9.8.10

A Volta


Desembarcamos após três horas e tanto de voo. O homem a aguardava entre tantos anônimos e me olhou incompreensivamente. Achou que eu me confundira e estava ao lado da mulher errada. Outra. Então a minha acompanhante sorriu e a sua desconfiança se dissipou na forma de espanto quando percebeu ser ela mesma. A mulher certa e não apenas isso: a mulher certa com a mesma idade que possuía quando a vira pela última vez, no final dos anos 90. Suas mãos nervosas permaneceram dentro dos bolsos.

Os dois se deram um abraço torto e intenso e olharam-se de forma pânica. Mas como, mas como, ele disse. Não sei... pergunta pra ele — e olharam pra mim. Eu disse não posso dizer como e tal coisa não interessa, o que importa é que vocês estão juntos novamente. Apenas aproveitem o milagre.

Obrigado xxxxxxxxxxx , você é o responsável por isso. Fico te devendo essa — o cliente agradeceu como se não houvesse depositado dez mil reais em minha conta.

Deixei os dois ex-namorados trocando impressões e desapareci entre as pessoas chegando e partindo. Eles darão as mãos e sentirão o cheiro um do outro. Em seguida irão a algum bar que evoque o passado e tomarão, cada um, várias tulipas de chope para criarem a coragem do beijo — um beijo torto, como o abraço, onde as línguas se estranharão e os dentes machucarão a parte interna dos lábios — e seguirem para o apartamento, onde farão um sexo bêbado e sem quaisquer outras nuances pernósticas que não sejam declarações vencidas permeadas pela palavra “lembra”. Espero que não dancem juntos.

Entro em casa. Tiro a gravata. Tomo um banho, troco de roupa e saio. Vou até o bar da esquina e encontro um amigo. Ato contínuo, o garçom abre uma garrafa de Original e pergunta tava onde, chefe? Manaus, respondo, e ele faz uma expressão idiota de quem ouviu algo inescrutável. E como foi? Agora é meu amigo quem pergunta. Proveitoso, respondo. Me rendeu dez mil reais, o que não te exime de dividir a conta. Pô, grana boa. Boa e simples, e é bem possível dele me dar um extra pelo fator surpresa.

A mulher com cara de anos 90 foi o fator surpresa. Com fumaça de cigarro e toques nos lugares certos a convenci de que era jovem novamente; e também a ensinei a convencer quem quisesse sobre tal milagre. Seu olhar e seu sorriso curto foram suficientes para ludibriar o ex-namorado e agora os dois possivelmente estarão trocando juras de amor renovadas sem sentido e viverão um romance que não durará muito; ou será dividido em compartimentos enquanto a mulher estiver tentando recuperar o tempo considerado perdido flertando desesperadamente com qualquer idiota que se deixe ludibriar pelos olhos e pelo sorriso que a fazem parecer mais jovem.

Isso possivelmente acontecerá por muito tempo e será visto com extrema estranheza por quem não compartilhar o delírio. Mas apesar do grotesco, ela estará feliz. Não sinto culpa.


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