21.8.10

Espátula


Comprei uma espátula. O lugar onde tenho aulas de direção fica entre duas lojas de materiais de construção. Decidi entrar no processo da habilitação. Ser apto a dirigir um automóvel e correr por entre as veias manauaras esburacadas onde transitam toda a sorte de idiotas que ignoram as tais leis de trânsito.

A sala de aula é numerosa. Em torno de quarenta. A maioria é composta por jovens e a outra parcela é composta por pedestres de idades mistas onde dois ou três já passaram da metade da vida.

Depois do primeiro dia, uma segunda-feira entre cochilos com a sensação de estar sendo parte de algo inútil (as pautas da aula são a leitura da apostila e a prova em si pode ser simulada online ipsi literis), decidi levar um romance para ler discretamente, além dos livros para planejar algo extra para as aulas da tarde. Após tal decisão, as aulas passaram mais rápido. E ainda faltarão três semanas para o término do curso.

Existe algo de cruel no determinismo hierárquico militar pelo fato de tal marcar o rosto e os gestos de quem passa muito tempo na caserna. Desde o primeiro momento suspeitei que o instrutor do curso havia sido soldado. E identifiquei o tipo de soldado; metido a inteligente, baseado e contestador, mas sem qualquer embasamento filosófico mais profundo. Apenas um reprodutor de informações e fatos. Um soldado preguiçoso que certamente aplicava pequenos golpes para ser poupado da parte pesada dos trabalhos. Na segunda aula ele disse que passara certo tempo no Exército.

A absorção de cultura é perigosa quando se teve uma infância plenamente ignorante. Por mais que se tente correr atrás do tempo perdido, também se faz necessário o desenvolvimento do poder de abstração, de noção de seu próprio corpo e existência para assim ter uma consciência crítica do conhecimento que se oferece de forma caótica. Quando isso não acontece, surge um sujeito como o meu instrutor da auto-escola: alguém que tenta desesperadamente parecer aculturado (ou mesmo com conceitos morais exemplares) quando na verdade continua sendo um ignorante chafurdado no senso-comum com o diferencial de possuir boa memória. Durante a condução de um automóvel a capacidade espacial e motora está acima das outras. Sendo assim, não é de estranhar que a imensa maioria dos pupilos do instrutor soldado nunca tenha lido um livro na vida.

Durante as explanações cretinas termino de ler Medo e Delírio em Las Vegas. Melhoro um pouco mais nas aulas. Da manhã, da tarde. Um timing que deve ser semelhante ao de controlar um veículo cheio de passageiros de várias idades. Volto para casa e me esforço para tirar um pouco o jeito acolhedor e desordenado assentado pela minha mãe desequipando a sala de seus bibelôs e tomando notas para o que deverá ser comprado para a manutenção das esquadrias e paredes. O primeiro item foi a espátula.

Ainda preciso comprar tomadas e receber umas dicas do Manual do Construtor. As últimas serão as tintas. Penso nisso voltando do trabalho, caminhando para casa, tendo a companhia discreta e simpática, por dois quarteirões, de um cachorro anônimo e negro. Vou ao supermercado comprar os víveres de quando estou sozinho em casa. Enquanto espero o pão, observo um casal em uma das ilhas da padaria. Eles possuem a mesma dinâmica minha e de minha namorada quando vamos ao supermercado e sinto saudades dela por isso. Sentir saudade do que existe e pode ser vivido é um dos meus pequenos objetivos e ainda bem que tenho conseguido sempre.

Martelo isso aqui. Você deve ter percebido. O fato de que mais vale martelar pregos do que tentar tirá-los da parede e não ter sucesso porque eles estão encravados e tortos demais para valerem o esforço em serem retirados. As paredes da minha casa eram cheias de quadros amadores pintados pelo meu pai. Todas as paredes da sala. Quadros de diversos tamanhos. Cores e temas em desordem.

Um dia, há um bom tempo, eu resolvi jogá-los fora com moldura e tudo. Um tempo depois, com os primeiros vencimentos do Exército, contratei operários para cobrir as paredes com massa corrida. Hoje ninguém consegue mais lembrar como os quadros eram exatamente. Suas posições, seus temas que impressionavam visitantes ignorantes. Com o expurgo das telas amadoras a sala ficou mais bonita. E ficará novamente.


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