31.5.18

Apto

Depois de dois processos expirados e um terceiro em margens de tornar-se dramático, finalmente consegui minha licença para dirigir.

Cresci não fazendo caso em dirigir um carro. Os dois únicos motoristas constantes da minha infância e adolescência eram o meu avô paterno e o meu tio marido-da-minha-tia-por-parte-de-mãe. Entrar em um carro era, então, algo distante. Uma coisa a ser feita por alguém, não eu.

Meu avô não deixava ninguém dirigir o seu carro porque ele, o meu avô e o carro, pertenciam à mesma empresa. Cara, meu avô é o único homem que eu conheço que trabalha aos domingos, eu pensava, mas em compensação é o único cara que eu conheço que pode usar o carro da empresa para fazer o que quiser quando não está trabalhando. Todo domingo, uma hora antes do almoço, meu avô buzinava à porta da minha casa. Eu e minha irmã entrávamos no carro e descíamos dele às nove da noite, após ter passado a tarde em uma casa de velhos e adultos onde não consigo mais lembrar o que fazíamos para o dia passar tão rápido. 

Meu avô só largou a chave do carro depois de morto. Nunca incentivara nenhum dos quatro filhos a dirigir; pelo contrário. Não sei se por proteção, ou por relacionar o carro ao trabalho constante. Ele sempre fora um motorista constrangedoramente lento: não passava dos quarenta por hora. Lembro de uma época onde ele mandou instalar uma buzina extra.  Um botão negro, disfarçado sob o painel. Quando acionado, imitava um mugido. Lembro do som do boi-buzina chamando a atenção dos transeuntes do bairro da Redenção ou do Alvorada. Meu avô sorria alheio a qualquer constrangimento: um adolescente que mandou instalar uma buzina bovina no carro da empresa. Após a sua morte, o carro continuou na família. Eu não mais.

Mal-humorado e fechado, meu tio era e ainda é, não sei, o cara mais difícil do mundo para oferecer uma carona a quem quer que fosse. Ir da Praça 14 até Flores (dez minutos de viagem) parecia ser para ele o mesmo que uma viagem interestadual de trinta e seis horas. Até onde sei, ele também não encorajou os meus primos a dirigirem seu carro ou qualquer outro. Porém, ao contrário de meu pai e de meus tios, meu primo mais velho nasceu na Praça 14 e não deu a mínima pra isso. Fez autoescola e, pouco tempo depois, estávamos saindo sorrateiramente para o Porão do Alemão. No carro do meu tio. Sem ele saber.

Me habituei a ser passageiro. Não fazendo questão de dirigir um carro não por não poder fazê-lo; e sim pelo fato de não ter tido inclinação social a isso. Algo como não ter licença pra velejar ou pilotar. Encontrei as vias de me locomover iguais à da maioria. Ônibus, terminais de ônibus, Sinetram, voltar a pé do Manaus Show Clube ao Manoa, táxis sazonais. E minha vida continuaria assim, se não fosse Joanne.

É estranho não ter um carro e a tua mulher ter um carro. O carro não é teu, é da tua mulher. Sendo assim, você não tem obrigação de dirigir: o carro não é teu. Mas e se a tua mulher precisar de alguém pra dirigir o carro dela? O carro não é teu, mas a mulher é tua. Você tem o dever de cuidar dela para sempre. Incluindo, aí, ter que entrar em um carro e dirigi-lo sem problemas caso o problema surja. Daí a necessidade da aptidão para dirigir. Estar legalmente ok pra entrar na máquina para apertar os pedais e, ao mesmo tempo, guiar o volante e observar os três espelhos.

Cada uma. Cada. Uma. Das vezes onde eu poderia ter dirigido um carro que não é meu e não pude por não saber ou, mais pra perto do agora, saber, mas não poder por não ter uma licença, surgia um sentimento ilógico, desmasculinizador, pelo fato de eu não poder entrar em uma máquina automotora e guiá-la. Spock me reprovaria em um teste de lógica básica. Por tudo. Quase tudo em relação à culpa social, e bastante por eu só ter sido, vinte anos após aos meus dezoito anos, habilitado.

Mesmo assim, ainda mantenho a minha defesa de menino pobre, sem carro na família e sem ninguém para me incentivar ou, melhor, bancar o meu processo de habilitação. Ninguém. Nenhuma das pessoas da minha família, apesar de acreditarem em mim, não colaboraram em nada como tutores ou financiadores de uma carteira de motorista. 

Voltando após o drama. Porra, man. Era pra você ter passado na porra do primeiro teste de direção em janeiro. Você não passou. A tua mulher, tua mulher, vai fazer uma cirurgia em fevereiro, olha só, ela fez, e tu não podes leva-la no carro dela mesma porque tu não passaste na porra do exame de direção! A família dela ajudou no volante. Percorri todos os perímetros dentro de nossa casa para ajuda-la na recuperação. Deu tudo certo.

Ok, tem uma segunda chance. Aí tu falha, né? De novo? Porra, esquecer de acionar a luz de saída? Duas vezes?! Puta merda. Ok, tem a terceira. Aí nessa tu reprovas e nem sabe o porquê. Complicado. Tu vai te juntar ao coro dos traumatizados ou, pior, ao dos lisos que nem nunca pegaram uma carona com um avô ou um tio calado e contido. Aqueles senhores de mais de sessenta anos que conseguem assentos nos ônibus por pena e andam com uma sacola de supermercado em cada mão. 

Aí vem a quarta tentativa. Tu faz tudo a uma semana do teste. Procura uma autoescola barata onde duas atendentes gêmeas estão em silêncio e uma terceira, quase semelhante a elas, te atende e agenda o serviço de um carro da mesma marca do qual tu treinaste e isso é tudo que tu tens: uma marca, uma data e uma placa. 

O dia chega e o instrutor é pelo menos quinze anos mais novo que tu. O carro, entretanto, parece mais velho que tu. O Palio morre continuamente durante a aula extra. O teste começa. Puta merda, a mesma coisa. E se eu queimar a garagem e ser eliminado? Não queima. E se eu errar a baliza? Não erra. O carro morre à tua revelia.

Saio para o percurso apenas com uma vida das duas possíveis. O examinador entra no carro e logo após o bom dia diz: qualquer erro médio você sabe que tá eliminado, certo? Sim, mas vamos com fé, eu digo. Recolho uma simpatia muda do homem de meia-idade que passa a semana andando em círculos, mas que tem o poder de barrar gente a entrar legalmente em um veículo por não ter dado um sinal à esquerda, por exemplo. 

O teste termina quando pergunto onde devo parar e, ato contínuo, ele aponta um spot, arranca a minha carteira de identidade grampeada junto ao teste (eu ainda com 15 anos de idade na carteira) e a joga sobre o painel do carro para sair sem dar tchau. A porta fica aberta. Escancarada. Eu me inclino e a fecho. 

O instrutor volta para pegar a chave do carro. Eu agradeço pelo seu tempo e digo, em tom divertido, que espero nunca mais precisar dele. Apertamos as mãos. Atravesso a avenida para fumar um cigarro. E meio, porque chega o micro-ônibus.

Nenhum comentário: