8.10.17

O horizonte



O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — e o céu caindo mais adiante, bem mais à frente, já na avenida Constantino Neri — em um silêncio constante talvez interrompido em um dia onde não haverá mais gente — pontuado por luzes de torres desconhecidas e prédios de apartamentos cheio de gente dormindo — muda de cor.

Penso na inclinação da Terra. Estamos ou não de cabeça para baixo? E, se estamos, qual diferença faz para toda a ordem das coisas? Ao nosso redor — fora da Terra — tudo é absurdamente silencioso. O silêncio do universo, mesmo com tantos planetas girando furiosamente, tanta grandeza — e gás — é inexplicável como todo o resto.

Girando o ponto de vista. Indo muito, mas muito longe, em uma distância impossível de imaginar para olhos humanos, há um homem bastante semelhante a mim com um livro sobre o colo. A existência deste homem é tecnicamente possível. O universo é largo o bastante para existirem muitas Terras iguais a nossa e gente semelhante a nós. Esse homem semelhante a mim é mais magro — diferente do outro outrora semelhante a mim — em um lugar ainda mais distante — envelhecido de forma gorda torta e incorreta. E a magreza e ou a gordura são totalmente irrelevantes: o homem é o mesmo. Eu neste universo ainda resisto ao envelhecimento óbvio. Descubro e confirmo através dos olhos de outrem o fato de tanto eu quanto a minha mulher aparentarmos ter menos idade. Não tenho trinta e sete anos.


Alguém viu este horizonte antes de mim, neste lugar exato? Não, nunca. Ninguém nunca esteve suspenso neste apartamento. Piso muitos metros acima, imitando o chão. Piso, muitos metros acima, imitando o chão. Piso muitos metros, acima, imitando o chão. Piso muitos metros acima. Imitando, o chão.  

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