado em 1988, Imre Kertész, húngaro, nascido em 1929, prêmio Nobel em 2002, demonstra a maestria e a criatividade que lhe valeram a láurea ao fazer o leitor, página após página, ir construindo e redescobrindo uma realidade há muito abandonada e, em cada entrelinha, perceber o quão inútil é tentar retomar o passado.

O melhor é reconstruí-lo aos nossos próprios moldes, com a técnica e o tato aprendidos ao longo da vida que nos permitem sobrepor, modificar e eliminar o que não pudera ser esquecido.


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