5.3.15

Deuses, Criaturas e Solidão






Deus e criação são o leitmotiv do romance Frankenstein. Desde a sua publicação discute-se quão perigoso pode ser o homem imitar Deus e manipular a vida e a morte por si próprio.


Em "O Mal Estar na Civilização", Freud comentou o fato de o homem ter se tornado um deus por meios de membros artificiais e acessórios magníficos auxiliares da vida; mas ainda ser incapaz de fazer os órgãos originais crescerem novamente; e que tais tentativas não raro o puseram em más situações. No romance de Mary Shelley, Dr. Frankenstein consegue burlar essa limitação ao criar e reviver não apenas um membro, mas todo um novo corpo inteligente. A consequência, apesar de funcional, tem aparência monstruosa e não leva muito tempo até tornar-se a nêmesis do seu criador.


Além da conexão criador-criatura e do ódio derivado pela tal,  Dr. Frankenstein e a criatura dividem um forte sentimento: a solidão. Ela é a causa de todas as ações terríveis e vingativas do monstro e é como ele inflige ao seu criador a maior punição possível: o desespero de ser sozinho, o único de uma espécie. A criatura solitária faz o seu criador se transformar em um deus solitário.


É interessante como a ideia da solidão dos deuses conecta tanto textos ateus quanto textos religiosos. Ao fazer uma breve busca sobre o tema, encontrei um ensaio escrito por um reverendo chamado Noel E. Bordador. Em seu ensaio, ele diz: "Deus, porém, não é o único que é sozinho. Nós também somos criaturas solitárias. No cerne de nossa humanidade está a necessidade de amar apaixonadamente, e a nossa necessidade de ser amado incondicionalmente.".


Nós não somos diferentes dos personagens de Mary Shelley. Nós precisamos ser amados e o nosso Criador também clama por ser amado incondicionalmente. Nós somos versões elegantes e civilizadas do monstro: somos compostos por partes dos nossos antecedentes, partes essas organizadas geneticamente de uma forma tão complexa a ponto de não sabermos qual parte veio de qual morto. Nós precisamos encontrar uma versão de nós mesmos para a vida não se tornar tão intolerável. Nós tentamos desesperadamente encontrar o nosso Criador e obter respostas às perguntas que nos fazemos durante toda a vida. A solidão, porém, isola ambos, Criador e criatura, e o romance nunca tem fim.



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