3.7.10

Vigia


Antes de começar o trabalho na escola, vou a um shopping pequeno e repetitivo, como tudo na cidade. Na barca de lançamentos da livraria, leio dois ou três títulos tratando sobre assassinos em série. Assassinos Célebres, Como Funciona a Mente de um Assassino. Um deles oferecia até mesmo explicações neurológicas, com gráficos e ressonâncias, sobre os desvios dos pontinhos de energia entre os neurônios. Uma grande, imensa idiotice. O que existe na mente dos assassinos é um monte de merda. Bosta mesmo, dessas que desgraçam sapatos.

Compro uma edição de bolso para ler em meu próximo turno noturno. Os livros da biblioteca da escola são uma tristeza. Não sei qual adolescente seria idiota a ponto de sentir qualquer estímulo pela leitura lendo José de Alencar e Tomás Antônio Gonzaga. Esses caras escreveram livros para gente que já morreu há muito. Deveriam ser relocados para a prateleira de história. Até porque em suas páginas não é difícil encontrar longas descrições sobre como se aparelhava uma carroça ou como se realizava um mero escovar de dentes pela meia-dúzia de grã-finos do Rio de Janeiro. História Para Broxas, se houvesse uma prateleira bastante específica.

Eu escolho uma edição de bolso. Faulkner. Enquanto Agonizo. Uma família de caipiras fodidos tentando atravessar um estirão para enterrar a matriarca da família simplesmente porque este fora o seu último desejo. Sei disso porque já lera sobre a história antes de ler o livro em si. Às vezes é bom ler descrições gerais sobre livros. Sem crítica, sinopses apenas. Saber o que se vai encontrar ali, entre. É como dormir com uma mulher de quem já se ouvira falar. Ou já a percebera de longe antes de tocá-la, de tê-la à frente, pronta para ser lida. Mas me perco. Vou ao caixa pagar o livro. As dez horas da noite estão próximas. O turno começa às onze.

E vai até as seis. Um livro e outro (sempre leio dois livros ou três livros paralelos) (dois, dessa vez) (o início de Enquanto Agonizo correrá paralelo a outro) (Meridiano de Sangue) (Cormac McCarthy) (dois livros sobre jornadas fúnebres) (dois norte-americanos) (quase uma coincidência) entre as rondas e, a cada duas horas, um gole generoso do gim sob a capa e a cada uma hora, um cigarro. A noite passa e quando vejo o dia já está. Interno. Presente na palidez do rosto.

Qual dos dois eu levo? Uma dupla de meninas adolescentes tem em cada uma das mãos um dos livros sobre assassinos. Um fascínio imbecil que passaria em poucos segundos se eles se vissem na presença de um deles. O suor no rosto, a expressão raivosa e covarde ao mesmo tempo. O cheiro de merda porque muitos deles não se seguram durante os ataques e borram as calças. E também porque estão cheios de merda por dentro. Sei porque vi.

Sei porque já dei cabo de alguns deles. Vi como eles são por dentro. Após terem sido ludibriados pelo chama intensa e constante. Após terem sido abertos pelo alfanje. Uns bostas que só ganham em indigência mental dos sujeitos que escrevem livros sobre eles. E dos cretinos que compram tais livros e, tendo ou não, ficam de pau duro ao lerem sobre tais escabrosidades. Gostaria de mostrar a eles como esses merdas travestidos de personagens fascinantes são por dentro. Sob a luz intensa e constante. Observando a si próprios, abertos pelos alfanje.


Um comentário:

San disse...

Você tem, Joao Francisco, a coisa mais necessária a um escritor de sucesso: o estilo sem parar. A gente devora uma linha do texto antevendo o prazer da próxima.

De novo, parabéns.

Abraço
San