1.3.15

Drácula e o Romance Epistolar: Fascinante ou Frustrante?




"Drácula" é a pedra fundamental da literatura vampiresca. Se o romance nunca tivesse sido escrito, não teríamos certeza se o gênero e as suas variações culturais teriam se tornado tão populares e se mantido por tanto tempo. As variações e reinvenções do gênero bordam o infinito, mas o seu cerne sempre será a obra de Bram Stoker. 


É bastante comum decidirmos ler "Drácula" muito tempo depois de termos sido introduzidos a adaptações da história original; após termos assistido filmes ou mesmo lido outros romances sobre vampiros (no meu caso, as Crônicas Vampirescas de Anne Rice). Nós também já podemos ter sido introduzidos aos personagens Jonathan e Mina Harker, ao nobre Dr. Van Helsing e, obviamente, à figura do conde imortal. E pensamos que se as adaptações da história original já foram suficientes para nos dar calafrios, o romance original será ainda mais pungente: os personagens serão descritos em detalhes e cada capítulo terminará com um susto e encadeará o próximo.

Isso não acontece. O romance segue o estilo epistolar. E o leitor não raro tem que organizar uma sequência cronológica de cartas e documentos de modo a fazer a história ter sentido. O poderoso e infame conde Drácula é apenas uma sombra maléfica presente nos relatos dos narradores e, seguindo a estrutura epistolar, todos os seus atos são contados tempos depois de terem sido realizados. Quando os narradores, mesmo sob grande estresse e medo, encontram tempo para redigir longas cartas - algo impensável em uma situação como a qual eles estão submetidos.

A característica principal do romance epistolar é tentar dar verossimilhança ao que está sendo contado. Em "Drácula" isso funciona bem como estilo por si, tentando mostrar ao leitor como seria a reação das então pessoas comuns a um ser sobrenatural se o mesmo vivesse em um mundo "real". A estrutura da história, porém, perde muito da sua tensão e profundidade quando nós, leitores, apenas vemos partes de algo que poderia ser uma narrativa ainda mais densa e profunda. 

A estrutura epistolar matou a força da ação narrativa e causa uma grande frustração em quem lê o romance pela primeira vez. Mas esta mesma frustração também é responsável pelo desejo de recontar uma história cujos personagens são tão interessantes. A necessidade de reinventá-los, bem como ao universo ao qual eles pertencem e de, enfim, tentar "corrigir" a falta de ação do romance original, é a principal conquista deste romance.

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