6.9.17

Um trekker em formação



Assistir Star Trek faz você se tornar uma pessoa melhor. Primeiro porque se você decidir assistir a todas as séries: The Original Series, The Next Generation, Deep Space Nine, Voyager, Enterprise e mais a Discovery (prestes a estrear) não sobra muito tempo para odiar ou fazer muitas coisas erradas. 

Segundo, porque os valores mostrados nas séries fazem ter esperança na humanidade, vislumbrar um futuro onde nem países existem mais e a ética humanista, não religiosa, guia as decisões (quase) sempre sábias dos comandantes. O coletivo antes do individual. A amizade antes da missão.

Cada um dos comandantes ensina algo ímpar. Kirk a ser passional, mas sempre guiado pela razão. Além de sempre beijar a garota quando possível, não importando de qual planeta ela seja ou mesmo sendo uma andróide. Piccard a ser firme e sempre optar pelo discurso antes de usar a força. Janeway a ter muita paciência, mesmo que a sua missão leve literalmente uma vida inteira. Sisko a aceitar entreveros mas sem se resignar com isso, e Archer a ter coragem, não ter medo do que acontecerá, mesmo sem muitas vezes ter a menor idéia do que virá pela frente.

E há os volcanos. Spock, principalmente. Todo fã de Star Trek (eu pelo menos) tenta ser como ele em vários momentos onde tentamos agir e resolver coisas logicamente. E falhamos. Na verdade não conseguimos ser tão bons como nenhum integrante principal da série nem em suas virtudes e nem em seus defeitos. Não consigo beber tanto quanto Mr. Scott e ainda ser apto a consertar um mecanismo movido a antimatéria, ou segurar a onda como Mr. Tucker ao esfregar gel antiséptico e ser esfregado pela T´Pol. Mesmo assim continuo tentando. 

Inconscientemente sempre fui fã da saga. Quando criança tenho a memória do VHS de Star Trek II, À Procura de Spock, e lembro do quanto fiquei impressionado ao vê-lo indo de uma criança a um adulto em poucos dias. Nos anos que se seguiram, vi alguns filmes sem seguir a sequência, sempre gostando, mas sem assistir os episódios organizadamente pelo fato de então ser bastante difícil (e caro) encontrar e encomendar séries, muito menos abrir um serviço de streaming e ter todos os episódios organizados, prontos para serem assistidos.


Ao lembrar da maravilha tecnológica que era o video-cassete e compará-lo com o computador à minha frente percebo o quanto o tempo passou rápido. Mesmo não estando no planeta Gênesis, me sinto um pouco como o Spock. Um dia criança, outro adolescente e agora adulto indo para os quarenta. Por enquanto a lembrança, distorcida, mas lembrança, é o único time warp possível.   

Ainda sobre a questão do tempo, se você decidir não assistir mais nada além de Star Trek, levaria pelo menos um ano até você conseguir assistir a todos os filmes e episódios já produzidos. Sem contar os livros e os jogos. É preciso muita gostar muito. E não é difícil gostar muito das séries, mesmo se você incompreensivelmente não é fã de ficção científica.

Assim, para você dizer a alguém que é um trekker e se garantir, leva tempo. Eu decidi começar a minha graduação, digamos assim, após o reboot da franquia. Comprei a caixa com todos os episódios da série original (a qual teve apenas três temporadas, sendo que a terceira é considerada bem ruim) e todos os longa-metragens da série original e os da Nova Geração. Agora estou terminando os episódios da série clássica e assistindo as primeiras temporadas das outras séries pela Netflix. E aguardando a Discovery ansiosamente. 

A cada episódio - onde normalmente os problemas mais catrastóficos se resolvem nos últimos cinco minutos - vou aprendendo mais um pouco do que não considero uma cultura inútil; e sim algo possível de existir um dia. Vislumbrar coisas que, se acontecerem, acontecerão muito depois de eu não mais existir. Além de os personagens serem muito bem criados e desenvolvidos com uma impressionante dedicação do elenco: em momento algum você pensa que William Shatner não está realmente vendo uma nave se aproximar pelo monitor, ou que qualquer figurante não está realmente circulando pelos corredores de uma das naves ou em uma estação espacial no fim do universo.

Não sei quando termino de assistir a todas as séries Star Trek, mas um dia chegarei lá. Verei os créditos subirem e, ao me olhar no reflexo da televisão, não sei ao certo qual aparência terei, mas espero estar aqui. Antes disso, porém, espero que o mundo real não acabe antes; e que um dia cheguemos a pelo menos um vislumbre do que é mostrado em Star Trek. 

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