14.6.13

Revoltas


Sinto-me alienado a respeito de tudo o que vem acontecendo durante as últimas horas. Os mecanismos responsáveis pelo aumento das taxas, pela reclassificação dos preços, pelo aumento dos impostos.

A mesma Avenida Paulista, pacífica, grandiosa e consumista, sendo tomada por protestos sobre os quais eu, alienado, desconheço a mecânica dos fatos. 

Eu moro em Manaus, uma cidade onde o sol é muito forte; onde apenas os burros ou muito inteligentes ganham grana de verdade; onde os inteligentes se queixam, onde os inaptos fogem e tentam pertencer a outras cidades sem nunca esquecerem do sol e do povo que vem em sonhos. 

Sinto-me ainda mais alienado pelo fato de não me revoltar quanto a isso. Apenas reclamo. Poderia explodir a cidade. 

Como diria o Coringa, não se precisa de muito. Apenas fósforos e querosene. Mas não. Não faço nada além do civilizado.

Apenas sou roubado em tempo integral. Tenho cada centavo ganho com o meu trabalho repartido à revelia e nem me dou conta disso. Pior: tenho apenas noção disso mas, o meu salário, apesar de todo o saque, ainda é suficiente. Volto pra casa e fico de boa.

O que mais me incomoda, porém, não é tanto roubarem o meu dinheiro em tempo integral; e sim não saber quem são os verdadeiros culpados. Não saber quem eu deveria matar para começar a podar o mal, a esperteza. 

Soaria desumano, mesmo anticristão, querer resolver o problema matando os causadores de tal. 

O problema é ter sido o próprio Cristo - seja ele o Deus ou o histórico - morto por gente da mesma laia que ainda hoje manda e dita e distorce e explora. Gente má. Gente que merece ser extirpada, morta. 

Ele foi morto. Ninguém fez nada. Nem Ele, nem o Povo, nem o Pai. Isso me causa uma desesperança danada na resolução de todos os grandes problemas. 

Me apresente a igreja do Deus da Revolta. Um Deus que mate os injustos, os usurpadores e os exploradores com um julgamento tão lógico e claro quanto a Lei da Gravidade. Um Deus que mate os maus, que os impeça.

"Meu Deus", eu diria.


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