1.2.13

Sobre a Dança


Era a segunda semana, duas semanas, durante as quais não escrevera nada. Nem ao menos tivera vontade. Ideias, muito menos. 

É difícil escrever. Um ato meio que ilha. Cada um na sua. Escrevendo coisas. Como se escrever fosse um ato obsceno. Não há problema algum quando alguém declara gostar de dançar. Há estranhamento quando alguém gosta de escrever. Dois corpos: o do escritor e o do dançador, e  quão interessante e ridículo deve ser o ato de ambos quando observado sob um olhar não humano: 

Um dançador movendo o corpo, sentindo um ritmo e realizando movimentos sem utilidade. Um escritor sentado frente a um editor de textos, jogando com olhares empolgados e gananciosos como um dançador, baixando a cabeça, escrevendo atos sem sentido, inúteis, como uma dança da qual ninguém lembra. 

Toda a dança de dedos e de pernas e de braços. Toda a dança em si, tudo, em suma, demonstra-se magnânimo em sua falta de sentido. 

Todos dançam, porém. É humano perder tempo, distrair-se durante atividades. Morre-se dançando e escrevendo.


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