19.6.15

Nós não deveríamos dormir juntos. 

   Eu sou quase um ano mais velho que você. Você é quase um ano mais velha do que eu. Eu sou quase dez anos mais velho que você. Você é quase vinte anos mentalmente mais nova do que eu e também quarenta anos mais responsável do que eu; e eu sou alguém mentalmente trinta anos mais velho do que eu mesmo deveria ser, e com uma raiva de vinte e cinco anos passados.

   Você gosta de apanhar e eu gosto de bater porque a mão de quem bate também apanha e ficam marcadas tanto uma quanto a outra. Depois de um tempo, ambas saram. 

   Você dorme e eu acordo em horas diferentes. Eu penso em organismos, em átomos desorganizados e você pensa na sociedade como um todo


 malaise /mælˈeɪz/ noun [ S or U ] formal
a general feeling of being ill or having no energy, or an uncomfortable feeling that something is wrong, especially with society, and that you cannot change the situation 



   Eu vou à varanda e vejo trabalhadores do sistema de saneamento vestidos todos na cor laranja. Eles não percebem que eu os observo enquanto fumo.


   Eu leio Thomas Ligotti e John Green. Sou um homem complicado intelectualmente. Em minhas veias correm a crítica ao capitalismo e uma vontade imensa de morar em Porto de Galinhas. Um humanista pacifista que quer ter o seu próprio rifle para apontar a quem ousar invadir a sua propriedade.

   Eu quero ter algo mais pelos próximos trinta anos. Ocupar uma área deste planeta afundado em merda. Habitado por uma maioria explorada, ignorante. A humanidade nunca foi emocionalmente tão burra quanto tem sido hoje em dia; e você não concorda mas mesmo assim me ouve. Pensamos em bolos de aniversário. As pessoas cheias de problemas — por que eles existem?

   As pessoas não sabem. Eu não sei. Mas vivemos / ganhamos a vida assim / vivemos por ganharmos a vida. Tocantes à ignorância: Não existissem os ignorantes, os precisantes de cuidados, os que não sabem aprender um idioma por si próprios ou a viver por si próprios, teríamos que vender flores, maçãs, bandeirinhas do Brasil no Sete de Setembro.

   Eu admito a ignorância dos outros. Não admito a nossa. As paredes da nossa caverna devem ser mais brilhantes que a dos outros. Mais limpas. Eu me recuso a admitir o contrário. Uma bela amostra de ignorância. Recorro aos livros. Eles são o meu tutor, o meu deus, o meu guia adotado por mim mesmo. Um monte de papel que ecoa e mim. Um eco imaginado e silencioso.

   Os livros tornaram-me inteligente, cruel, agressivo, amoroso. Os livros proporcionaram-me tudo o que sei de substancial. E continuarão. 

   E acredito que nunca, na história da humanidade, duas pessoas que nasceram exatamente no mesmo momento, hora, minuto, segundo, centésimo, treparam. E, ainda menos provavelmente, amaram-se tanto. 


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